Não tenho grande amor à velha ortografia, nem percebo que tantas almas se perturbem por escreverem fato em vez de facto, como se nas décadas em que escreveram de cor indefinida e saber de cor tivessem confundido o cinzento com a tabuada.
As intervenções públicas sobre o Acordo não me estimularam. Tudo me parecia um Prós e Contras entre conservadores ultramontanos, mulheres de xaile e bigodaça de crucifixo à ilharga, por um lado, e uns vanguardistas muito neófitos que desprezavam os efeitos perversos das alterações que estas merdas sempre provocam. No fundo a coisa resumiu-se a ser contra ou a favor do 25 de Abril, ou seja, ao grau zero da competência retórica.
Entretanto, os atrasadinhos das caixas de comentários fizeram deste tema uma cruzada pessoal. Não se pode escrever uma rima sobre a Primavera sem que salte logo um palerma a invectivar a primavera.
O Acordo Ortográfico é agora designado por Aborto Ortográfico. E isto angustia-me, por temer que os mesmos que desejam o incumprimento do Acordo procurem também repor a penalização da IVG. Num país varrido pela demagogia mais trambiqueira podemos esperar tudo e o seu contrário.
Sobram, finalmente, os argumentos em economês dos que imaginam ser possível confundir os naturais de Portugal e do Brasil em frases tão torneadas como a meleca da bebeca era superlegal. Um minuto disto e arrumam-se os motivos de quem defende o comércio internacional.
Haverá pessoas razoáveis assomando entre a balbúrdia? Haverá sim, galera. Ide ler a Ana Cristina Leonardo, que ontem descobriu uma delas.

Ah meu caro mas na nova ortografia não se escreve “fato”, mas sim facto. O “c” antes do “t” lê-se.
Martinha, por acaso essa é das palavras que terão grafia dupla se não me engano. Mas tem sido muito apontada como exemplo.
Não terei problemas em continuar a escrever como até agora o fiz e a ler o que na nova linguagem estiver vertido. Agora, será que aqui o ultramontano já é tão arcaico que escreve côr com acento circumflexo ? Realmente nunca confundi com saber de cor …
Côr era só no Brasil, a menos que o meu dicionário me tenha enganado Fernando.
Côr também se escreveu assim, com acento, em Portugal. Pelo menos segundo ali o velho ” Francisco Torrinha ” , que da estante onde repousa, já me tirou umas quantas dúvidas. E eu aprendi a escrever com o acento… oh arcaico ser…
Ainda receei que fosses chamar razoável à Ana Cristina mas afinal foi só à descoberta dela.

(Eu já lera o post e acho que fizeste bem em referi-lo. Mas eu tenho amor à “velha” ortografia…)
Um tipo deve ser livre para amar. Eu escrevo como sempre escrevi até ser obrigado. Depois logo se vê.
O Vasconcellos na Religiões da Lusitânia devia ter começado um capítulo dedicado aos começos do estatismo.
Nunca vi tanto beato.
Bem, mas o fato… é que, independentemente da posição do Prof. Franchetti, o acordo já foi plenamente implementado aqui no Brasil. Fizemos a nossa parte. Sumiram as nossas particularidades ortográficas, inclusive o trema e vários acentos. Infelizmente, ficou o circunflexo em algumas palavras, em que deveria ter-se adotado o acento agudo do português europeu. Mas, de todo modo, o Prof. Franchetti, diretor de uma editora pública (de uma das maiores universidades do Estado de S.Paulo e do Brasil), não se recusa simplesmente a adotar o acordo – os livros da Editora da Unicamp estão saindo conforme o acordo. Pode até não usá-lo em seus textos privados, não o sei, mas não usou de desobediência “civil” em cargo público, como o Vasco Graça Moura, “who has the cake and eats it too…”
O Dr. Vasco Graça Moura limitou-se a cumprir a lei em vigor.
O acordo, sendo um tratado internacional, não está em vigor, por não ter sido ainda ratificado nos termos nele previstos.
É interessante ver como Angola e Moçambique (que partilham com Portugal a ortografia de 1945 e não parecem dispostos a adoptar a “ortografia nacional brasileira” de há 80 anos – termos em que foi celebrada pelos fascistas) e que não ratificaram o acordo são tratados como se não existissem! Demasiado grandes para serem comprados, demasiado pequenos para serem respeitados?
Não me parece que Portugal possa ignorar – para além do seu próprio povo – Angola e Moçambique.
Os termos foram modificados e o tratado foi aprovado nesses termos. Vasco Graça Moura NÃO É um Tribunal de um homem só para dizer que um acordo está em vigor ou não. A democracia tem seus mecanismos para tais contestações, e eles não passam por assumir um cargo público e transformá-lo em uma ilha de desobediência.
«nem percebo que tantas almas se perturbem por escreverem fato em vez de facto»
Uma vez um escultor muito na moda explicava a uma mesa de um restaurante de Paris que uma cabeça era apenas uma cabeça.
