Contrariando a tendência que se tem verificado nas televisões, jornais e redes sociais em Portugal, não me pronunciei até ao momento sobre as eleições presidenciais no Brasil. Não o fiz porque nada ou quase nada tinha para dizer sobre um processo democrático num país soberano, onde os seus cidadãos têm total liberdade para escolher quem querem para liderar os seus desígnios. Até que ponto um cidadão português como eu, sem familiares brasileiros, que nunca viveu naquele país e que só lá esteve uma vez há muitos anos, teria o direito de “julgar” aquilo que um brasileiro, num país livre e democrático, deve ou não deve fazer, naquele que é o acto que considero mais sagrado da vida em sociedade? Nem sequer tenho o direito de julgar o voto de um meu concidadão. Mesmo que não concorde ele, por uma questão de respeito democrático e cívico, devo tentar compreender o seu gesto, mas nunca estigmatizar.
É quase como condenar ou criticar publicamente um casamento, a relação de um crente com a sua Igreja, os princípios que norteiam a educação que uns pais dão a um filho, ou seja, “contratos” sociais basilares que sustentam a vida em sociedade e que resultam, única e exclusivamente, da vontade e convicções individuais. Para mim, a relação do cidadão com o voto é igualmente sagrada e merece todo o respeito. Seguramente, todos temos direito à opinião e a proferi-la quando achamos que é oportuno, mas essa é uma escolha de cada um. Tenho uma opinião consolidada sobre o processo eleitoral que se vive no Brasil, mas nunca teria a pretensão de me colocar no papel de um brasileiro à boca de urna e de advogar aquilo que seria melhor para o seu futuro.
A democracia num Estado soberano é o direito de cada cidadão escolher de forma livre os seus governantes. Mas, como escrevi há umas semanas no Público, por não ser um sistema perfeito, a democracia pode provocar dilemas, pode gerar consequências nefastas para um sistema de Governo e país. E quando assim é, têm de ser as sociedades a reagir, com os seus mecanismos de “checks and balances” e, em último recurso, com a força imparável da vontade popular.
Independentemente das “fake news”, de todo o ruído mediático, dos excessos da campanha, das perversidades das redes sociais, os brasileiros têm ao seu dispor toda a informação para exercer um voto livre e consciente. Um voto dotado de todas as condições para que cada eleitor possa exercer o seu direito cívico da forma que bem entende. Ao depositar o boletim na urna, a responsabilidade do voto é apenas sua e só sua.
Não me parece que a moralidade e ética de cada cidadão seja um bom argumento para justificar escolhas individuais em democracias livres. De certa maneira, quando alguém critica o voto de um eleitor, pressupõe-se uma certa condescendência e até arrogância moral de quem “julga”. Em Portugal, nos últimos tempos, muitos analistas e comentadores (na verdade, activistas) não se têm coibido de fazer esse exercício, debaixo de um pseudo-manto de clarividência espiritual e intelectual que muitos advogam para si próprios. Lendo e ouvindo muitos destes “iluminados”, depreende-se que quem vota em Bolsonaro é imoral e quem vota em Haddad é virtuoso. Será mesmo assim?
Não me identifico com este tipo de visão. Identifico-me, sim, com o princípio democrático do voto livre e da consequente responsabilização desse mesmo acto. No “day after” não é apenas o Presidente eleito, seja ele qual for, que terá de prestar contas a “todos” os brasileiros, é também o eleitorado que terá que assumir as suas responsabilidades. Tudo pode correr bem, mas também tudo pode correr mal. E se o processo for doloroso, será o povo brasileiro que sofrerá as consequências das suas próprias escolhas, mas também lhe caberá a obrigação de encontrar as respostas para combater os males da sua sociedade.

Muito bem. Concordo, genericamente, com este post.
Concordo também, ufa até que enfim um português com bom senso. Sem palhaçada! Porque o que tenho visto ultimamente é um absurdo pessoas que nem brasileiras são dando opiniões, tentando influenciar eleitores sem conhecimento.
A Democracia insere-se num movimento filosófico mais amplo ancorado nos Direitos Humanos, numa Justiça Igualitária e numa Divisão de Poderes. A Democracia não se define,apenas, pela possibilidade de voto universal.
A questão axial, a meu ver, prende-se também com os “check and balances”, mas sobre como estes podem e devem defender a democracia do poder do voto popular. Quem nos protege da populaça?
Independentemente das “fake news”, […] os brasileiros têm ao seu dispor toda a informação
Esta frase parece-me a modos que contraditória. As “fake news” constituem informação falsa, que perverte e afasta a necessária informação verdadeira. Quem tem “fake news” não tem, em geral, informação: tem falsidades no lugar dela.
