Novas oportunidades para combater velhos hábitos


Rui Rocha,

 

O relatório “As Perspectivas da Educação 2011” foi hoje apresentado pela OCDE. De acordo com o estudo, Portugal tem a maior taxa de obtenção de diplomas do final do ensino secundário (96 por cento). Mais, a taxa de obtenção do diploma subiu 34 por cento de 2008 para 2009. Perante tais resultados (melhor falaríamos de um milagre), é importante sublinhar as reacções de Isabel Alçada e de Nuno Crato. Isabel Alçada, ouvida algures na Aldeia dos Estrunfes onde reside há já alguns anos,  abriu muito os olhos e afirmou, com voz melada, que “os meninos adultos portugueses confiam na escola e na educação, o que aconteceu depois do Programa Novas Oportunidades“. Nuno Crato, por seu lado, referiu que “a taxa de sucesso de 96 por cento dos alunos do secundário inclui o programa Novas Oportunidades, o que inflaciona em muito os números” e que “o relatório da OCDE apresentado hoje em Paris esconde a realidade do país“. Em termos de discurso, um e outro estão seperados pelo abismo que se interpõe entre os malabaristas estatísticos e aqueles que têm um sentido agudo da realidade. É fundamental, também a este propósito, que o actual Ministro da Educação seja consequente, ao nível dos actos, com a exigência que refere nas suas palavras. A alienação estatística, nesta e noutras matérias, por ter como consequência uma realidade grosseiramente falseada, tem custos. E estes são sempre pagos pelo país e, sobretudo, por aqueles que têm menos recursos.

26 comentários em “Novas oportunidades para combater velhos hábitos”

  1. A notícia não é enganosa. A referência à percentagem de obtenção de diplomas nada diz sobre o real valor dos mesmos. Ou melhor… diz tudo.
    O melhor argumento para aqueles que, como eu, estão contra o tipo de avaliação levado a cabo nas Novas Oportunidades (sublinho que quanto ao conceito até o considero óptimo) é precisamente a taxa de aprovação.
    96%??? Com excepção de Isabel Alçada, alguém acha credível?

          1. Estou a falar em relação a todo o processo. Acho que se fala muito como em relação a outros assuntos mas as pessoas nem sempre estão informadas. É fácil denegrir tudo o que se quer neste país, basta mandar umas larachas e já está. Eu acho o princípio muito bom, a concretização é que não correu bem e por culpa de quem tutela o processo. Se a sobrevivência dos Centros não dependesse das metas de certificação talvez fosse diferente.

  2. O que distingue esses dois senhores será a noção da realidade, será o grau de alheamento, será o brio profissional, será o malabarismo estatístico, será a competência, será o género, será a altura, será o que se quiser.

    O que de facto distingue esta senhora deste senhor é que ela não tem vergonha na cara.

      1. Da maneira que falou, parece que a Leonor conhece alguém ligado à implementação do projecto, ou talvez seja apenas empática. Eu não conheço nenhuma dessa gente e a empatia… Repare que não deixo de concordar com o que comentou acima. Esta aposta na formação de adultos é de facto um projecto de imensa pertinência dado o nosso desfasamento em termos de literacia e formação técnica dos demais países da OCDE. Agora a forma como o programa foi gerido foi escabrosa e indecente. Utilizar fundos do erário público e brincar com as expectativas e ambições das pessoas para fins de estatística eleitoral é de uma falta de respeito e de vergonha, que, considero, ultrapassa a raia do tolerável. Se o Sr. Crato tivesse aceitado estar à frente de tal programa para o gerir nestas condições, então teria sido tão desavergonhado como a Sr. Alçada o é.

        1. Hugo, sou professora, estou por dentro do processo, e, como disse algures aí em cima, a ideia parece-me muito boa. Acho muito bem que as pessoas a quem foi vedada a possibilidade de prosseguir estudos pelas mais variadas razões e que adquiriram competências ao longo da vida as vejam agora certificadas. Nada contra, tudo a favor, se a certificação for séria e competente. Acontece que o financiamento dos Centros depende das metas de certificação, ficando logo tudo ‘inquinado’. E nem todos os Centros são sérios pelo que ouvi. Não sei, mas não me parece que as expectativas das pessoas tenham sido defraudadas. Foi-lhes prometida certificação de competências e isso foi feito. Atenção que eu não defendo o Sócrates, muito menos a Maria de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada, nenhuma delas vale nada em termos governativos, mas incomoda-me um bocado esta tendência para deitar abaixo o que foi feito anteriormente, nem sempre com razão. Ainda em relação ao Processo de RVCC é claro que há coisas que são um disparate perfeito, ninguém precisa de saber comprar electrodomésticos para ser um profissional competente. O catálogo de competências-chave fez-me soltar umas gargalhadas de vez em quando, mas, acredito, que ver adultos, homens e mulheres feitos com vidas lá fora, regressarem à escola e mostrarem empenho e avidez na aprendizagem, muda muito a nossa perspectiva.

