Nuno Crato, os números e as pessoas lá dentro


Rui Rocha,

O Ministro Nuno Crato tem uma paixão pela matemática. Pois bem, vou dar-lhe alguns números: 349712xxxx; 743578xxxx; 161263xxxx; 408926xxxx. Números são, como quaisquer outros. A diferença é que estes têm dramas lá dentro. O primeiro designa o Ricardo, o segundo a Laura, o terceiro a Joana e o quarto o Paulo. Os números são os que lhe foram atribuídos nos concursos de contratação de professores para necessidades temporárias. O Ricardo deu aulas durante mais de dez anos com contratos precários. Se trabalhasse no sector privado, a empresa que o mantivesse nessa situação já teria sido obrigada a integrá-lo nos quadros. No Estado não é assim. Agora, está desempregado. A Laura deu aulas até 31 de Agosto. Não ficou ainda colocada porque alguns horários anuais foram classificados como temporários. Por isso, colegas com graduação inferior passaram-lhe à frente. Agora está desempregada. A Joana também deu aulas até 31 de Agosto. Ainda não ficou colocada porque a sua graduação não é grande coisa. A lei diz que tem direito a uma indemnização pela caducidade do contrato anterior. O Estado recusa-se a pagar-lhe as importâncias devidas. Agora está desempregada. E faz-lhe falta esse dinheiro. O Paulo concorreu a uma oferta de escola. Poderia ter sido em Almancil, mas foi um pouco mais ao lado. O problema, todavia, foi o mesmo. Critério de concurso martelado para favorecer alguém que, por acaso, era a única pessoa que poderia cumprir as condições exigidas. O Paulo, entretanto, continua desempregado. O Ricardo, a Laura, a Joana e o Ricardo têm famílias, sonhos, defeitos, depressões, angústias, amores, amigos, alegrias e solidão. Podia dar a Nuno Crato mais trinta e tal mil números com pessoas lá dentro que se encontram em situação idêntica. Dir-me-ão que nada do que refiro é novo. Que já acontecia em anos anteriores. E é provável que seja verdade. Todavia, alguma coisa mudou. Os horários disponíveis foram objecto de uma redução significativa. Nos últimos anos, todas as disfunções do sistema estavam esbatidas. Se o Paulo não conseguisse um horário em Quarteira, havia de ter mais sorte em Albufeira, uns dias depois. Agora não é assim. Quem não fica hoje, pode nunca mais ficar colocado. E a falta de esperança é a véspera da revolta. Não se pede a Nuno Crato que contrate um único professor que não se revele necessário. Mas, exige-se-lhe que, nas actuais circunstâncias, seja implacável no combate às perversões do sistema. As que referi ali mais acima e as outras que por aí andam. Que veja os números e as pessoas lá dentro. Que assegure aos números o rigor.  E às pessoas o tratamento digno e justo que merecem.

15 comentários em “Nuno Crato, os números e as pessoas lá dentro”

  1. O ministro defende-se dizendo que tudo foi feito de acordo com a lei e, de facto, parece-me que assim é.
    No caso de Almancil temos apenas as consequências, totalmente expetáveis, da autonomia de algumas escolas na contratação dos seus docentes. Essa autonomia foi-lhes concedida por lei, após muitos anos em que muitas pessoas por ela reivindicaram. As consequências são as que se poderiam esperar. O ministro nada pode fazer.
    No caso dos horários mensais também foi tudo feito de acordo com a lei. Feito de forma trapalhona, como é próprio de um ministro recém-chegado ao ministério e que dá ordens a trouxe-mouxe, mas perfeitamente legal. O ministro não tem culpa, ao fim e ao cabo, de que muitos professores se tenham habituado a concorrer apenas a horários anuais.

    1. …as consequências, totalmente expetáveis…

      Contra todas as minhas expetativas ( ai, outra vez) não consegui conter a gargalhada. E, afinal esta até uma palavra de escrita à escolha, perdão, dupla grafia*, que se diz (eu digo, e todos aqueles com quem falo também) “eispequetativa”.

      * http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=expect%C3%A1vel

      Uma resposta zangada será agora expetável ( perdoe-me, não consigo conter a gargalhada cada vez que escrevo isto) de sua parte. Mas, olhe que não vale a pena zangar-se, porque isto não pretende de forma alguma pô-lo em causa, a si, mas sim ao “admirável aborto portugráfico”.

      Até mais logo que eu já vou na expetativa do almocinho. Abraço.

    2. Também penso do mesmo modo. Há professores que de facto se habituaram a fazê-lo e nem sempre as coisas correm de feição. Parece-me, no entanto, que o Sr. ministro, pelo que me é dado observar, é uma pessoa de boa índole, mas esta falta de verbas dá cabo deste país, de nós e dos nossos sonhos. Em qualquer dos casos Nuno Crato devia, como diz e bem o autor do post , ser implacável no combate às perversões do sistema, e acrescento eu, pontuar a seu exercício pelo rigor, equidade e coerência. Há quanto esperamos por isso?

    3. Quanto aos horários anuais/temporários, creio que não se trata de mera trapalhice. E não concordo que a existência de critérios e práticas ostensivas de “cunhismo” sejam uma inevitabilidade. Aliás, no caso de Almancil que linkei, o concurso veio a ser anulado. Pela serviço inspectivo competente que deveria estar mais atento a outras situações. Claro que se pode e deve fazer alguma coisa para assegurar a transparência dos concursos. Não só no interesse dos professores, mas sobretudo no interesse dos alunos. Quanto ao não pagamento da indemnização de caducidade, trata-se de uma vergonha. Sobre soluções para os concursos, a título de exemplo, deixo aqui link para as sugestões do Octávio Gonçalves:

      http://octaviovgoncalves.blogspot.com/2011/09/era-tao-facil-resolver-os-problemas-dos.html

  2. Eu não morro de amores pela classe docente, especialmente porque durante 10 meses por ano só se ouve falar de avaliação, e de quotas, e do Mário Nogueira, e das greves em dias de exames nacionais…

    Estes de que fala, são “os outros” professores. Todos os anos com o coração nas mãos, e o troley à porta… Uma situação triste de facto.

  3. Os vouchers ficaram na gaveta deste Governo cada vez mais socialista.
    Logo estes professoras não têm hipóteses alguma de vir a concorrer com os que ficam. De demonstrarem que são melhores.

        1. Sim, percebo o que dizes. Valha-nos pelo menos isso. Que tudo à volta seja tão mau que uma pessoa acabe por focar-se no essencial. Ainda que como defesa.

          1. Nunca deixo que o que está à volta interfira nisso. Nunca. É por eles, e só por eles que estou ali e eles não têm culpa da insanidade deste e dos governos anteriores. Mas é difícil, muito difícil, porque o mérito não te serve para coisa nenhuma, não em termos práticos.

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