Dizer que “(…) os brasileiros têm ao seu dispor toda a informação(…)” demonstra que conhece muito pouco ou nada da realidade daquele país.
A sua postura merece toda a minha consideração e respeito. Verdadeiramente democrática. Por isso a subscrevo.
Boa tarde Alexandre,
concordo quando diz que rotular os eleitores, sem conhecer a sua motivação e grau de acesso à informação, é desnecessário e algo que só gera mais discórdia e intolerância. Por outro lado, fico sempre um bocadinho de pé atrás quando, a propósito das eleições brasileiras, se fala em fazer o balanço e o apuramento das responsabilidades no dia a seguir às eleições. Nesse dia, a confirmar-se a vitória da intolerância e da violência (a das palavras, que inevitavelmente só gera mais violência), será tarde demais para denunciar o grotesco daquela candidatura. Até lá, parece-me ser útil e desejável todo e qualquer alerta e denúncia que possa ser feito, daquele e deste lado do Atlântico, para o mal que espera o eleitorado brasileiro mas não só. Sou português, não tenho voto na urna, mas sinto-me implicado neste processo, pelas consequências negativas que amigos e familiares no Brasil podem sentir na pele na sequência destas eleições. É por isso que esperar para encontrar culpados, depois dos votos estarem contados, parece-me pouco.
Ora aqui está o desabafo dum democrata hipócrita.
Devo dizer que é com algum alarme e desconfiança que um século depois vejo renascer os bolcheviques, desta vez mascarados de activistas antifascistas, e muito jornalismo que de imparcial e factual, só pelo nome.
Acima de tudo, respeito Brasil e brasileiros o suficiente para não debitar preconceito ou julgamento pseudo-poiticamente-correcto mas sequestrado por determinadas ordens sociais e politicas, numa causa alheia. Em sua casa, cada um sabe de si.
Aos puristas de português, escrevo português de Portugal, que aprendi na escola, e não um o português de um tratado que no mínimo é – factualmente – ilegal.
No fundo, um texto muito longo para dizer que se uma maioria decidir que uma minoria tem de desaparecer, por exemplo, tem de ser exterminada como os judeus, estamos bem. É a democracia. Como se valesse tudo em democracia.
Isso já há muito foi dissecado, por exemplo Karl Popper.
É o que acontece com socialistas, querem exterminar desde culturas a classes sociais…
Mas onde é que coloca o limite em que apoia a violência do Estado pelo voto da maioria?
Se eu não quiser contribuir para um “sistema de ensino” que aliás me odeia você apoia o uso da violência para me obrigar a fazer?
E o SNS?
E a RTP essa instituição criada pelo “Fascismo”?
Até onde deixa aos outros a objecção de consciência? É só para as Forças Armadas?
Até onde deveremos poder dizer Não a fazer parte de?
“Se eu não quiser contribuir para um “sistema de ensino” que aliás me odeia você apoia o uso da violência para me obrigar a fazer?”
E um alentejano, porque diabo teve de contribuir para o Túnel do Marão? E um algarvio porque deve pagar a Carris de Lisboa?
Sou acérrima defensora do direito à não ingerência e do dever de não ingerência.
Mas vivemos num mundo global, onde nenhuma população assume todas as responsabilidade pelas decisões que toma nem nenhuma sociedade cria sozinha as respostas para os seus próprios problemas.
Dar opinião não é ingerência – já forçar posições é, seja por embargos seja por taxas seja por que outras medidas políticas for. Dar opinião sobre um candidato que será eleito não pelo que vale mas pelo que derrota é ainda mais premente – pelo que leio e ouço, incluindo a familiares, os votantes em Bolsonaro não votam a favor das políticas de Bolsonaro mas contra a corrupção do PT e contra a falta de segurança no Brasil. Não me arrogo mais clarividência do que quem defende Bolsonaro pelas suas políticas – isso, sim, é jogar pelas regras da Democracia. Mas ver manifestantes pró-Bolsonaro apresentar apenas o argumento “PT nunca mais” faz-me lembrar que nem o cansaço nem a insegurança são conselheiros esclarecidos.
Sou acérrima defensora do direito à não ingerência e do dever de não ingerência.
Muito bem. Estou consigo.
Concordo em absoluto. Olhe que temos por cá muitos javardos a opinar. Veja bem que o grande democrata Alegre e outros tais, pais da democracia, que até dão o prémio Camões a um brasileiro que só vê o seu lado perfeito.
Está na cara que o povo do Brasil quer mudanças.Em paridade com o PT temos por cá o Antoninho ” o artista”
Cumps.
