Nunca entrar em campo a jogar para o empate


Pedro Correia,

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Os políticos deviam aprender muito com as figuras mais emblemáticas do futebol. Sobretudo os que costumam jogar para o empate. Em política, como no desporto, um empate é uma semiderrota. Os grandes do mundo da bola iniciam cada desafio só com o pensamento na vitória. E celebram cada golo como se fosse o primeiro. Repare-se em Cristiano Ronaldo: esta semana marcou pelo Manchester United, na Liga dos Campeões, e parecia um miúdo a festejar numa peladinha de rua. Aos 36 anos, depois de tantos imbecis já lhe terem antecipado um epitáfio que tarda a consumar-se.

«Não há nada mais perigoso do que não correr riscos», ensina Pep Guardiola, um dos melhores treinadores de futebol de todos os tempos. Esta frase – ou um pensamento muito semelhante – certamente pairou na mente de um certo ex-comissário europeu quando há sete meses trocou o conforto do Conselho da Administração da Fundação Calouste Gulbenkian pelo mais incerto dos combates autárquicos: o que se jogaria em Lisboa.

Houve vozes sensatas que lhe recomendaram prudência. Nunca faltam vozes sensatas num país que enaltece o Velho do Restelo. Mas Carlos Manuel Félix Moedas, 51 anos, rumou em sentido contrário: o instinto segredou-lhe que era tempo de desafiar o poderoso aparelho autárquico socialista instalado há 14 anos em Lisboa. Um aparelho cada vez mais arrogante, mais tentacular, mais indiferente ao ruído da rua.  

Contra os ventos dominantes, contra os bonzos do comentário político, ele impôs-se a Fernando Medina. Que não era apenas presidente da Câmara Municipal de Lisboa: era também delfim político de António Costa. Duas vitórias numa só.

Esta foi a derrota que mais doeu ao primeiro-ministro: Costa cometeu o erro de transformar o escrutínio autárquico num plebiscito ao seu mandato, nacionalizando-o como nunca.

Foram também derrotados aqueles que, no próprio PSD, recomendaram ao ex-comissário europeu que não se envolvesse na poeira da campanha e deixasse o destino bater-lhe à porta. Um verdadeiro campeão do desporto dir-lhe-ia o contrário: na política, como no futebol, faz a diferença quem assume o risco de talhar o seu destino.

Moedas sai do clássico disputado na capital como vencedor incontestado: as sumidades que lhe anteciparam o epitáfio deviam estar hoje no desemprego.

Tem pela frente um pesado caderno de encargos numa autarquia que passou anos a gerir a capital como se fosse um parque temático para usufruto turístico. Uma Lisboa envelhecida e empobrecida, semeada de canteiros e ciclovias na frente ribeirinha enquanto se degradava nos bairros votados à indiferença pela beautiful people do Instagram. Uma cidade em que quatro freguesias do centro histórico perderam mais de oito mil residentes na última década.

Terá de ultrapassar inércias, bloqueios de todo o género, novas vozes a recomendar-lhe prudência. Fará bem em seguir a máxima de Guardiola: o maior risco é não arriscar. Nunca entrar em campo a jogar para o empate.

 

Texto publicado no semanário Novo

54 comentários em “Nunca entrar em campo a jogar para o empate”

  1. Moedas sai do clássico disputado na capital como vencedor incontestado

    Num certo sentido, puramente pessoal, sim, mas por outro lado, sem maioria, terá muita dificuldade em aplicar o seu programa. (Se é que esse programa era para ser aplicado.)

  2. uma autarquia que passou anos a gerir a capital como se fosse um parque temático para usufruto turístico

    Mas de facto é isso que boa parte de Lisboa atualmente é, quer se queira quer não: um parque temático, não somente para os turistas, mas também para os estrangeiros que compram casa em Lisboa e a utilizam ocasionalmente.

    E temos que aceitar que Lisboa será cada vez mais isso, e que será preciso geri-la como tal.

    1. Não só Lisboa, boa parte da Europa também para aí caminha.

      E não me parece que tenham gerido Lisboa para esse fim sequer.
      Aconteceu simplesmente pelas viagens baratas.
      A gestão que a autarquia fez tem sido simplesmente pagar aos grupos que vivem dela.

      1. A liberalização das viagens aéreas, com voos de baixo custo, encheu Lisboa de turistas. E proporcionou mais taxas e taxinhas a Medina.
        Para investir em ciclovias. E mais ciclovias. E ainda mais ciclovias.
        Sem perceber que infernizava a vida dos lisboetas – tanto os que vivem em Lisboa como os que trabalham na capital.

