O baile do acaso


Luís Naves,

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Sempre me fascinou aquela ideia de que existem almas gémeas para cada um de nós e nestes dias modernos até se escrevem algoritmos para tentar iludir o grande baile do acaso em que vivemos e onde é possível que dois parceiros ideais se cruzem muitas vezes no meio da multidão sem jamais se encontrarem de facto. Há quem se apaixone em numerosas ocasiões na vida, há quem infelizmente não tenha ilusões sobre o amor, cada um sofre à sua maneira. Um dia, de forma cruel, podemos encontrar a nossa alma gémea já em fase adiantada dos anos e podemos talvez pensar no que teria acontecido se o destino nos fizesse encontrar a ambos mais cedo, mas será demasiado tarde para desfazer o que foi, as crianças que nasceram e cresceram em vez das que nunca existiram, as memórias que ficaram em vez das que nunca foram inventadas. Sempre me fascinou este mito enraizado de se esconder na escuridão furtiva do tempo aquela pessoa perfeita que era só para nós. Sempre me fascinou o mito de que há uma estação do nosso caminho onde fatalmente nos devemos encontrar os dois, desviando cada um a sua linha de vida, para ser tudo divino até à estação terminal onde morreremos tranquilos, na beatitude do amor autêntico e completo, o único que não passando pelas coisas corriqueiras da biografia humana é, por isso mesmo, inatingível.

14 comentários em “O baile do acaso”

  1. O seu pensamento levou-me a concluir que a fatalidade consiste mais em esperar obter o que não temos para oferecer. Consequentemente, imaginamos que só alguém especial receberá do que nos der.

    Estou em crer que esta equação possa estar relacionada com as expectativas frustradas em uma infância mal conseguida. A infância é o local da entrega e da confiança; é o principal palco da vida de cada um. As fases seguintes, consoante as circunstâncias, ou são de renascimento ou de morte.

  2. Passado o tempo propício tudo ou quase se esvai.
    As pessoas serão nominalmente as mesmas mas já irrecuperáveis naquela candura–aquele engano de alma dito pelo Camões.
    Haverá que procurar noutro lado e de outro modo.
    O acaso ou as Moiras tecem os caminhos,encontros e desencontros.

  3. É interessante vir aqui ler a ironia que deixa incólume o desacerto ortográfico lido por milhões, que deveria ser modelo para incautos ou não (sendo gritante a falta do revisor mas é sabido haver o curador das almas dos que nesse lugar escrevem e lêem), além do surpreendente achamento nos comentários do conceito que mal adivinho chamado “moira”. Com a mesma disposição, por acaso, acho reunida a ‘fatalidade’ – ou destino, ou fado… -, se calhar a melhor aproximação ao ‘karma’, termo que pelo contrário o lituano-polaco Czeslaw Milosz diz não existir na cultura ocidental.
    O meu contributo para o post com atmosfera literária de ‘Anna Karenina’.

  4. Camus : “Dai-me sempre o tempo da esperança e não o da realidade”.
    Impossível um tipo não se identificar com o seu belíssimo texto.

    JSP

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