A primeira vez que fui a Lisboa teria uns 17 anos. Gostei da cidade: tinha zonas com dimensão e monumentalidade da capital de império que efectivamente era, tinha aqui e além bairros sossegados e melhor clima que a região chuvosa de onde sou natural. Porém, não tinha praticamente vida nocturna, era difícil comer fora de horas, a baixa, e de modo geral a cidade para construções antigas, estava degradada. Os habitantes eram frequentemente cómicos, na imaginária superioridade que se atribuíam por causa do cosmopolitismo que julgavam ser uma inerência da capital do país mais africano e periférico da Europa, e da vida cultural que, então como agora, mas provavelmente menos, era pobreta, patega e dependente do Estado e da Gulbenkian.
Lisboa e o país mudaram muito, e desde 2014 muitíssimo, por causa da realidade nova do turismo. Por aquele ano o mundo pé-rapado que viaja descobriu que havia uma cidade, e um país, onde os terroristas não faziam atentados, não havia criminalidade que se visse, não se comia mal, era barato e acessível pelas low-cost que então explodiram, e ainda tinha meia dúzia de monumentos que se podiam visitar e os turistas verem-se uns aos outros, que é o propósito da maior parte deles. Portugal ficou na moda, em suma.
A cidade começou a renovar-se e nasceram como cogumelos hotéis, apartamentos, alojamentos locais, restaurantes e toda uma parafernália de equipamentos destinados a aliciar o turista e aliviá-lo dos seus quase sempre magros estipêndios de viagem.
O país ganhou – muito. Tanto que o governo do dia se enfeitou com o maná para o qual não contribuiu e cedo começou a onerá-lo com impostos, taxas e taxinhas, por causa da pecha socialista de espoliar o cidadão que mexe para comprar o voto do que está parado, baseado no cálculo simples e eficaz de que os primeiros são sempre menos numerosos do que os segundos.
Ganhou o país, ganham muitos directamente e outros indirectamente, mas a mudança criou problemas – no preço da habitação, por compra ou arrendamento, na descaracterização da cidade (acirrada aliás por uma gestão do licenciamento da construção pilotado por autarcas que não conseguem decidir ao certo se são moderninhos vale-tudo, conservacionistas, empreendedores de pacotilha, visionários ou simplesmente corruptos) e na densidade de tráfego.
Para a gestão municipal os lisboetas elegeram um demagogo autoritário e inepto. E para resolver este último problema a personagem em questão sacou das profundas da sua mentalidade neo-rousseauniana um projecto de regresso a uma cidade sem automóveis individuais onde se pode andar despreocupadamente, os senhores de tanga e as senhoras libertas de constrições a seus interessantes seios.
A medida é uma tolice, como se defende na petição que assinei, e que está aqui.
Surpreendentemente, tem defensores – não há asneira e abuso que os não tenha, constata-se melancolicamente. Diz um deles, Daniel Oliveira: “… 400 mil carros por dia, muitos deles com apenas um ocupante. Com os dos lisboetas, são 600 mil. Não cabem”.
Não? Cada carro ocupa aí uns 10 m2, portanto todos (dando como bons estes números) caberão em 600 estádios de futebol, ou seja, 600 hectares, quer dizer 6 quilómetros quadrados, portanto 6% da área ocupada por Lisboa.
Impressionante, não é? Nem por isso, se nos lembrarmos que a razão por que se veem carros por toda a parte é que há muitíssimo poucos parques e o aparcamento é permitido nas ruas, embora pagando em muitos casos, o que dificulta a circulação. As pessoas ocupam mais espaço do que o automóvel (ninguém vive em 10 m2, excepto se for sem-abrigo) mas, precisamente porque assim é, construiu-se em altura, e cabem todas, não obstante serem quase tantas como os automóveis (quinhentas e tal mil).
