Nuit Debout


modosdever,

A França vive momentos que lembram outros mas que não terão certamente as mesmas consequências – já não há sans culottes e estamos em 2016. De todo o modo refresca saber que na Europa ainda há gente que se junte na rua para discutir o que importa a todos. A foto, do dia 29, não é muito boa mas foi a que consegui da Nuit Debout, que dura há mais de um mês na Place de la Republique, onde se discute todos os dias, e noites, a lei El Khomri e mais tudo o que a praça acha de errado num país governado por um Presidente que não se sabe muito bem o que fazer, se dialogar se partir cabeças. 

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0 comentários em “Nuit Debout”

  1. Se vive em França, faz bem em comparar a postura sindical(e presumo que legal laboral) francesa, com os vizinhos, mais desenvolvidos e com as contas em dia; ajuda a se não houver massagem dos números, a dar pistas importantes.
    Como visito a França e os outros, a imagem que tenho(de leigo e ignorante) é que o sindicalismo é do tempo das cavernas em França; líricos que vão de vitoria em vitoria até a derrota final.
    Lembra-me os nossos líricos com as revisões constitucionais sempre “horriveis”, para anos depois oferecerem o sangue todo na sua defesa!!!

    1. Não vivo em França, cristof, e não consigo comparar o seu sindicalismo com o dos vizinhos. Mas é capaz de ter alguma razão pois é muito atomizado e tem ido incapaz de responder à senhora Myriam El Khomri.

  2. “na Europa ainda há gente que se junte na rua para discutir o que importa a todos.”

    Não é própriamente para “discutir” mas antes para alguns manifestarem as suas opções politicas.
    Há dias, um conhecido académico e filósofo francês, Alain Finkielkraut, apareceu tranquilamente na Place da République, onde se realizam estas manifestações, para vêr e ouvir “in loco” o que lá se fazia e dizia, mas foi reconhecido e, por ser conotado “à direita” e apesar de vir da área tradicional da esquerda, foi rápidamente rodeado, insultado, consporcado e até agredido por um grande numero de presentes, tudo isto perante a passividade e até a chacota aprovadora dos outros.
    Simplesmente vergonhoso mas muito sintomático da ideia de “discussão” de uma grande parte daqueles que aderem a esta iniciativa politica.
    Sem esquecer também que estas manifestações têm sido sistemáticamente acompanhadas por actos de violência contra pessoas, sobretudo as forças policiais presentes, e bens, sobretudo estabelecimentos comerciais e viaturas privadas e publicas.
    Dizem alguns, procurando desresponsabilizar os manifestantes, que a violência é obra de uma minoria de desordeiros que se infiltram na manifestação.
    Mas a verdade é que são também manifestantes, apoiantes da causa por todos defendida, que se movimentam e actuam livremente no meio dos restantes manifestantes, práticamente sem qualquer tentativa de desencorajamento e oposição, nem sequer por parte dos organizadores, e que, no meio destes acontecimentos, os manifestantes ouvidos não apenas não condenam como tendem a justificar os actos de violência (“a violência é o resultado da surdez do governo às nossas reivindicações e da repressão policial”).
    Esta gente não respeita nada nem ninguém, são extremistas politicos que consideram que é nas ruas, através da intimidação e se necessário da violência, que se decidem as leis que devem governar a sociedade e não através das instituições democráticas.
    O video que o post em cima linka é de resto bastante revelador deste tipo de ambiente, tipicamente “mauvais enfant” !..
    Esta iniciativa da “Nuit Debout” é muito representativa do pior que a França de hoje tem para oferecer !

    1. Bom, Fernando S., Alain Finkielkraut esteve lá num dia, eu estive noutros em que não vi nada disso e, pelo que noto, o meu amigo não esteve em nenhum. É verdade que os casseurts têm-se aproveitado da Nuit Debout, mas não, lamento desiludi-lo, com o beneplácito dos que lá vão para discutir, ao ar livre, o que importa a todos, estando disponíveis nos noticiários franceses vários testemunhos neste sentido. Aproveito ainda para lhe dizer que não é líquido que entre os agitadores não tenham estado pessoas interessadas em mostrar, à pedrada, o que o meu amigo pretende escrevendo e que, pelo menos na noite do dia 29, foi a polícia a primeira a agredir. Désolé.