Giacometti, que era um dos comensais levantou-se e saiu.
Creio que não foi por ter dificuldade em explicar.
A Ana Cristina Leonardo agradece a divulgação da descoberta e mais informa que, testemunho da sua nunca questionada razoabilidade, pondera passar a assinar Anna.
Quanto ao facto e ao fato, de facto, e não de fato, manterá as duas grafias (também era demais!).
O mesmo para recepção e receção (???!!!!) que manterá o p no Brasil (há já portugueses – dos reacionários, naturalmente – que andam a ensinar os filhos a dizer o p de recepção para o poderem escrever na escola…).
Também se continuará a dizer/escrever António e Antônio, polonês e polaco, Oriente Médio e Médio Oriente, palestiniano e palestino e etc.
O que me leva à pertinente (desculpem a imodéstia) pergunta: esta merda não servia para uniformizar? Ou era só para me obrigarem a dizer letivo em vez de lectivo enquanto vendiam uns dicionários à sucapa?
E, por último, afinal quem levita o quê?
Podia também ponderar escrever “Christina” … era giro e ninguém ficava almariado
por acaso, pensei nisso. mas pus dois enes além do h e pareceu-me demais
🙂
socapa e não sucapa. caraças, já não sei escrever!
Tadinha. Ou tádinha já não sei.
errata (segunda) letiva e não levita. e agora é que me vou embora. o novo AO faz-me dores de cabeça!
Caríssimos vou aprovar (ou não) estes comentários sem grandes respostas porque o tempo não dá para tudo.
A IGV, o aborto continua penalizado, em Portugal.
Foi despenalizado na fase inicial da gestação, mas também aí em parte era.
Agradeço a preciosa achega. Não fosse alguém julgar que podia lançar um homem feito para o caixote, não é?
A vida é breve e comento mais logo.
Ando a absorver cultura e opiniões e a aprender a língua dos “bifes”, quem sabe me aceita como parceira no seu blog?
Se por homem feito quer dizer um recém-nascido saudável, ainda há pouco tempo isso era feito e tinha os seus defensores.
Há 120 anos o infanticídio, uma prática comum era desculpado e defendido com os argumentos hoje usados para defender o aborto.
Tem sido o avanço da ciência que tem feito recuar para idades cada vez mais perto da concepção a consciência da ilicitude: hoje em dia já há intervenções terapêuticas in utero em fetos de 16 semanas.
E os espetadores, senhores? Os pobres espetadores!
Estou consigo, Luís: “escrevo como sempre escrevi até ser obrigado. Depois logo se vê”.
Mas não estaremos a fazer uma tempestade num copo de água? Afinal, a escrita portuguesa como a conhecemos (antes do Acordo) não foi ditada por Deus e modificá-la não é um sacrilégio. E este não será o último Acordo…
Calma! Não devemos viver para assistir ao próximo.
Quer’eu em maneira de proençal
fazer agora um cantar d’amor,
e querrei muit’i loar mia senhor
a que prez nem fremosura nom fal,
nem bondade; e mais vos direi em:
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val.
E o que quero eu com isto? Apenas mostrar como D. Dinis escrevia (pelo menos, segundo o Cancioneiro reunido por Nuno Júdice e editado pela Teorema em 1998).
Cristina: com certeza. Mas Shakespeare também escrevia de forma diferente de Philip Larkin e Voltaire de Camus e não foram necessários acordos sucessivos para fazer evoluir o inglês e o francês. Apenas bom senso para ir incorporando as mudanças inevitáveis em qualquer língua. Hoje, há muitas diferenças entre o inglês do Reino Unido e o dos EUA e ninguém pensa em uniformizações. Ainda por cima, nós fazemos uma mudança oficial a cada 50 anos. Fôssemos tão produtivos noutras áreas… Mas estamos fartos de saber que é nisso que somos bons: a legislar.
quanto aos britânicos, parece que são um pouco conservadores nalguns costumes.
só isso explica que continuem a manter os mottos em francês no brasão real.
Sim, as línguas também evoluem sem acordos deste tipo. Mas terá sido sempre assim? Enfim, as condições, há séculos, eram outras, apenas uma ínfima parte da população sabia ler e escrever e, às vezes, um estudioso reformava a língua por sua própria iniciativa. Martinho Lutero, por exemplo, reformou a língua alemã (que era composta de vários dialectos) na sua tradução da Bíblia. Como criou uma versão, digamos, mais prática, os outros eruditos adoptaram-na, uniformizando a língua. Claro que não causou discussão geral, o povo vivia num outro mundo.
