O achismo a galopar em força no comentário


Pedro Correia,

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Digam o que disserem, só a política consegue rivalizar com o futebol em popularidade televisiva. Aí está o debate entre António Costa e Rui Rio para confirmar: 3,3 milhões de espectadores sintonizaram-no em simultâneo. Tanto ou mais do que um jogo internacional envolvendo equipa portuguesa.

Convém reconhecer que o facto de ter sido transmitido pelos três canais generalistas deu forte contributo para esta audiência digna dos Himalaias. Mas constitui um desmentido vivo daquela frase-feita acerca dos portugueses, que «não se interessam por política». Frase papagueada até à exaustão, curiosamente, por muitos bitaiteiros que exercem a profissão de comentadores e que deste modo fazem da política o seu ganha-pão. Alguns ocupam a pantalha há anos. Mudam os cenários, mudam os directores de informação, mudam até as designações dos canais e lá continuam eles, de traseiro colado à poltrona, a debitar vacuidades.

Entre as inanidades mais vezes propagadas, ao longo da maratona de confrontos televisivos entretanto concluída, inclui-se esta: «Os debates não mobilizam os indecisos.» Proferida em pose catedrática e autoridade pseudo-científica por vários daqueles que tomam assento em canais sempre prontos a anunciar «debates decisivos». O que não deixa de ter graça.

Também têm piada aqueles comentadores que parecem detectives: estão sempre a achar. Pertencem à escola do achismo. Desta vez, no rescaldo do confronto PS-PSD, proliferaram como cogumelos. «Eu acho que Rui Rio foi convincente»; «Eu acho que este debate foi construtivo»; «Eu acho que indiscutivelmente Rio venceu»; «Eu acho que Costa esteve muito bem».

Frases escutadas sobretudo na CNN Portugal, que tratou o tema ao nível do mítico combate de boxe entre George Foreman e Muhammad Ali no Zaire em 1974. Iniciou a emissão dedicada ao grande evento às 15.27 e só deu descanso aos telespectadores nove horas depois, já outro dia nascera, eram 00.32. Incluindo um bloco de comentários iniciado às 21.48 e que se estendeu até ao fim. Mais do que duplicando os 77 minutos do embate Costa-Rio, que teve duração inferior à de um desafio de futebol.

Também nisto a política vai imitando a bola: o tempo em que se fala é superior ao tempo em que se joga. Se houvesse uma taça para o canal campeão na «análise e comentário» dos debates, o troféu seria entregue precisamente à CNNP, aliás com inteiro mérito: pôs em antena três painéis simultâneos com um total de nove comentadores, acrescidos de três jornalistas da casa a lançar temas para a conversa. E voltou aqui o achismo à baila, em doses torrenciais. Acompanhado com cansativa frequência pelas mais detestáveis bengalas verbais: surgiu o estafado «em cima da mesa», pontificou o famigerado «anos atrás». E nem o ridículo americanismo «no fim do dia» deixou de vir à tona.

Nessa altura já meio país havia regressado às telenovelas: os painéis peroravam para um público residual. Eis um mistério a pedir detective. Como conseguiram tantos mudar de canal antes de os sábios lhes terem revelado quem vencera o debate?

 

Texto publicado no semanário Novo

7 comentários em “O achismo a galopar em força no comentário”

  1. Proliferam os carregadores de portes pagos para entrega de receitas caseiras destemperadas ao domicilio.

  2. Mas constitui um desmentido vivo daquela frase-feita acerca dos portugueses, que «não se interessam por política»
    Pode ter razão quanto à maioria dos portugueses. Eu não me julgo único e, tal como já aqui escrevi, assisto aos debates como outros a “reality shows”.

  3. às vezes ponho-me a questionar o porquê das plataformas de conteúdos como a Netflix ou HBO estarem a ganhar terreno, a resposta está aqui. Era mais simples que pensava.
    Horas de conteúdo sem conteúdo, tudo igual (sim, porque até os formatos são idênticos), as mesmas caras, os mesmos peritos (em quê??). Gosto de ver debates, acho (sim, ACHO) que seria mais interessante um debate sobre economia com empresários (a sério, não o dono do CIP), sobre ambiente com engenheiros e biólogos, sobre saúde com administradores hospitalares e profissionais da área.

  4. não oiço tv, só vejo imagens sem som quando não tenho o telemóvel por perto para saber as horas
    recordo uma expressão com 150 anos «O POVO QUER ALBARDA, REAL SENHOR»
    acho que prefere ser montado ‘EM OSSO’

    1. “Há anos atrás” é o vice-rei dos pleonasmos. Como ensinava o saudoso Carlos Pinhão, “toda a gente sabe que o ânus fica atrás”.

      O rei dos pleonasmos, como observou Saramago, é “já agora”. Expressão que dizemos o tempo todo.

      1. Acho que o rei dos pleonasmos é o ‘Oxalá que Deus queira’ .
        Ou não será tanto um pleonasmo, mas antes uma concessão dos ocupantes muçulmanos. Os invasores muçulmanos não proibiram o culto religioso das populações residentes, quer o cristianismo visigodo ou o judaísmo, no caso esses cristãos já diziam ‘que Deus queira’. Os muçulmanos acrescentaram o seu ‘ua xá illáh’ (e que Deus queira), generalizando-se o desejo que de bom aconteça nas duas religiões: Oxalá que Deus queira (e queira Deus que Deus queira).
        Mas, estes debates políticos por causa das eleições terem muito interesse, que nem um jogo da selecção de futebol, nos canais generalistas é ver-mos a publicidade comercial a promovê-los.
        Fora este “produto de consumo sazonal”, a publicidade atira-se à estupidificação das novelas, à casa não sei quê, ao agricultor tal e coisa e aquele saca-níqueis do “ligue já para 700………
        Valha-nos as séries portuguesas da rtp e algumas estrangeiras na rtp2.
        Deveria ser interessante haver o estudo dos níveis etários do visionamento dos debates nas tvs.

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