Não se fez a mesma coisa para os automóveis porque havia alternativa – parar ao relento. Agora que essa solução bate na parede (uma parte da descrição que faz o bom do Daniel Oliveira baseia-se em factos) seria urgente construir parques em altura. Coisa que não parece excessivamente difícil se o estacionamento nas ruas for proibido sempre que contenda seriamente com a fluidez do tráfego, o que garantiria rendimento aos empreendedores. Não se me venha com o pé-ré-pé-pé da descaracterização e da fealdade porque a boa arquitectura integra, parques em altura ou qualquer outra coisa, a má choca – e disto Lisboa não tem falta de exemplos.
Concordo com o argumento de não se poder sempre utilizar um bem público, como é o espaço, quando a utilização contende com os direitos dos outros. Mas precisamente por isso – ofensa de direitos – é que algumas das medidas previstas no tal Plano celerado são intoleráveis: então agora os moradores das zonas fatídicas só podem receber mais de dez pessoas por mês se estas vierem a pé ou nos meios de transporte que os poderes públicos não vetam? E as autoridades ficam a saber quem recebe quem, e quando, se as visitas vierem de automóvel?
“… os condutores lisboetas passam, em média, 42 minutos por dia presos em filas de trânsito. 160 horas por ano. Perdem uma semana de trabalho por ano à procura de estacionamento, o que contribui ainda mais para o congestionamento da cidade”.
Este exórdio destina-se a pintar como deseconómica a situação actual, e é uma cedência ao ar do tempo: qualquer medida, não importa quão estúpida, não interessa quão abusiva, é apresentada como tendo efeitos benéficos para a economia. Na cultura é igual: torram-se milhões a sustentar parasitas e patrocinar bens sem procura e apresentam-se estudos sofisticados a demonstrar que o bodo teve uns efeitos multiplicadores milagrosos.
Claro que há inúmeras coisas que se podem fazer para minimizar os inconvenientes da densidade automóvel, a menor das quais não é o investimento, que não se faz, na expansão e melhoria do metropolitano. E é seguro que não há uma solução universal para todas as zonas da cidade, nem tudo é possível em toda a parte, e cada zona requer uma mistura de soluções diferentes. Mas escolher uns moradores certos para neles dependurar o ónus da reconversão da cidade, com o propósito de os daniéis desta vida lá poderem flanar a gosto? Juízo: é que nem me dou ao trabalho de desmontar o resto do artigo, que seria gastar cera com ruim defunto.
“O futuro pelo qual os nossos filhos se manifestam não se fará sem derrubar a ditadura do carro.”
Não perguntei às minhas filhas, que de toda a maneira não são dadas a manifestações. Mas adivinho que acham que, no futuro, as ditaduras dos engenheiros sociais é que não haverão de querer.
Não quererão engenheiros sociais mas também dispensam lírios compagnons de route. É que já depois de escrito este post tropecei no artigo de João Miguel Tavares, um entusiasta da gestão socialista de Lisboa que acha que “os carros afastam; as ruas aproximam”. Bonita frase, sem dúvida – acontece muito às frases significando nada. Porque as tais quase 400.000 pessoas que se deslocam diariamente a Lisboa não vão ver as vistas; quem faz isso são os turistas e Tavares. Vão lá por necessidade e, como não são masoquistas, nem andam a nadar em dinheiro, iriam de outra forma que não o automóvel individual se tivessem alternativa satisfatória.
Alternativas satisfatórias dão trabalho, requerem tempo, imaginação, opções acertadas e respeito pelas pessoas, que tendem a saber o que lhes convém – excepto, ao que parece, nas escolhas políticas.

Esses clichés lembram-me um ex-colega de trabalho, que defendia que nenhum prédio devia ter elevador (também fazia uns belos discursos sobre ecologia, finalizados com o arremesso da beata para o chão). Andar a pé faz bem, subir e descer escadas dá saúde.
Secretamente, só lhe desejava que a companheira empranhasse de gémeos, para ele poder fazer um upgrade ao “workout” diário. E se Deus Nosso Senhor juntasse a isso uma hérnia ou parecido, melhor ainda.
