Com as presidenciais lá veio a eterna discussão da “reconfiguração da direita”, esse assunto cornucópia da política portuguesa. Primeiro com os resultados de André Ventura (e do Tiago Mayan) nas presidenciais. Depois, quando o nosso Adolfo Mesquita Nunes (quando é que ele volta à escrita aqui no Delito?) desafiou Francisco Rodrigues dos Santos para um congresso, vendo o CDS mirrar e perder peso. Uns levantaram-se em seu apoio, a começar pelo grupo parlamentar, outros cerraram fileiras em volta de “Chicão”, invocando uma “tentativa de golpe” e outros deixaram os órgãos partidários aos quais pertenciam sem contudo se juntar às hostes rebeldes. O presidente da formação manteve-se, embora enfraquecido. Não é propriamente um facto inédito: se há partido português com historial de lutas fratricidas é exactamente o CDS. Freitas sempre teve de enfrentar dissensões e afastou-se com a ascensão de Monteiro, que protagonizou mais tarde uma luta feroz com o seu antigo amigo Paulo Portas. Os apoiantes deste nunca se conformaram com a chefia de Ribeiro e Castro e não descansaram enquanto não repuseram na liderança o seu inspirador. Cristas teve de enfrentar críticas duríssimas e agora Rodrigues dos Santos sofreu um levantamento de rancho. Aquele partido leva as lutas tão a sério que até já teve estalo a valer nos seus congressos – pelo menos num Avelino Ferreira Torres andou à pancada com outro confrade. E neste caso não seria mal maior se não tivesse a Iniciativa Liberal e o Chega a limitar-lhe o espaço, problema que antes não havia.
A ajudar à dita “reconfiguração” Pedro Santana Lopes saiu do seu Aliança, que tinha criado há pouco mais de dois anos, e anda por aí à procura uma câmara municipal disponível que lhe sirva de poiso.
Faits divers à parte, e deixando um pouco de lado a interminável discussão da direita portuguesa (à qual vou voltar em breve), a situação do CDS não deixa de ser intrigante. O partido sempre se gabou de ter três componentes: a democrata-cristã, a liberal e a conservadora. A liberal pode estar a mudar-se para a mais enérgica e definida IL; a conservadora dará a sua preferência ao Chega, muito embora este seja um emaranhado de coisas que pouco tem a ver com o conservadorismo clássico, o que daria razão aos que desconfiavam que o CDS albergava alguns reaccionários sem outro pouso e que muito do seu eleitorado estava à direita dos dirigentes. Mas e o democrata-cristão? Aquele que não se revê na face libertária da IL nem nos vitupérios de Ventura ou aproximações a LePen? A julgar pelas sondagens é minoritário, embora até conheça vários que estariam numa situação de orfandade caso o partido desaparecesse. O assunto é também objecto de análise de um artigo recente de André Lamas Leite.
Não é para menos: a democracia-cristã, cujo berço será a Itália nos inícios do séc. XX e o Partido Popular de Sturzo e De Gasperi (é em sua homenagem que o PPE e restantes partidos populares se chamam assim), está em acelerado declínio, mesmo que parcial e nominalmente ainda pareça dominar em alguns países, como a Alemanha e a Áustria. Mas definitivamente parece estar longe da força e da influência de outros tempos, talvez por vivermos em sociedades que se têm vindo a tornar mais seculares, e o CDS é a prova nacional disso.
Mas não é caso único. O comunismo, que, para voltar a um exemplo anterior, durante décadas dividiu eleições em Itália com a mesma democracia-cristã, teve uma queda abrupta desde os anos oitenta e ninguém minimamente lúcido aposta nos amanhãs que cantam como força dominante. Mesmo nos países de regime comunista, como a China e o Vietname, já é algo bem diferente do maoísmo original (muito embora permaneça o controlo ditatorial da sociedade), e Cuba é de uma decadência inimitável. Da social-democracia também há anos que se ouve falar do seu esmorecimento, e tirando alguns países onde o poder a mantém, como Espanha e Portugal, tem caído a olhos vistos, como em França, Grécia e Alemanha. O conservadorismo encontra-se numa cruzamento de dúvidas, entre versões descafeinadas e apelos reaccionários. O liberalismo, embora tenha alguns seguidores entusiastas, não parece ser capaz de formar governos, talvez vítima do seu próprio sucesso, já que as suas principais premissas foram cumpridas na maior parte dos regimes democráticos. A extrema-direita teve de abandonar, ao menos à superfície, quaisquer inspirações fascistas, sob pena de ficar absolutamente marginalizada. E as querelas entre monárquicos e republicanos não têm nem um naco da relevância de outrora.