        E assim deixou voar mais de 25 mil votos.
        Há seis anos, recebeu de António Costa um município com maioria absoluta – a jóia da coroa do PS no plano autárquico.
        Conseguiu perder essa maioria em 2017. E agora perdeu a própria Câmara.
        Terá enfim percebido os erros que cometeu?

        1. A taxa turística de que Medina beneficiou não serviu para investir em ciclovias, mas sim em atrações turísticas e melhoramentos como o completamento do Palácio da Ajuda.

          Mas uma coisa concordo, a Câmara de Lisboa tem muito dinheiro.

          As ciclovias não infernizam a vida a todos os lisboetas. Para muitos elas são muito úteis. Basta olhar para elas para ver que muita gente, e cada vez mais, as utiliza. Muitos não serão lisboetas, mas muitos são-no.

          os lisboetas – tanto os que vivem em Lisboa como os que trabalham na capital

          Os que trabalham em Lisboa mas nela não vivem não são lisboetas nem votam para a Câmara de Lisboa. Tanto faz que eles sejam infernizados como beneficiados – não votam. Não contam portanto para esta discussão.

          1. em S. Domingos contam-se pelos dedos
            os raros gostam mais de passeios e ruas

          2. Quem trabalha em Lisboa também conta. É um disparate pensar que não.
            Se uma autarquia PS lhes inferniza a vida onde trabalham, dificilmente votarão PS onde vivem.
            Esta lógica vale para qualquer partido.

        2. “Para investir em ciclovias. E mais ciclovias. E ainda mais ciclovias.
          Sem perceber que infernizava a vida dos lisboetas – tanto os que vivem em Lisboa como os que trabalham na capital.”

          Não é surpreendente. A maior parte dos políticos não governam para o eleitorado, governam para quem partilha a sua cultura: tal incluí boa parte dos chefes de redacção, jornalistas e quem é nomeado por eles para ter voz nos media. Os valor da ciclovia como “verde” é “moderno” na cultura que as TV promovem. Medina e a burocracia da câmara viram aí uma oportunidade para fazer qualquer coisa que parece ter apoio unânime porque é geralmente apoiado pelos que têm voz no espaço publico.
          É a mesma razão para o apoio dos governos às energias “verdes” em vez de apoio à redundância e diversificação energética.

          E não espero muito diferente do novo Presidente Moedas. A cultura do Estado Administrativo e dos seus santos e piedades é semelhante, talvez até mais acentuada em Moedas.

      2. Não só Lisboa, boa parte da Europa também para aí caminha.

        Pois. E temos que aceitar esse facto e atuar em função dele, não tentar lutar contra ele. Devemos gerir as cidades para elas serem parques temáticos, e não para evitar que elas o sejam.

        Tanto o governo, como as empresas, como a população residente, deveriam estar a pensar seriamente em deslocar-se para a província, em vez de continuarem com a ideia de evitar que Lisboa se transforme num parque temático.

          1. Em Avelãs do Caminho, na Casa Queiroz, serve-se uma chanfana à maneira. E não só chanfana. Diz quem sabe que é dos melhores restaurantes do país.

          2. É claro que, chegado à Casa Queiroz, irão oferecer ao Pedro leitão, muito leitão. Mas, por todas as razões, o Pedro deverá declinar a oferta e optar pela chanfana que o levou até lá. Chanfana é muito melhor alimento que leitão.

          3. Se quer domínio absoluto da chanfana, naturalmente que se deverá dirigir para leste de Coimbra, ali para a região de Poiares ou Penacova. Mas aí não sei, infelizmente, recomendar ao Pedro nenhum restaurante.
            Mas vá o Pedro à Casa Queiroz, que lá se faz uma chanfana bem boa. Não se distraia com leitões. Mantenha a calma.

          4. A Penacova vou à lampreia, no tempo dela.
            Tomo boa sugestão da Casa Queiroz. Chanfana à maneira, para mim, tem sempre prioridade face a qualquer leitão. Até na Bairrada.

          5. Qualquer restaurante no eixo Miranda do Corvo / Lousã / Góis / Arganil tem boa chanfana. O segredo está nas batatas 🙂

    2. E temos que aceitar que Lisboa será cada vez mais isso, e que será preciso geri-la como tal.

      Corolário típico de quem não tem visão nem sabe o que está a fazer no mundo. Navegar à vista, e ir atrás das modas que vêm de fora.