Apesar dos argumentos apresentados me parecerem bem delineados não me parecem inexpugnáveis. O candidato Bolsonaro é, pelo que defende, um indivíduo preconceituoso, racista, inimigo de todas as minorias sociais de que a dos homossexuais é apenas um exemplo e da grande maioria sempre minoritária que é a luta das mulheres pelos seus direitos. Quem assim atropela direitos humanos e o declara intencionalmente, não serve para mandar num país. Quem se propõe à violência despudorada, pode servir como candidato, mas não tem as qualidades de um bom líder. E isto pondo de lado conceitos de direita e esquerda, sem rótulo político.
Se os brasileiros não o enxergam tal como se apresenta, se não o ouvem, se não pensam no que ouvem…talvez precisem experimentá-lo. Um dos riscos da democracia é gerar e permitir o seu contrário.
A luta das mulheres por seus direitos é também terem o direito de votar em Bolsonaro. Maioritariamente elas votaram em Bolsonaro, Bea.
Creio que existe o preconceito de algumas mulheres pensarem que a luta por seus direitos é o da maioria das mulheres. Em Portugal até se admitiu a existência de quotas. E essas mulheres continuam a lutar por direitos.
Mas essa dos atropelos a minorias e do racismo está muito mal contextualizado e explicado.
O problema que Bolsonaro causou pelo uso da palavra “pretalhada” só revela que o alvo pertence a uma etnia mais vulnerável, e não por ser racista. Creio que por esta mesma semântica o futuro governo deverá dedicar mais atenção aos factores que contribuem para esta vulnerabilidade, e não só à repressão. É um trabalho para ser feito por uma geração e que os anteriores governantes pensavam que seria através da permissividade que isto se esbateria.
A repressão deve trazer consigo a possibilidade de reintegração. Ordem e Progresso significa isto mesmo. Mas não sejamos ingénuos, o crime não acabará.
Tanta gente preocupada com o Brasil e ninguém preocupado com o paraíso venezuelano ali ao lado………..
Concordo plenamente com o que escreveu, sem dúvida nenhuma. A mim o que me preocupa, no Brasil ou noutro qualquer lugar é perceber que a Democracia, está a produzir mais desigualdade que igualdade, mais ódio do que união, muito mais dinheiro mas também muito pior distribuído.
Por outro lado apenas se está a prestar atenção às questões financeiras deixando para segundo plano as questões sociais.
E isto cria todas as condições para o aparecimento de candidatos que anunciam a salvação a troco de menos liberdade o que para mim e como se comprovou pela história, dá péssimos resultados.
Por acaso, ainda que respeitando o voto e opinião de cada um lamento, mas não gostava nada de voltar a regimes em que a liberdade de expressão pode ser punida.
Muito bem e a situação é mais grave do que parece. Portugal deve ser o país campeão na manipulação e na diversão. Já um comentador experiente dizia que não conhecia nenhum país onde se falasse tanto em futebol como cá.
Assistimos constantemente a manobras de diversão para desviar a atenção do essencial e iludir/enganar as pessoas. Esta é a verdade. O trabalho de alguns é gerar ruído e fazer querer às pessoas que os assuntos importantes para nós são os que estão a ser discutidos. E enquanto estamos entretidos a discutimos assuntos internos dos outros países, não discutimos os nossos assuntos incómodos. Há factos graves que acontecem cá mas desses não falam! Por exemplo os mecanismos de “checks and balances” não funcionam. Mas isto deve ser muito complicado para alguns!
Depois vemos alguns “iluminados” dizerem que agora (está na moda) TUDO é (ser) importante. Sim tudo é importante desde que dê para criar diversões! Desgraçados de nós se TUDO é importante!
Faltou dizer que os que mais criam diversões são os media, por exemplo:
– Quanto custa ao real madrid despedir lopetegui
– Jordi Alba nao gosto do real madrid mas oxala lopetegui possa manter o seu trabalho
– E muitas outras além do futebol
O Real-Madrid é um clube espanhol, nós temos mais que fazer do que estar a levar constantemente com isto!
E agora a pergunta para 1 milhão!
Será que com tantas (não)notícias nós sabemos mesmo tudo, ou há certas coisas que não querem que as pessoas tenham conhecimento?
Mesmo que fosse um clube português, sendo um clube privado e não estando em causa dinheiro dos contribuintes, eles que se entendam. Porque razão uns “iluminados” acham que temos de saber isto?
Já agora pergunto aos “iluminados” se há alguma coisa que nós NÃO temos de saber?
O que me causa estranheza é os “comentadores avençados” não realçarem que o ex-presidente democrático brasileiro está na cadeia por corrupção / roubo… não por dar pão ao povo.