Parece que as ideologias que nos habituámos a seguir no séc. XX já viram dias mais pujantes. Os partidos portugueses também as seguem, e por ora ainda resistem, embora se vejam sinais de erosão no CDS, como se disse, e no PCP. Dir-se-ia que o que realmente está em ascensão são os partidos ecologistas e “verdes” (e mais modestamente os animalistas), o nacional-populismo, ou seja, direitas radicais ou extremas convertidas à democracia (outra influência italiana?) e em certa medida o liberalismo. Serão estas as futuras ideologias predominantes? Veremos confrontos entre estes blocos políticos, reduzindo os restantes -ismos a discussões bizantinas ou a memórias históricas? Terão a companhia de novos movimentos – os federalistas, por exemplo? Ou juntar-se-ão a outras atrás descritas que irão novamente reerguer-se e ocupar o seu velho papel de hegemonia?


“…Adolfo Mesquita Nunes (quando é que ele volta à escrita aqui no Delito?) desafiou Francisco Rodrigues dos Santos para um congresso, vendo o CDS mirrar e perder peso. Uns levantaram-se em seu apoio, a começar pelo grupo parlamentar,..”.
Se, como bem escreve, no sistema político em Portugal os partidos merecem os votos dos seus (já poucos) eleitores pois representam, tanto quanto possível uma, a sua ideologia de estimação e partindo do princípio óbvio que o líder em exercício no partido é o #1 e o mais qualificado interprete de essa ideologia … porque será que tal como o que aconteceu com Passos Coelho, os grupos parlamentares que um novo líder herda continuam a representar o partido, na AR, contra o pensamento do novo líder?.
Desprestigiar de este modo o sistema não ajuda ninguém, eleitores e nomeados. De que estão à espera?. O problema da abstenção será mesmo o almejado voto por e-mail?.
Como resolver? Os deputados prescindirem dos lugares para que foram eleitos? E se os substitutos também comungarem das mesmas ideias (aqui haveria uma excepção, que seria o próprio Rodrigues dos Santos)? O normal é que as listas tenham sobretudo gente da confiança dos dirigentes do momento.
JPT permita-me. “Os deputados prescindirem dos lugares para que foram eleitos?”. Os candidatos a deputados para a AR em Portugal não foram eleitos, eles mesmos, em nome, pelo eleitor. Foram, são escolhidos pelos respectivos partidos e inseridos numa lista como bem sabemos. JPT e todos os outros eleitores terão apenas votado numa sigla/icon. Não temos oportunidade de escolher um nome, uma pessoa responsabilizável, para nos representar na AR, entre candidatos de uma lista, no nosso círculo eleitoral.
Assim sendo essa “gente da confiança dos dirigentes do momento” lógicamente acaba o seu mandato quando os “dirigentes do momento” o deixarem de ser. Óbvio.
A dado passo haverá uma AR composta por gente a providenciar a mais alta, nobre e responsável função do Estado que é o legislar, mas que já não representa nem o seu ex-partido, nem absolutamente ninguém, a não ser o seu próprio umbigo. Em roda livre. Enfim, infelizmente a caricata AR a que temos constitucionalmente direito. O resultado está à vista.
Terá de esperar a resposta do JPT. Eu sou na melhor das hipóteses um JPP.
Mil desculpas aos dois.
Está desculpadíssimo.
Infelizmente continuam a não saber o que criou os erros do Séc XX por isso os erros vão ser repetidos.
Em Itália a mentira política que nasceu da Segunda Grande Guerra é mais difícil de se sustentar…ali é mais difícil os jornalistas censurarem os anos 30.
