O apocalipse da Grécia.


Luís Menezes Leitão,

O termo grego αποκάλυψις (etimologicamente “tirar o véu”) significa “revelação”. Devido ao livro atribuído ao apóstolo João, que descrevia as suas visões escatológicas na ilha de Patmos, a expressão “apocalipse” passou a também a ser usada para designar o fim do mundo. E em certo sentido, a polissemia até se justifica, uma vez que há revelações tão dramáticas que delas só pode resultar a catástrofe generalizada. É por isso que até na Bíblia avisadamente o Rei David diz: “Põe deveras uma guarda à minha boca, ó Jeová. Põe deveras uma sentinela sobre a porta dos meus lábios” (Salmos, 141, 3).

 

Parece-me que algumas revelações deste tipo andam a ser feitas pelo novo Ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis. Segundo se pode ler aqui o Ministro é iconoclasta, criativo, não quer guerra, não faz bluff, e gosta de rir de si próprio. De facto, o referido Ministro parece ser uma pessoa muito simpática, vai continuar a ser um conhecido blogger,  e até podemos simpatizar com a forma desarmante com que responde a uma entrevista séria da BBC. A questão é que um Ministro das Finanças tem que ter muito cuidado com o que diz, o que não parece ser o caso deste, e as suas declarações podem vir a ter consequências muito sérias.

 

Vejamos o que diz o Ministro das Finanças nessa entrevista: Que não quer a extensão do programa de resgate, nem receber mais dinheiro da troika, porque o problema da Grécia não é um problema de falta de liquidez, mas sim um problema de insolvência. Eu por acaso estou de acordo com ele e acho que meio mundo também está. Só que esse meio mundo não ocupa o cargo de Ministro das Finanças da Grécia, porque uma declaração dessas vinda do Ministro das Finanças grego tem um significado óbvio: que a Grécia se prepara para declarar imediatamente a bancarrota. É a solução óbvia porque até já tem saldo primário para o poder fazer, uma vez que eliminando o pagamento dos juros consegue sustentar-se internamente.

 

Só que uma declaração de default de um Estado não se faz com pré-avisos desta ordem. Faz-se de forma súbita, acompanhado de medidas de congelamento imediato de todas as contas bancárias e de controlo das saídas de capitais. Porque depois de o Ministro das Finanças fazer estas declarações não me parece que haja um único castiçal que fique na Grécia ou que sobre um cêntimo nas contas dos bancos gregos. Na verdade, esta revelação do Ministro das Finanças é mesmo o apocalipse da Grécia, pelo menos no que ao sistema monetário europeu diz respeito.

0 comentários em “O apocalipse da Grécia.”

  1. declarar imediatamente a bancarrota. É a solução óbvia porque até já tem saldo primário para o poder fazer, uma vez que eliminando o pagamento dos juros consegue sustentar-se internamente.

    Ora bem, tem toda a razão. E não sei por que é que há tanta gente que não repara nisto. Ou finge não reparar.

    1. Consegue sustentar-se internamente graças à “austeridade” que quer reverter e não apesar dela.

      Podem não pagar e entrar em insolvência. Mas isso tem que partir da Grécia e tem consequências.

      Os estatutos do BCE (e.g.) não permitem que o BCE perdoe a dívida, ou que compre dívida de um credor em falta (logo, não há QE para a Grécia).

      E muito se fala da Alemanha, mas existem mais países na Europa. O governo Esloveno caiu por causa da ajuda à Grécia.

      Há bastantes países que emprestaram dinheiro à Grécia cujo salário mínimo é inferior ao da Grécia. Falar em repor o salário mínimo às custas dos credores devia ser inaceitável para todos eles.

      1. repor o salário mínimo às custas dos credores

        O salário mínimo não é reposto às custas dos credores, é reposto às custas dos patrões. São eles quem pagam os salários.

  2. De acordo. Devo dizer que me pareceu uma pessoa assim, desde que o comecei a ver na TV, com modos de um tipo meio amalucado.

  3. Se ouvir com atenção o conjunto das declarações de Varoufakis, ele diz que a situação já era de insolvência antes, e que portanto a receita aplicada de atirar dinheiro para cima do problema esperando que um país falido consiga pagar ainda mais, e ainda por cima impondo-lhe condições que levam ao seu empobrecimento, além de errada é absurda.
    Ele já reafirmou que a Grécia quer pagar, mas com outros prazos e outras condições.

  4. Do ponto de vista da pura racionaldade económica, de facto, a confissão é sedutora. Ocorre, contudo, como Varoufakis saberá, tão bem ou melhor que eu, quando rogamos a um amigo que nos perdoe uma dívida ou a faça sem prazo a nosso benefício, arriscamos que esse tal amigo perca a qualidade de amigo. Ainda que a explanação do fracasso possa ser enternecedora ou plausível. Menos plausível será esperar desse agora conhecido um crédito de folha limpa.
    Quanto à táctica, não sei.

  5. Como sustenta o prémio Nobel da “Economia” Woody Allen:

    …” Resolver os problemas económicos é fácil. O que é preciso é dinheiro!…

  6. Não há insolvência nenhuma da Grécia. Tudo mentiras do socialismo vigente.

    Grécia é um país burguês que se habituou a viver do crédito , é rico e não quer pagar. Simples.

    E se há falência então os credores podem ir ao património do Governo Grego? Podemos começar pelos F-16, Tanques, Fragatas, etc etc..

  7. Sempre pensei que daqui a um mês se declarava a falencia da Grecia, saida do euro e no dia seguinte nova entrada com a paridade a 70% do que tem hoje. Dados os desabafos e parvalheiras a ideia é mesmo queimar todos os laços.
    Pobres gregos e pobre de mim que já vou arder com os 280€ que para lá mandaram em meu nome.

  8. Ah…mas tem um discurso articulado e cita o Dylan Thomas! Os de cá, citam as “sebentas” da Merckl e pouco mais!
    Prefiro o Dylan Thomas, que era bêbado, mas sabia escrever!

  9. Bem, no fundo o que ele diz é exactamente aquilo com que concorda. A Grécia tem vindo a ser sujeita não a uma reforma mas a uma deforma (is not a reforming but a deforming). E o que se subentende é que se pretende fazer uma indexação do pagamento ao crescimento económico e não a constantes empréstimos cujos juros acabam por retirar a liquidez que a economia gera e vai agravando ainda mais a situação.
    Se olhar para o passado, as negociações de 1953 tiveram exactamente estes pressupostos.

    Por que motivo alguém poderia considerar esta revelação (constatação) num apocalipse no sentido comum do termo?

    1. Parece-me que em nada errei no meu comentário. Permita incluir dois links, este:
      http://sicnoticias.sapo.pt/especiais/grecia2015/2015-02-03-Yanis-Varoufakis-propoe-substituir-divida-externa-por-outro-tipo-de-títulos

      e para que compreenda melhor o porquê de não considerar nenhum apocalipse tais revelações, incluo ainda mais este sobre os apoios que se vão construindo em torno de Varoufakis:
      http://sicnoticias.sapo.pt/especiais/grecia2015/2015-02-03-Deputados-alemaes-propoem-cobranca-de-impostos-aos-milionarios-gregos

  10. Quero ver o que o Luís vai dizer quando verificar que tudo o que disse não aconteceu — o Luís e todos os demais tudólogos que andam por aí a encher blogs (o que vale é que é digital e não faz pó) e as televisões e o catano. Especialistas do vento, ai deus e u é.

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