Regressei à região de Manchester, onde não ia há muitos anos mas me deslocava frequentemente em tempos. Por lá andei em pequenas cidades, num raio de aí uns 200 km.
Uma nota prévia: nunca gostei de ir a lado nenhum, salvo talvez na minha década dos 20, mas apreciei com frequência ter ido. De tal modo que, salvo viagens de férias que resultam de consenso familiar, sempre me desloquei em trabalho, como agora. Por que razão milhões de pessoas andam de um lado para outro suportando imensos incómodos e transtornos, comendo lixo às refeições, correndo atrás de monumentos cuja história desconhecem, frequentando museus onde apanham um enjoativo fartote de contemplação de objectos dos quais sabem coisa nenhuma, e pasmando perante hábitos de vida que julgam poder generalizar do local turístico em que estão para o país que visitam – é matéria que sempre me confundiu.
O “lixo” é aqui um exagero retórico, mas não sem fundamento: os filhos daquelas ilhas de bruma nunca aprenderam, como franceses, italianos, espanhóis e nós, entre outros, a aproximar a mesa do Céu. E fariam bem em aprender alguma coisa com os frogs mesmo ao lado, começando por ter pão decente.
O mundo novo das low cost, do povo tatuado e semidespido, dos aeroportos onde milhões de pessoas são processadas como numa criação intensiva de porcos, dos aviões de onde todo o conforto emigrou, e dos hotéis de 4 estrelas onde os quartos de banho nem sequer têm bidés, conta com a minha compreensão (as coisas são como têm de ser), simpatia abstracta (se as pessoas vão e gostam porque agora podem ir e dantes não podiam, isso é positivo), mas abominação em concreto. E é claro que beneficiamos largamente deste estado de coisas: também nós importamos imigrantes para uma economia que, débil embora, precisa deles; e é o turismo de massas, caído do céu, que explica que a patente mediocridade do governo que temos não se traduza na miséria que a sua inépcia justificaria. E chega de semelhanças que os talentos ingleses não dão à sola, como aqui.
O espaço público naquela parte da Inglaterra (o centro-Norte) é mais sujo do que dantes era, e de forma geral menos cuidado. Dizem-me que é por causa do influxo, que por toda a parte se nota, de indianos e negros. Suponho que também de brancos pobretas de numerosas nacionalidades. Acrescento esta precisão não para me subtrair a suspeitas de racismo (quero lá saber das etiquetas com que hoje se quer abafar a liberdade de opinião em nome de obsessões com acertos de contas históricos, identitarismos sortidos e superioridades morais de esquerdistas suficientes e cretinos) mas porque parece evidente que a economia inglesa não se aguenta sem que uma multidão de imigrantes venha tapar os buracos que uma população envelhecida, e a renovação de gerações que deixou de se fazer, abriram.
Muçulmanos vi poucos nos sítios onde andei. E quanto a estes, lá e em toda a parte, tenho sérias reservas sobre as facilidades da sua integração. Aquela religião fornece não apenas um ideal de vida mas também um código civil e outro penal completos, ambos civilizacionalmente obsoletos, junto com um proselitismo militante que faz com que, se em maioria numa região, cidade ou bairro, reclamem a sua diferença em nome da liberdade, que aniquilam para os outros em nome da sua religião.
E então, vai o Reino Unido, que a vários títulos é depositário do melhor que nas instituições, nos costumes e nas realizações, se produziu no Ocidente, desaparecer?
Acho que não. É mais provável que, ficando inevitavelmente diferente, sejam os filhos e netos dos imigrantes a, integrando-se, dar sangue novo a um corpo enfraquecido.
De modo que é pouco provável que as pequenas cidades percam o seu cunho único, e nelas ocorra a onda pirosa dos émulos locais dos Soutos Moura, Siza Vieira e outros poluidores.
Tudo visto e ponderado, afinal, é como sempre foi comigo: digo mal de tudo mas gostei de ter regressado.

Concordo com tudo, menos com a ideia de que a imigração é necessária. Não me parece que seja, não apenas porque representa uma depressão significativa das qualificações e das competências mas também porque, com menos população e maiores qualificações, a oferta de trabalho é sempre superior à procura e portanto os salários aumentam de acordo com a concorrência entre empresas — que no caso contrário não funciona realmente porque não há transição de trabalhadores para empregos mais bem pagos, a única coisa que força os empregadores a oferecer melhores condições de remuneração.
