Nove de Abril


Ana Cláudia Vicente,

Passava muitas vezes pela Rua Nove de Abril, em miúda – ficava a caminho da ginástica e da catequese, entre a estação e o velho salão de chá. Nessa altura os nomes já me despertavam curiosidade, as datas ainda não. Devia ter uma boa dúzia de anos quando reparei que outras terras assinalavam o mesmo dia em outras ruas. Só então quis saber porquê. Perguntei ao meu pai, que se espantou de eu nunca ter ouvido falar da Grande Guerra. Contou-ma. O cenário geral, os portugueses nas batalhas de Moçambique e da Flandres, o tio-avô António a voltar à aldeia esgazeado, o tio-avô João a regressar só por tempo de tratar dos papéis para a América. Muitos anos depois fixaria números e factos de cor.

 

O cemitério retratado nestas fotografias é alemão, ampliação de um outro bem mais modesto, tristemente estreado em 1915. Esse foi o ano em que, do outro lado da trincheira, o cirurgião canadiano John McCrae publicou na Punch o poema In Flanders Fields, que transformaria a papoila brava no símbolo do Dia da Memória. McCrae morreu em 1918, semanas antes da Operação Georgette. Em Langemark, após mais uma comemoração do Armistício – sempre ao décimo primeiro dia do décimo primeiro mês, à décima primeira hora – encontrei coroas de papoilas depostas pelos bisnetos dos vencedores em tributo aos vencidos. Por cá ocupamos esse dia a celebrar São Martinho, um soldado também. Se quiséssemos, o Nove de Abril poderia ser ocasião de lembrar todos os que serviram o nosso país, de honrar os que perderam a vida nessas circunstâncias. Gostaria muito de ter aprendido este acto fundador da cidadania na escola. Isso não aconteceu.

 

[Langemark, Ypres, Bélgica]

 

17 comentários em “Nove de Abril”

  1. O meu avô materno foi médico-cirurgião do Corpo Expedicionário Português e nunca retirou um pedacito de “shrapnel” (estilhaço),alojado no osso temporal,resultado dum bombardeamento bem perto do hospital, que bem perto estava das trincheiras !! Dizia ele que não confiava lá muito em médicos…

    Parecemos ter vergonha dos nossos mortos.Dessa guerra,da de África(o monumento no Dafundo é quase clandestino…). Visitar esses campos da Flandres,como os da Normandia ou das Ardenas (Bastogne,por exemplo) ensina-nos uma medida de gratidão. Ou o museu da RAF em Londres,o Imperial War museum etc. E até os locutores de Tv usam a papoila na lapela em Inglaterra…que sentimentalões, ao menos a malta aqui não vai em pieguices…

    1. Fernando, obrigada por partilhar esse pedaço de memória familiar. É de facto bastante estranho que em Portugal falemos tanto de passado, sejamos tão saudosistas, e depois não nos preocupemos com uma elementar homenagem colectiva aos nossos mortos, ou a façamos muito institucionalmente, envergonhadamente. Nisto os franceses, os norte-americanos, os alemães, mas sobretudo os britânicos, são bastante expressivos. A papoila de tecido (que começou por ser feita e vendida por uma senhora francesa ainda durante a I Guerra, para benefício dos órfãos, viúvas e inválidos, é até hoje é vendida por ligas de combatentes em diferentes países para recolha de fundos, nomeadamente para financiar projectos educativos de passagem de testemunho aos miúdos, nas aulas e viagens de educação cívica) é um símbolo de sintonia nacional. Por cá, quando dizemos nação, por vezes há quem se arrepie, como se nação fosse negação ou repressão da individualidade, e não o contínuo humano que construímos há séculos.
      Por mim, fiquei bastante tocada por aquelas coroas assinadas por miúdos de liceus ingleses aos pés dos soldados desconhecidos alemães. Se não contarmos aos nossos o custo humano que o país e a Europa tiveram para hoje estarmos onde estamos, será que eles valorizarão o tempo de paz, as lentas negociações diplomáticas, os avanços e recuos político-partidários, as cimeiras internacionais de escassos resultados, enfim, o processo democrático?

      1. O ano passado estive 20 dias em Julho, em Londres.(tenho lá família) Precisamente no Imperial War museum comprei por 50p. um pequeno livro,de capa verde e desenho da papoila,”Poems of War”. Os fundos revertiam,se bem lembro,para o lar dos veteranos, ali em Chelsea,bem pertinho da zona onde “abanco”. O livrito lê-se duma penada e faz-nos doer os olhos…aqueles ingleses são mesmo antiquados…

  2. Um avô meu combateu na Flandres. Na terra onde nasceu havia até um Beco do Combatente, em sua homenagem. Por vários motivos, e até por me evocar esta memória familiar, gostei muito do teu texto.

    1. Pedro,
      felizmente, até agora, muitos de nós beneficiámos da solicitude dos nossos, que quiseram partilhar o que viveram (ou a memória do que lhes contaram) nessas situações limite. Sorte a nossa. E responsabilidade de passar tudo isto aos vêm depois de nós.

      abraço

      1. “…Pour out your light, O stars,and do not hold
        Your loveliest shining from earth’s outworn shell -Pure and cold your radiance,pure and cold
        My dead friend’s face as well…”

        Ivor Gurney

    1. Tem razão: ao Carvalhido. Eu era capaz de jurar que a Rua de Nove de Abril é à Ramada Alta, no cimo da Rua de Nossa Senhora de Fátima, mas já vi que estou a fazer confusão.

  3. Mesmo em frente da minha casa, que dá para a Rua dos Combatentes da Grande Guerra, em Sintra (na terminologia local acabou por ficar conhecida como “correnteza”, por ser uma espécie de parque comprido e estreito onde se fazem feirinhas de rua, se passeia e se vê as vistas do palácio), há uma estátua ao Soldado Desconhecido em memória de todos os que morreram por lá. Às vezes há coroas de flores aos pés da estátua, mas não em dias determinados. E da minha varanda nunca vi fazer, em nenhum dia especial, uma homenagem “oficial”.

    Bem regressada, Ana Cláudia!

    1. Ana, morar ao pé da Correnteza, que bom deve ser! Conheço bem o parque-varanda e a sua estátua meia-esquecida; uma parte da minha família paterna viveu não longe, à Rua da Pendoa, altura em que geria a Adega das Caves. aAinda vivem perto, e sinto a zona como um pouco minha também.

      Um beijinho, e obrigada!

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