Admito, no entanto, que não sei o suficiente para opinar nesta questão (evolução da língua). Mas sei que há quem defenda uma reforma da língua inglesa, que, pelo seu conservadorismo, ainda contém muitas letras “desnecessárias”, como a palavra “night”, que bem se poderia escrever “nite”. Sei que não seria a mesma coisa e não estou a defender nada do género, só a lembrar a questão. Aliás, os “rappers” americanos (e também ingleses, por arrasto) já vão fazendo as suas modificações, resultando tudo numa grande salsada! Até há um título de filme bem conhecido como “Goodfellas”.
Enfim, queria ainda dizer que não sou a favor do Acordo Ortográfico. Mas também não sou opositora militante. Preferia que continuasse tudo como está, pois não teria de me adaptar a uma nova escrita, da qual estou ainda longe de conhecer todas as regras. E poupar-se-ia dinheiro na criação de novos dicionários, manuais escolares, etc. Apenas acho que será muito difícil, senão impossível, voltar atrás.
O “aborto ortográfico” ilegitímo é só mais um sinal do período de Estatismo Barroco em que nos encontramos. Para justificarem os empregos os burocratas precisam de inventar coisas para fazer.
“Repor a penalização da IVG.”
Seria uma excelente idea. Não há razão para matar a maioria das crianças que morrem por aborto.
Não se chamam crianças, chamam-se fetos. Um “defensor da língua portuguesa” deve escrever com mais cautela.
Luís, eu percebo que tenhas de preservar essa imagem de rebelde bafejado pelos deuses com fósforo e músculo, afinal imagem de cada um é um capital precioso e precisa quase sempre de mil palavras para ser devidamente alimentada. Mas desta vez não tens razão nenhuma (nem sempre a tens, admitirás lá muito no fundo): não há qualquer paralelismo honesto entre a IVG e o Aborto Ortográfico (para mim é um aborto, sim, e não é exclusiva propriedade dos corpos que o geraram). E não dispares a eito, que as caixas de comentários também estão cheias de gente capaz e bem documentada sobre este assunto. A nossa é um bom exemplo disso.
Todos sabemos, se não quisermos alinhar em batotas fáceis (a tal demagogia trambiqueira de que falas), que as razões da crucificação do Vasco Graça Moura não são linguísticas nem culturais, são apenas políticas.
Quanto à descoberta da Ana Cristina, bem interessante por sinal, não é novidade para muitos dos que se interessam pelo tema: muitos intelectuais brasileiros estão frontalmente contra este acordês da treta e têm-se manifestado publicamente sobre isso.
Por mim, continuo a escrever no português que considero correcto e não abdico disso. Já consegui até uma lança em África: publiquei um livro no Brasil (patrocinado até pelo Ministério da Cultura de lá, imagina) e exigi que os textos de cada país (há textos assinados por portugueses e brasileiros no livro) mantivessem as suas grafias diferentes. Consegui. A língua portuguesa não é uma açorda indistinta, com tempero único. A diversidade é uma das suas grandes riquezas.
Imagem, moi? A sério que estás enganada, era uma perspectiva honesta do modo como vivi esta polémica a partir do exterior.
Agora por partes:
Quanto ao paralelismo entre IVG e “aborto ortográfico”, sei bem que não existe. Mas, como escrevi, angustia-me o lado revanchista de quem tem andado a embrulhar tudo numa “trágica herança socratista”. Como se regular a ortografia e decidir sobre um problema de saúde pública pudesse resolver-se ao estalo desfazendo o que foi feito por ter sido feito pelo mesmo homem.
A sério, julgo mesmo que a nossa opinião pública é mesmo assim, tão primitiva.
Depois: eu não disparei a eito sobre as caixas, disparei sobre os malucos que aproveitam qualquer assunto para introduzir o “seu” tema.
Aqui no blog temos o maluquinho liberal, o lucklucky ou lá como se designa, que enfia a “maldade do Estado” em tudo o que é sítio. Neste post, por exemplo, já lhe aprovei um comentário desses.
Temos também o maluquinho anti-acordo, que agora já anda pelo Vida Breve a elogiar o jornalismo angolano, essa referência impoluta, só porque lá publicaram um texto básico como uma redacção escolar em favor da “ortografia que herdámos tal como está e não há nada a fazer” (cito e trunco de memória).
Que as razões do Graça Moura são políticas sei eu muito bem. Por acaso preferia que fossem linguísticas e culturais, mas é o que temos, coitados de nós.
Finalmente, Ana: o meu post chamava a atenção para um depoimento sensato num assunto a cuja discussão pública tem faltado muita sensatez.
Como dizia o outro, estou-me a marimbar para o acordo (isto vai em português coloquial que é mais moderno).
Estou até decidido a ignorar o assunto daqui em diante, e não alterarei em coisa alguma o meu modo de escrever. Fazer disso uma filosofia de vida é que está muito para além da saúde mental que vou tentando manter.
Quanto ao Brasil, fizeste lindamente. Eu faria o mesmo, se pudesse.
E assim se desmascara mais uma pérfida conspiração capitalista, quiça congeminada à meia-noite de lua nova numa cave de Brasília.