Amendes
Este artigo enquadra-se numa rábula que vi por aí: Era uma vez a cigarra que não gostava da formiga e votou no insecticida. No final morreram todos, até o grilo que se absteve.
Vou roubar esta… magnífica súmula!
À vontade.
Anda pelas redes sociais, os animais podem variar.
num sei que, e mais, mais do mesmo, ate que se confirmou a suspeita pelo que fui lendo : a preferencia pelo bolsonaro. No caso, do alexandre, nao sei, mas é tipico da direita dizerem-se apoliticos, que é tudo igual e mais num sei que, mas vao votar, votam sempre, no mesmo, claro.
Mas o Alexandre podia ter feito a diferença, descobrir a polvora, quando fala em responsabilizaçao desse mesmo ato ( votar ). Que responsabilizaçao tiveram os socios do benfica que elegeram, apoiaram e ate agrediram opositores que denunciavam o ex- preidente , esta agora preso ( por acaso ate esta livre em londres ), nao me ocorre o nome. ?
dito de outra forma, num clube de futebol, como na eleiçao de deputados, que responsabilizaçao tem quem vota ? Nenhuma !
Uma vez, aqui em portugal, ate foi moda, todos diziam nao ter votado num tipo que conseguiu ou renovou a maioria absoluta.
Em vez de bla bla bla de sacristia, melhor teria feito desenhar o que vai na sua mente no tocante a responsabilizaçao.
Ainda mais esta : so alguns generais nazis foram condenados, nao o povo que elegeu tais politicos.
Em regimes profundamente democratico, como o frances, foram cometidos crimes e silenciados, para decadas depois o país pedir desculpa por tais crimes. .
Ou seja, porque nao dar liberdade aos cidadaos para irem ao futebol com quanto armamento consigam, e depois, á posteriori serao julgados pelos ” acidentes “.
A democracia é tambem um sistema perigoso, pois tantos, muitissimos, nao so nao votam pelo bem coletivo, como justamente votam para que outros sofram ou mesmo sejam banidos, assassinados.
Caro Sr Alexandre Guerra, parabéns! Excelente artigo! De um homem inteligente e sensato. O SAPO está a precisar de mais artigos seus. Imparciais, sensatos, inteligentes. Porque tem uma mulher acho que chama Alexandra que escreve para o SAPO, totalmente maluca. Só escreve bobagens.
Eu não gostaria nada que um brasileiro me “ensinasse” onde votar. Nem gosto dos meus compatriotas que me querem fazer isso cá no sítio.
Bolsonaro não falou em “pretalhada”, mas sim em “petralhada”. Que fique entendido!
O ponto de vista principal do sr. Guerra é formal, e nada mais. O eleitor, diz, é soberano e os vencidos acatam a decisão. Como se não houvesse outros direitos para além de “acatar” os resultados, como o direito de dizer não às inevitabilidades, à formalidade. O cidadão é reduzido à pobre condição de “eleitor”. É por isso que um não brasileiro, mesmo que seja bom conhecedor do povo e da realidade do Brasil, não se pode, sugere Guerra, pronunciar sobre Bolsonaro. Aliás, seguindo este ponto de vista, nenhum português pode dizer o que quer que seja sobre Le Pen ou Trump. Então não há critério, não há Razão, Direitos Universais do Homem, etc., que justifiquem o uso da liberdade de Opinião e de expressão? E se se afirmar que o voto em Bolsonaro é ilegítimo à luz do juízo esclarecido do qual Guerra escarnece? Estaremos nós a cometer ingerência ou a ser cidadãos do mundo – tal como se afirmava o mestre de Platão?
Quem é muito sombrio, afinal, é Guerra que usa o termo “iluminados” de forma pejorativa e medíocre para classificar um acto de civilização.
Os cidadãos do mundo têm todo o direito universal de protestar e de prevenir, à escala global, um acto insensato da eventual eleição de um arrivista populista que quer assaltar o poder à custa do desânimo e desgraça de toda uma parte da humanidade.
Por isso, junto a minha voz aos brasileiros que nas ruas protestam contra Bolsonaro e ao que ele representa. Saúdo as inúmeras posições que ao longo destes comentários se aproximam da que exprimo, e quero enaltecer duas: as de Sarin e do Pedro Neves.
Caro Júlio, em momento algum do meu texto escrevo que nos devemos coibir de dar opinião por sermos portugueses. Agora, o que digo é que a opinião é livre, tal como é livre a decisão de publicitarmos ou não essa mesma opinião. Aliás, o meu texto, por si só, é um reflexo da liberdade de opinião.
Cumprimentos,
Alexandre
Muito obrigado por este post. É isto mesmo.