«Popolo Italiano! Fascisti della vecchia guardia! Giovani fascisti! Noi comunisti facciamo nostro il programma fascista del 1919, che è un programma di pace, di libertà, di difesa degli interessi dei lavoratori, e vi diciamo: Lottiamo uniti per la realizzazione di questo programma»
Entretanto a França política e intelectual soa o alarme sobre o centro do Marxismo mundial : Estados Unidos da América, como uma ameaça à Republica Francesa. rance-expresses-alarm-about-americas-dri ft-into-left-wing-radicalism/ 59139829418758146
https://libertyunyielding.com/2021/02/09/f
https://twitter.com/ggreenwald/status/13
“Obama-endorsed French President Emmanuel Macron has joined numerous French intellectuals & journalists in warning that “out-of-control woke leftism of US campuses and its attendant cancel culture” poses a grave threat due to the social strife it creates”
Acha que o problema se limita ao marxismo? Olhe que os fasci di combatimenti tiveram algumas mudanças sérias desde a formação.
Se falarmos no Ocidente é 80% do problema para ficarmos por facilitismo com Pareto…há problemas externos, problemas que a tecnologia vai trazer, o Estado fora de controlo. Mas o problema essencial começa pelo neo-Marxismo . Como táctica de poder adicionou às classes sociais que explora, classes raciais, sexuais . Hoje temos culpa pela cor da pele ou seja racismo puro , duro, universidades, cargos políticos e candidatos com quotas raciais e sexuais, censura, despedimentos, listas negras, violência política contra indivíduos e instituições chamada pelos jornalistas : “protestos” quando é no sentido que apoiam e “revoltas” no sentido que não.
A citação que coloquei acima é de 1936. Palmiro Togliatti e outras eminências Comunistas.
Em 1943 na RSI o programa económico era socialização da economia e da empresa para não existir à “exploração do homem pelo homem”… o “ministro da economia” era um fundador do PCI tendo várias vezes conferenciado com Lenine, também era amigo pessoal de Mussolini. Nicola Bombacci.
O erro político da Segunda Grande Guerra Mundial é este, fazer querer que o Fascismo não originou no Marxismo e Socialismo. Boa parte, mesmo muitos dos que são anti-comunistas não entendem que raio é o Marxismo: Uma cultura de poder primitiva pois não aceita limites ao seu poder. Quando o caminho para modernidade tem sido o inverso, o liberalismo, ou seja o caminho para limites a quem tem o poder.
O neo-Marxismo hoje põe toda a modernidade em causa.
E nem estou a considerar a degradação na qualidade das pessoas quer profissional quer pessoal.
Não querendo colocar de parte a enorme influência do marxismo em tantos aspectos da vida actual (os determinismos, o materialismo, a crença de que todos os acontecimentos foram planeados e conspirados), parece-me que 80% é francamente exagerado. As culturas ancestrais também pesam, ainda que tenham séculos ou até milénios. E o marxismo pode ser a forma actual de coisas mais lá de trás (o politicamente correcto é um “digno” herdeiro do puritanismo protestante norte-americano).
Também gostava de ver o Adolfo Mesquita Nunes aqui, a opinar. E outros/as com responsabilidades políticas.
Entretanto, permita que diga o seguinte:
1. Nesse “caminho incerto”, se tudo se mantiver igual dentro do ser-humano (190/300 mil anos), sabemos que qualquer nova reconfiguração Política utilizará dois pólos antagónicos, para fazer a oscilação simétrica isomorficamente inversa (chame-se Esq/Dir, ou outros nomes quaisquer).
2. Logo, quem conseguir conquistar a liderança de cada um desses dois pólos, dominará o novo regime político que virá.
3. Esses pólos (tal como os atuais, e como todos os outros que os antecederam na história humana) formaram-se em torno das questões cruciais para a Adaptação e sobrevivência. Logo, para adivinharmos em torno de quê se vão formar os próximos, teremos de acertar nas questões que serão cruciais para a adaptação e sobrevivência no presente e futuro. Porque o debate político advirá dos desafios que elas colocam. É isso que provocará, ou não, a adesão dos eleitores.
4. De todas, considero duas essenciais. I) A «nova territorialidade» implicará, a prazo, uma reconfiguração das actuais fronteiras dos países. Mas primeiro, na fronteira das relações inter-individuais (veja-se a repercussão eleitoral no caso dos ciganos, no racismo, no género, etc). Hoje não há actividade profissional que não congregue pessoas de inúmeras nacionalidades e proveniências étnicas; habitando e partilhando todas o mesmo território.