      1. Caro Fernando de Sousa,
        Não, efectivamente, apesar de estar em Paris todos os dias, não vou às manifestações da “Nuit Debout”…
        Mas não é preciso lá ir para perceber o que se passa em termos da violência contra pessoas (os policias atacados com arremeços de pedras e barras de ferro também são pessoas) e bens.
        A tal ponto que se criou um comité de habitantes e comerciantes, sem qualquer motivação politica, para pedir o fim destas manifestações que tão prejudiciais têm sido para a zona.
        O meu amigo diz que esteve lá uma vez. Pelos vistos ainda de dia, vendo a foto que tirou. Pelos vistos não viu nada de especial. E depois, acha que viu tudo o que havia para vêr ?
        As imagens e os realatos disponiveis nos noticiários franceses não deixam duvidas quanto à violência provocada por “casseurs” vindos sistemáticamente do meio das fileira dos manifestantes, causando destruições e atacando as forças policiais.
        Como é que se pode dizer que é a policia “a primeira a agredir” quando é manifesto que os confrontos resultam da investida de manifestantes contra as barreiras de segurança policiais e das destruições de bens (montras, mobiliário urbano, viaturas, etc) deliberadamente provocadas por manifestantes ??!…
        Quanto aos manifestantes em geral e aos organizadores em particular, para além de algumas palavras de circunstância lamentando alguma violência e alguns estragos, não ouvi nenhuma condenação formal dos actos de violência nem nenhum apelo aos manifestantes para se oporem e isolarem os “casseurs”.
        Pelo contrario, ouvi tentativas para desculpar esses actos e os seus autores imputando a responsabilidade da violência à policia.
        Quanto a Alain Finkielkraut, existem imagens e testemunhos evidentes sobre o que se passou.
        Mas, mais uma vez, o meu amigo prefere não reconhecer factos que desmentem o suposto carácter pacifico e “bon enfant” do que se passou ali e não acha importante condenar este tipo de comportamentos abjectos.
        O que é certo é que as “Nuit Debout” não são meras manifestações pacificas “para discutir o que interessa a todos” !!
        Tout de même, salutations cordiales !

        1. Fernando S., leia bem o post e o que lhe respondi antes. Não disse que não houve casseurs nem distúrbios, que também lamento. Sobre os dias em que lá estive, e noites, foram todos entre 27 e 29. E assisti na última madrugada ao lançamento pela polícia de uma granada de gás lacrimogéneo para dentro da estação de metro sem que nada o tivesse justificado. E aí, sim, começou a confusão, com os zaragateiros a tirarem, é verdade, sim, senhor, e lamentavelmente, o maior partido da situação, sabe-se lá se por iniciativa própria se por encomenda de alguém, o que não me admiraria nada – a Nuit Debout vem dividindo, como deve estar ao corrente, muita gente de topo no PS francês, que vem reagindo incomodado e danado que ela termine a todo o custo. Pus o post que pus pelo lado bom do que vi e sem extrapolações sobre o que não vi.

          1. Fernando Sousa,
            Eu li bem o seu post e os seus comentários, vi-o dizer coisas como se os “casseurs” não tivessem nada a vêr com os manifestantes e não o vi condenar essa violência.
            Lamentar a violência, atribuindo as culpas à policia ou a eventuais provocadores a mando de gente no topo no PS francês (uma mera tese conspirativista que não tem qualquer fundamento nos factos), como fez no cometário anterior, é fugir com o rabo à seringa e não chega !!…
            Não sei o que viu exactamente …
            Mas a policia francesa não atira granadas de gás lacrimogéneo para o interior de estações de metro por atirar.
            Algo aconteceu antes.
            Foram feitas filmagens que mostram desordeiros a pôr caixotes de lixo a bloquear uma das bocas da estação de metro e a deitarem-lhes fogo.
            Isto é perigosissimo e inaceitável sob todos os pontos de vista.
            Obviamente que a policia tem a obrigação de intervir para procurar estabelecer a ordem e garantir a segurança das pessoas, quer manifestantes quer outras, e salvaguardar os bens públicos e privados.
            As imagens sempre mostraram os manifestantes a tomar a iniciativa de atacar as forças policiais e de destruição de bens.
            De resto, estes sectores da esquerda mais radical e extrema, que estão por detrás destas manifestações e que nelas participam, incluindo os “casseurs”, são useiros e vezeiros em fazer este tipo de violência, provocando e atacando a policia, destruindo tudo o que podem, criando um ambiente de turbulência que esperam fique incontrolada.
            Não é nada de novo e não é sequer surpreendente.
            Por isso é que até uma esquerda mais moderada, que inicialmente via com condescendência e até alguma simpatia estas manifestações, que se anunciavam como sendo apenas contra a proposta de lei do trabalho, acabou por vêr que se foi longe de mais, se distanciou, é hoje muito critica e considera que as autoridades devem ser ainda mais exigentes no seu contrôle.
            Lamento que o Fernando Sousa, pelos vistos com alguma credulidade fácil e bastante ingenuidade, apenas tenha conseguido ver “o lado bom” (mas estas concentrações têm sempre uma fase “bon enfant” e festiva) de algo que provocou violências e danos inaceitáveis.
            Digo isto sem mesmo discutir as posições dos manifestantes sobre a famigerada lei do trabalho, que ao fim e ao cabo, como acontece quase sempre com este tipo de gente, acaba por ser mais um pretexto (se não fosse este arranjar-se-iam outros) para comportamentos intolerantes e violentos !

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