  3. semeada de canteiros e ciclovias na frente ribeirinha

    E então? A ligação ao rio não é para ser aproveitada? Não é o programa de Carlos Moedas que até propõe retirar o comboio para Cascais de Lisboa, por forma a a frente ribeirinha ser ainda mais ampla?

    Ou o Pedro Correia preferia que a frente ribeirinha fosse toda usada para portos ou centrais geradoras de eletricidade?

  4. Moedas limitou-se a ir a jogo com a sua vozinha de Barry Gibb e encantou a multidão dos descontentes fartos da cara de Medina.

  5. Nem Medina sabe como perdeu, nem Moedas sabe como ganhou, porque foram ambos surpreendidos. Vir agora elencar razões, enfim, depois do acontecido todos sabiam.

    Mas venha a genialidade de Moedas tão apregoada pelos seus fans, o meu bolso agradece.
    Deverá fazer melhor que no governo que integrou porque senão não vale a pena. A carreira elogiada na UE, é apenas mais uma dos politicos potugueses que normalmente tem um trabalho elogiado na UE.
    Tem uma vantagem: é engenheiro.

      1. Como se vai embora, não interessa.
        O problema é que o Moedas vai ficar pelo menos 4 anos e ainda não sabe como ganhou. Mas esta parte não lhe é simpatica, não é?

  6. António Costa, desiludido com o muitíssimo poucochinho que tem feito por Portugal a mando de Bruxelas, tentou dedicar-se à criação de elefantas-brancas; e não resultou. Vai daí, atirou-se à autarquia de Lisboa na tentativa de se reabilitar, e levou no toutiço.
    Em matéria de nada, o nada ficou provado.
    Moedas não pode pensar Lisboa sem os 2 vereadores do PCP. E Lisboa também não pode ser pensada sem forçar a assembleia e a presidência da república a uma revisão urgente da lei das rendas, seu congelamento e ainda à mobilização de todas as actividades económicas, escolares e sociais para que se transforme cada habitante de Lisboa em um turista na cidade. A redução dos horários de trabalho deve ser contemplada, dando espaço à contratação de outros trabalhadores por forma a colmatar essa redução horária. Seria útil ainda pensar-se na alteração dos horários de fecho e abertura dos diversos estabelecimentos; desde o ensino até à tasca do zé da esquina.
    A banca sofre uma onda de despedimentos, e tal redução horária/trabalhador serviria para suavizar a carga social que os despedimentos comportam.
    A polis são forças vivas e não jardins e calçadas para bicicletas. Tampouco existe uma luta contra as alterações climáticas, pois contra o curso da natureza não se luta, mas adapta-se.
    Esta adaptação passa precisamente pela alteração dos modelos acima identificados bem como com a alteração do modelo especulativo e anárquico da indústria da construção em Lisboa, cujo crescimento ocorre em função da degradação de muitas outras estruturas residenciais. Esta também será uma forma de nos adaptarmos às novas condições climáticas bem como de efectuar uma melhor gestão dos recursos disponíveis.

    Dito isto, o programa de Moedas não terá significado sem que se inicie por onde deve ocorrer este pensar Lisboa: criar a estratégia e implementá-la.

  7. As cidades cada vez mais são geridas para a foto. É agradável ver aqueles “prémios” internacionais, do best place to live e assim.
    O turista, nativo ou camone, passa e nota a cidade arranjadinha. Deve ser um local top para se habitar. Como o portuga fala daqueles supostos paraísos na Terra, em que toda a gente é afável (tal como se diz dos portugueses… essa da afabilidade e do bem receber é de quem nunca teve que se enfiar numa carruagem na Linha Verde ou esteve preso na 2ª Circular em hora de ponta) e a vida corre com um bucolismo que faz lembrar tempos mais simples. Todos nós caímos nesse erro, é normal, publicamos o postal, seja em Roma, seja em Freixo de Espingarda às Costas.

          1. o meu amigo ferrador ficou sem fregueses « porque agora os burros têm 2 pés»

  8. Aquela de fechar a estação do Cais do Sodré é uma parvoíce. Os sítios emblemáticos devem permanecer. Se já nem um caramelo de “direita” preserva o que deve ser preservado então vão mas é todos pró camandro.

    Quer fazer ali mais umas casinhas para ricos? Isso não. Lisboa é do povo (do povo real, não é o povo dos Pecês: o povo dos Pecês são eles) e os lisboetas vão ter de reconquistar novamente a cidade.

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