Obviamente que no maravilhoso mundo do Dr. Costa, onde o desígnio nacional é servir bicas, nada disto importa, nada disto funciona. Tanto faz.
Não está a ter em conta o fenómeno que no meu já longínquo tempo, se chamava discrepância (juro que não sou sociólogo).. Os naturais de um país, mesmo num cenário de desemprego, recusam certos trabalhos que têm de ser feitos por imigrantes. Aconteceu em França com argelinos e portugueses, e está a acontecer em Portugal (e Inglaterra).
Cortar subsídios de desemprego ou militarizar o desemprego não são soluções que tenham exequibilidade no Ocidente. E o que tornaria essas soluções exequíveis, por exemplo uma guerra ou uma ditadura a sério, também não são soluções recomendáveis.
Os naturais de um país, mesmo num cenário de desemprego, recusam certos trabalhos que têm de ser feitos por imigrantes.
Mas eu estava precisamente a ter isso em conta…
Em primeiro lugar, essa tese de que os naturais não querem trabalhar em certos trabalhos e os imigrantes vêm salvar os países não só é bastante delirante e superficial como está feita ao contrário: a partir da vontade de impingir imigrantes à força a uma sociedade já de si depauperada.
Em segundo lugar — e para responder directamente à sua ideia — é precisamente por haver imigrantes que vêm ocupar esses trabalhos mal remunerados (por isso ninguém os quer, porque não chegam, não é porque os nativos sejam finórios) que os salários não sobem. A imigração, tal como o SMN, é o maior travão à melhoria das condições de trabalho e das condições salariais. Com escassez de população os trabalhos mal pagos extinguem-se a si próprios e até seria possível implementar o rendimento minimo universal que seria o melhor dispositivo para travar o aumento da pobreza e a destruição da classe média.
Só posso concordar que discordamos. Ou, pelo menos que estamos a abordar por prismas diferentes. As suas ideias parecem-me mais ideiais, não realizações possíveis em quadros de liberdade e alguma (ou muita) demagogia eleitoral, que é a realidade.
Vi filas à porta dos centros de emprego com pessoas que pelos atavios tenho a certeza que nunca se sujeitariam a trabalhos “inferiores” mas também acredito que se um governo os impusesse sob pena de retirar o subsídio de desemprego seria fortemente penalizado eleitoralmente.
A ideia do rendimento mínimo universal ainda é incipiente e precisa de ser experimentada, tal como a semana dos 4 dias porque o que me parece mais provável é que o conjunto da robótica e da IA irá dispensar milhões no mercado de trabalho. A questão, e nessa sou muito pessimista, é se existirá educação que possa libertar pessoas para actividades culturais, se existirá riqueza que possa libertar pessoas para actividades turísticas, ou se as pessoas sem trabalho irão “engraxar calçadas” e aumentar os vícios do álcool e drogas.
Caro Francisco, podemos estar em desacordo, mas temos as mesmas preocupações: queremos que o nosso país seja melhor.
Para concluir, diria que tirando o problema do fanatismo muçulmano que (como diz o post) uma vez em maioria não permite que mais ninguém viva, não tenho nenhuma objecção às pessoas em si, com esteangeiros, mas não acredito que “imigração”, usada como um mecanismo de regulação economica e proposto (no nosso caso é mais “imposto”) de uma perspectiva estatística superficial, seja solução para o que quer que seja.
“Com escassez de população os trabalhos mal pagos extinguem-se a si próprios.”
Como? deixa-se de precisar de limpar as casas de banho, chão etc?
O que acontece é que a força social e cultural é muito maior que a força do mercado.
No mercado se há escassez de que queira limpar as casas de banho o ordenado dessas pessoas aumenta. Mas tente fazer isso numa empresa onde alguém que limpa a casa de banho ganha mais do que alguém que move papeís. Tem uma rebelião porque o factor cultural e social é muito mais importante que o mercado.
Logo vêm pessoas que aceitam salários baixos para esses trabalhos.
Por isso mesmo, por causa dessa pressão social, se limpar latrinas for mais bem pago (porque em escassez os salários subirão), empurrar papéis também será.
muito bom, super bem humorado -:)