Lisboa cada vez mais cidade-postal. É o que se quer.
subir e descer escadas dá saúde
Grande erro, em que muita gente acredita.
Subir escadas é péssimo para as articulações dos calcanhares, as quais não foram feitas para esse tipo de exercício. Tal como correr, aliás, que também é muito danoso para o esqueleto, que não foi feito para o impacto repetido dos pés no chão.
Descer escadas é um sério risco de queda grave, sobretudo para pessoas idosas, já com equilíbrio deficitário.
As pessoas têm que aprender que o exercício físico é uma coisa muito boa, mas deve ser feito de formas que não prejudiquem nem coloquem em risco o corpo.
Não fomos feitos para subir escadas, não fomos feitos para correr, para nadar também não (faltam guelras e barbatanas), afinal parece que eu tenho razão: tenho esqueleto adaptado a ficar sentadinho no sofá.
A medida não é tolice nenhuma. Em todas as cidades europeias atuais há zonas pedonais. E em todas essas cidades, naturalmente, têm que se fazer exceções e regulamentos que permitem que somente certos automóveis circulem nas zonas pedonais, somente em certas ocasiões bem especificadas e delimitadas.
Se o José Meireles Graça visitar Salamanca verá que a zona ao redor da Plaza Mayor não tem automóveis. E em Viena, a zona ao redor da Stefansplatz, idem. Nessas zonas moram pessoas e há comércio – muito comércio, aliás, e florescente – e naturalmente que há regulamentos que permitem que automóveis circulem, mas somente sob muitas restrições.
Portanto, Lisboa somente passará a ser uma cidade europeia como tantas outras. Nada mais.
Não quererão engenheiros sociais
Disparate. Isso é uma das tais frases bonitas mas que não querem dizer nada.
Qualquer edil de uma cidade é um engenheiro social. Por exemplo, quando Kruz Abecassis, o Presidente da Câmara de Lisboa do partido do autor deste post, transformou a praça do Saldanha num escoadouro de automóveis, basicamente impedindo toda a circulação pedonal aprazível por lá – ele foi um engenheiro social.
O problema não é haver engenheiros sociais, o problema é haver maus engenheiros sociais, engenheiros que queram engenhar a sociedade em direções erradas – como Kruz Abecassis, o tal engenheiro social do partido do José Meireles Graça.
Por falar em prioridades, hoje foi corrigido o maior absurdo fiscal do país.
Votem neles.
Meu caro, você bateu no fundo ao falar aqui do ser mais execrável da televisão portuguesa… Daniel Oliveira… o cabeçudo mas vaidoso da história e o opinador mais miserável dos media deste país
aqui onde?
seria urgente construir parques em altura. Coisa que não parece excessivamente difícil se o estacionamento nas ruas for proibido
Mesmo que fosse proibido estacionar nas ruas, não se construiriam parques em altura, por uma razão muito simples: é mais rentável construir prédios para habitação humana, ou para escritórios ou para serviços, do que para estacionamento.
Ou seja, havendo espaço disponível e onde seja permitido edificar, um investidor preferirá sempre construir prédios de habitação a construir garagens em altura.
Por isso, para que se construa garagens em altura não basta proibir estacionar na rua – é necessário que os poderes públicos, através do PDM e de regulamentos locais, o imponham.
O “mercado”, só por si, nunca o fará.
O Alm***ina vai criar um parque jurássico para turistas, comissários da nomenKlatura socialista, esquerdóides caviar, LGBT com pedigree, PAN’s com heráldica verde.
Tudo “regado” a avilezes chiadenses, sendo o reconhecimento facial e trazeiro, uma mais valia para o sossego dos novos patricios.
Esta sociedade cor de rosa governada por o Ente do qual não podemos escrever, dada a sua eterna santidade que vela pelo bem estar desse parque.
A outra sociedade de “humanoides” e escumalha vive ao redor desse “paraíso rosa” no mundo da realidade real do dia dia
A.Vieira