II) A «robotização do trabalho e a transição digital» implicarão uma mudança nos “meios de produção”. Exigirão novas qualificações e competências profissionais, e uma reconfiguração do ensino e formação. Já que terão uma repercussão directa no emprego e nos rendimentos das pessoas.
5. Quem vão ser as Personagens, a quem os eleitores confiarão credibilidade para liderarem estes desafios? Serão os actuais líderes do CDS, IL, Chega? Serão novamente o António Costa e o Rui Rio? A Catarina, a Joacine, ou o PAN não serão certamente. Quem será?
6. Porém, há uma terceira mudança que, talvez, seja ainda mais estruturadora. Apesar de ninguém ir falar dela, nessa luta pelo poder político na próxima década. Refiro-me à exploração do espaço exterior ao planeta.
7. E sobre essa terceira mudança adaptativa do actual ser-humano, apetece perguntar o seguinte: … A Terra não será a última vez que estamos juntos? Juntos neste sentimento de humanidade conjunta e global, decididamente antropocêntrico, antes da divergência que a longa viagem para o exterior fará à espécie humana? Cada qual não irá para o seu sítio, fazer o seu Mundo? Os que se organizarem melhor para fazer isso (países, nações, comunidades), não serão os que serão mais prósperos e desenvolvidos aqui, agora, na Terra nas próximas décadas? Portugal integrar-se-á nalgum desses grupos, ou ficará na multidão indiferenciada dos países pobres?
8. Talvez a ansiedade contemporânea, devido à incerteza do caminho como o João Pedro Pimenta referiu, também tenha a ver com esta terceira mudança. Pré-anuncie a vontade de querermos partir — tal como quando precisamos de «arrumar as coisas antes de uma longa viagem». Partir para outro lugar diferente da Terra, e para outro Ser diferente do «H. sapiens sapiens». Não por causa de qualquer arbítrio infundado, ou de qualquer deriva filosófica e ideológica. Mas por causa do mesmo esquema de adaptação e sobrevivência que nos conduziu a sermos o que somos no processo da Vida. Para que tudo não termine por causa de qualquer coisa que nos caia em cima aqui na Terra, em resultado de um diletantismo imprudente. Isto é, para obviarmos à falta de tempo e de espaço para onde irmos, antes que aconteça.
9. Julgo que os líderes políticos, nas próximas décadas, emergirão em torno da capacidade de lidar com estas questões. Logo, de convencerem os eleitores de que são capazes de os resolver melhor ou pior. Porque são elas que afectarão directamente a vida e a subsistência das pessoas.
Gostava imenso de responder, mas nem sei qual vai ser a situação daqui a meio ano, quanto mais daqui a vários anos. Se vivÊssemos tempos normais ajudaria um pouco.
vendo o CDS mirrar e perder peso
Não viu nada. O CDS mirrou somente e apenas nas sondagens. Na prática observada, não mirrou. Sondagens não são votos.
Caiu nas europeias e legislativas de 2019. Caiu nas regionais de Madeira e Açores, ainda que tenha ntrados nos governos. Bastantes militantes abandonaram o partido, como por exemplo um dos candidatos à liderança do ano passado. Como vê, isto não se resume a sondagens.
Caiu nas europeias e legislativas de 2019.
Nas legislativas não caiu, porque concorreu numa aliança, não se sabe quanto teria tido se tivesse concorrido sozinho.
Nas europeias também não caiu, porque em 2014 concorreu numa aliança (mesmo argumento).
E, se o problema tivesse sido as eleições de 2019, então porque é que a crise só é declarada em 2021?
Bastantes militantes abandonaram o partido
Não sei se isso é verdade ou não, porque não tenho acesso aos ficheiros de militantes do CDS (você tem?). De qualquer forma, (quase) todos os partidos políticos portugueses perdem militantes, o CDS não é caso excecional.
Acha que os piores resultados de sempre em europeias e legislativas (em 1987 teve 4,3%) não são uma queda? em deputados caiu com toda a certeza, passando de 18 para 5. A crise está declarada desde aí, quando Cristas saiu, não em 2021. Agora é só o avolumar.
Disse que o CDS perdeu militantes porque vários vforam os que vi a desfiliar-se, incluindo dirigentes. Se um candidato à liderança no ano passado (e outros com ele) saem do partido, isso significa alguma coisa.