          1. Como presumo que tenha depreendido do meu comentário anterior, apoio grande parte do que expôs. Agradeço-lhe desde já a achega de quem está mais perto desta realidade. Como referi acima é um projecto extremamente pertinente dadas as características da nossa sociedade e, como tal, acredito que em termos de mentalidade tenha tido um impacto positivo, como argumentou. Não posso subscrever contudo a ideia de que o balanço deste programa seja globalmente positivo. Pois as competências que certificou de jure não foram adquiridas de facto. E como tal, estas certificações carecem de real valor para o mercado de trabalho, embora não para as estatísticas. E daí a minha afirmação que as expectativas das pessoas foram defraudadas. Pelo que me apercebo, a maioria dedicou-se a estes programas na senda de melhorar as hipóteses de conseguir emprego.

          2. Fui formadora de Língua Estrangeira durante uns breves meses no CNO da minha escola, Hugo. Não conheço em profundidade o que se passa noutros sítios e pelo que ouço é mau. E mesmo no meu só falo mesmo do que conheço mas tenho confiança no Centro da minha escola. Neste processo as pessoas não adquirem competências. O processo é inverso. Elas têm é de demonstrar que as adquiriram ao longo da vida através da aprendizagem informal e de outros contextos em que estiveram inseridas e são essas competências que após um processo que passa pelos vários técnicos do Centro e Formadores que serão certificadas. Todos os candidatos vão a uma sessão de júri com elementos exteriores à escola, um bocadinho à semelhança de uma dissertação de mestrado. As competências constam de um catálogo extenso e muito ambicioso e em algumas situações disparatado, como já disse. Peço desculpa pela resposta tão longa mas é importante que se saiba como é. As Novas Oportunidades incluem outro tipo de programas também. Se o candidato não possui as competências para certificação, nível Básico ou Secundário, tem de fazer formação no Centro.
            Em relação às expectativas é muito gratificante ver o impacto que estas medidas têm na auto-estima das pessoas. Dir-me-á que não é suficiente. Não é, de facto, esperava-se, espera-se, que haja um impacto na economia mas não concordo que tenha sido em vão e achei absolutamente desastroso e uma falta de respeito absurda as palavras de Passos Coelho ao dizer que tinham distribuídos Certificados de ignorância.

          3. Há um estudo, acabo de ver, que comprova que este programa teve impacto significativo nos seios das famílias e no acompanhamento que os pais prestam aos filhos. Como digo, nem tudo é mau.

          4. Cara Leonor, não me peça desculpa pela extensão. Caso ainda não tenha reparado sou perito nisso. Além disso muito lhe agradeço o trabalho a que se deu a escrever os textos acima apenas para argumentar com mais um puto. Temos obviamente uma visão global do NO diferente. Como a Leonor tem a sua experiência de campo num só centro e eu só conheço a realidade por interposta pessoa, acho que é legítimo concluir que possivelmente temos ambos opiniões enviesadas, se bem que a sua alicerçada em factos bem mais concretos que a minha. Onde anda a verdade, não sei. Mas sei que muita coisa haverá por corrigir neste programa, ou não seria o alarido que é. E não creio que se trate apenas de demagogia política, embora ela tenha tendência para distorcer tudo.

            Deixo-lhe o desafio: porque não escrever um ou alguns posts sobre o assunto? (talvez já o tenha feito?) Eu sei que gostei muito de haver quem me desse a conhecer o outro lado da moeda. Outros, com certeza, gostariam também. Bem-haja

          5. Gosto muito desta nossa conversa, adoro conversas em que se pode debater sem partir para a ofensa. Gosto mesmo, Hugo. Eu ressalvei que conhecia relativamente o centro da minha escola e que é do domínio comum que alguns centros não funcionem bem, mas, como lhe disse, vejo muitas vantagens no programa. Há que melhorá-lo, não há dúvida nenhuma, nenhuma mesmo mas as pessoas que viram certificadas as suas competências e que o fizeram honestamente não merecem o tratamento que têm tido.
            Não, nunca escrevi sobre o assunto, às vezes fujo de escrever sobre educação. É o meu dia-a-dia e não partilho de muito do que é dito por aí. Gosto de espairecer.

          6. Gosta a Leonor e gosto eu. Como disse ao Pedro Correia e ao João Carvalho aí num comentário a algures, aqui o Delito é um local onde uma pessoa decente se sente em casa. Atira-se a mala e o casaco para lado, descalçam-se os sapatos e calçam-se as chinelas, recosta-se no sofá e toma-se qualquer coisinha entre dois dedos de conversa.

            Parece-me que padece a Leonor da angústia do justo que paga pelo pecador. Como já ficou claro, a minha visão global das NO é claramente negativa. É-o por motivos que, aceito, são discutíveis. Mas parece-me que a será a sua experiência pessoal a excepção à regra.

            Percebo isso, de espairecer. Também não me vê por aqui a falar de medicina. Mas pense nisso 😉 Parece-me ter a Leonor a temperança de espírito suficiente para elevar um pouco a discussão do assunto e quiçá fazer a diferença na opinião de alguns…

          7. Adoro esta imagem, Hugo, ‘Atira-se a mala e o casaco para lado, descalçam-se os sapatos e calçam-se as chinelas, recosta-se no sofá e toma-se qualquer coisinha entre dois dedos de conversa.’
            Sim, tem razão, às vezes, sinto-me um bocado injustiçada mas as generalizações fazem parte de tudo isto.
            Obrigada por tudo 🙂

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