O bom vento de Espanha


Pedro Correia,

Enquanto em Portugal está já tudo a postos para a rendição total à ortografia brasileira, após um simulacro de “acordo” em que apenas uma das partes cedeu, em Espanha limitam-se a limar arestas linguísticas, como se vê. Dois modos muito diferentes de lidar com o idioma oficial, cá e lá. Falta-nos a nós o que sobra a eles em auto-estima. É o suficiente para que um mundo nos separe.

18 comentários em “O bom vento de Espanha”

    1. Por cá, pelo contrário, a ordem é virar tudo de pantanas: temos horror à palavra reforma, adoramos o termo revolução. E adoramos pôr-nos de cócoras perante o que vem «lá de fora». Enfim, o costume.

  1. Exacto.
    Não é uma fronteira.
    É algo de muito mais profundo.
    Hoje vou referir o Pedro no meu blogue.
    A propósito do apelidar Liu Xiaobo, constantemente, de dissidente.

    1. Repare na diferença de conceitos, Pedro, e como eles esbatem totalmente a realidade. Na oposição à ditadura de Salazar, distinguiram-se o comunista Álvaro Cunhal, o socialista Mário Soares, o monárquico Paiva Couceiro e até o católico Pereira de Moura, entre muitos outros.
      Luis Corvalán era um opositor comunista à ditadura de Pinochet, José María Gil-Robles distinguiu-se como opositor democrata-cristão à ditadura de Franco.

      Nenhum deles alguma vez foi classificado de “dissidente”. Na China, todos os opositores são “dissidentes”. Como hoje sucede também em Cuba ou dantes sucedia na União Soviética. Ao opositor, nos países comunistas, os responsáveis por esses regimes não concedem sequer o direito a ter uma ideologia própria, diferente da ideologia comunista. E os órgãos de informação dos chamados países livres fazem coro com esses responsáveis, chamando “dissidentes” a quem ousa divergir da corrente dominante.
      Um democrata é um democrata. Não é um dissidente.

      (E deste comentário acabo de fazer um ‘post’. Abraço)

  2. Rendição total o tanas! Eu não me rendo, muitos colegas meus não se renderão e se todos fizessem o mesmo, podíamos dizer-lhes onde enfiar este “aborto” ortográfico.
    Não vou substituir todos os meus dicionários, que tanto me custaram a coleccionar. Não vou substituir todos os meus livros, não há corrector ortográfico, nem Priberam que lhes valha. Se um dia tiver um filho, ele não poderá ler os meus livros, como eu fiz com os do meu pai, sob pena de estar a aprender Português incorrecto? Também não vou actualizar o meu cérebro com uma versão qualquer empobrecida de Magalhães 2012.
    Se já se via tanta asneira escrita, a partir de agora será o descalabro. Três gerações (mais coisa, menos coisa), duas formas de escrever Português. A mais velha escreverá o Português “arcaico”, os mais novos escreverão a “novilíngua” e os restantes que se amanhem.
    Se ao fim de tanto ano, ainda há gente a fazer contas de cabeça em Escudo, pergunto-me como será com o nosso Português?

  3. Não tenho elementos para afirmar que o acordo dele seja bom depois de ler o artigo.
    Pode-se discordar do acordo ortográfico português, mas não é certo dizer-se que é uma rendição total à ortografia brasileira. Esta perdeu o seu trema (que nós talvez incorrectamente tirámos há muito) e nós ficámos com o nosso facto, entre outros exemplos. Tal não quer dizer que Portugal não tenha cedido mais, mas ao menos antes ceder ao Brasil que rastejar na UE e ao FMI.

    1. O Brasil perdeu o residual trema. Nós perdemos todas as impropriamente chamadas consoantes mudas, excepto (por enquanto) o H. O problema, ao contrário do que diz, não é perante quem se rasteja. O problema mesmo é rastejar.

        1. Numa notícia recente a propósito do Nobel chinês encontrei duas expressões típicas do “português do Brasil”, a provar a nossa rendição total até para além daquilo a que o acordo obriga: “A casa está cercada por policiais” e “A esposa de Liu Xiaobo encontra-se em prisão domiciliar“. Nada a fazer, o português acomoda-se num ápice e as novelas ajudam bastante.

          1. Há muito tempo que ninguém te dava um pretexto para embirrares com a palavra… deixei essa de fora para ti, de propósito.
            😉

  4. “Mas já dizemos fila em vez de bicha”.

    Eu estou como a Ana, digo bicha. Fila nem tem nada a ver com o brasilês, sempre ouvi em Lisboa. À má fila…

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