
Olhava para o tecto acordada a pensar quanto tempo mais a minha cama suportaria este peso cetáceo que desenvolvera em pouco mais de dois meses. O sexto mês de gravidez impôs-me aquele ritmo lento e vaporoso de um hipopótamo saltando diafanamente de nenúfar em nenúfar. Supostamente teria pés no extremo das pernas, mas nãos lhes vislumbrava a inchação que sentia. Chamei o meu marido para me ajudar a sentar. Nada. Quem sabe não ouviu? Voltei a chamar e desta vez entrou no quarto de sopetão e meio titubeante. “Olha, morreu o Sá Carneiro! “Estás parvo?” “Não! Interromperam a programação para dar a notícia. Foi num acidente de avião.”
Ajudou-me a ir para a sala. Sabia que eu, como o país, estava em choque. Era prematuro tirar ilações da pouca informação, mas ainda hoje diz que a primeira coisa que falei foi “Mataram-no.”
Como muitos portugueses, eu tinha vivido as eleições com o entusiasmo esfusiante da consumação de uma vontade. Esperávamos grandes coisas, a mudança tão aguardada estava a chegar. Tínhamos o líder que era o nosso homem do leme, mas como diz a música, a vida é sempre a perder.
Com muita dificuldade, passei horas nas imensas filas dos Jerónimos, com lágrimas nos olhos e uma vela nas mãos, que ardeu antes de poder rezar um Padre Nosso. Um adeus, uma simples homenagem a um homem maior. Era imperioso.
…
Acabei de ver o último episódio da última temporada de Três Mulheres e voltei lá, àquela noite de 1980, quando morreu a honradez e Portugal perdeu o rumo.

Boa tarde, Grande Homem, Grande Líder,… Na minha opinião jamais verei um líder como ele. Sou da mesma opinião do que escreveu… Bom fim-de-semana.
Muito obrigada. Bom fim de semana para si também.
morreu a honradez
Ainda me recordo de ver paredes de Lisboa pichadas com “Sá Carneiro caloteiro”, por causa de um calote que ele terá alegadamente pregado a um banco.
Julgo que o assunto nunca foi cabalmente esclarecido e deslindado.
Se esse calote tiver existido, Sá Carneiro não terá sido “a honradez” que o post refere.
O balio é que podia tirar isso a limpo! Há 40 e tal anos que essa literatura de parede nos pressiona como um garrote e não nos deixa dormir! Ser honrado ou não, eis a questão.
Aguardo ansiosamente o desenrolar das suas descobertas.
O balio é que podia tirar isso a limpo!
Não posso. O banco a que Sá Carneiro terá pregado o calote há muito que não existe. E eu nem sei qual fosse esse banco.
O assunto foi abafado. Não houve vontade de o investigar e tornar público em devido tempo. Era inconveniente.
Oh balio, se não sabe qual era o banco, como é que sabe que ” há muito que não existe”?
Como é que sabe que abalaram a tal coisa inconveniente do banco que há muito que não existe e “que eu nem sei qual fosse esse banco”.
O calor é um martírio para organizar as ideias, não é?
Se só nasceu uma vez não pode ser mais honrado que o outro.
Qual outro?
Claro, você passa a vida a sonhar e ósdepois não presta atenção à vida real.
Provavelmente a Maria Dulce não come Bolo Rei.
Só como Bolo Rainha
Depois sou eu que ando a pairar pelo multiverso …
O mundo onírico movimenta-se noutra galáxia. Lá os presidentes podem ser palhaços, os primeiro-ministros andam em vacas voadoras e até as ministras da saúde podem adoecer em Agosto, e as reformas dão para pagar as despesas. Só tem um contra, só se nasce uma vez.
Ah, mas isso não é no mundo onírico, onde os eus pululam frenéticos . Engano seu Carlos, por lá somos fénix chamuscadas, nesta vidinha é que somos pé de chumbo.
“O sexto mês de gravidez impôs-me aquele ritmo lento e vaporoso”
Ao ler isto sinto inveja. Nós, homens, nunca saberemos o que são as alegrias da maternidade nem o que é trazer outra pessoa dentro de nós.
Ao contrário do que seria de esperar (pelo menos do que eu esperava) a maternidade é hoje brutalmente desvalorizada, com um importante contributo (se calhar o mais importante) das mulheres feministas [parece que gostam mais de tomar conta de uma empresa (na administração, não em baixo) do que de fazer uma pessoa desde feto até adulta]. Lá sabem mas eu não compreendo.
É a melhor coisa da vida de uma mulher poder ser mãe. É tudo fantástico até embaleiarmos em arco. E depois ainda vem o parto. É que há 40 e tal anos não havia epidurais.
Mas só troco a experiência de ser mãe pela experiência de ser avó.
“É a melhor coisa da vida de uma mulher poder ser mãe” Sim, estou completamente de acordo. Mas porque é que é tão desvalorizada pelas (nem todas) feministas? Dará mais prazer ser CEO de uma empresa? Não sei, nunca fui e também não posso ser mãe.
Creio que o relógio biológico de cada pessoa varia segundo as prioridades, mas pode ser-se mãe e ser quadro superior de uma empresa, uma coisa não interfere com a outra.
” mas pode ser-se mãe e ser quadro superior de uma empresa, ” Sim, ganhar bem é irresistívil e acaba por se preferir tudo. Mas que há situações incompatíveis, há (já presenciei).
Não há situações incompatíveis, há apenas pessoas que não sabem estar. Nada é incompatível quando se é bem formado e se tem vontade. Nos dias de hoje há creches, ATLs e outras ajudas à maternidade que não havia no meu tempo. Há que compartimentalizar a vida de casa e a vida no trabalho. Hoje os maridos ajudam, não complicam.
Pensando melhor, com esta frase “uma coisa não interfere com a outra.” não concordo. Interfere, e muito.
Manuel, eu trabalho desde os 18 anos. Conciliar o trabalho, com os estudos, com o casamento e com a maternidade. Trabalho há 40 e tal anos. Nunca deixei de trabalhar, de ser esposa do meu marido, dona da minha casa, mãe das minhas filhas ou avó dos meu netos.
Nada se consegue sem trabalho e não se pode desanimar ao primeiro (nem ao segundo, nem ao terceiro, nem…) contratempo. Mas que é possível, é sim.
na 25.xi estávamos 9 militantes a acompanha-lo na sede da avenida ‘do quilolé’.
um eng do ps disse-me ‘mataram-no’.
elegeram mais um ‘montón …’
Mataram-no sim. Mantenho o que disse na altura.
A Dulce em 1980 já estava casada e grávida. Teve filhos muito cedo (para os costumes de hoje).
Nem por isso a filha mais velha nasceu às 23:45h e a mais nova às 16:30h. Nenhuma chegou cedo ou antes do almoço.
Gêmeas? Nasceram com um intervalo grande de 16 horas e 45 minutos.
Tal e qual o Schwarzenegger e o De Vito.
A nota de pesar é por causa da série da RTP1.
Estava no estrangeiro quando foi o desastre, mas tinha conhecimento do que se passava por cá. Analisando, agora, esse tempo, ou o tempo do governo de Sá Carneiro, não encontro legislação importante, reformadora se quiser, que marque de tal forma que ainda dizemos “essa lei é do tempo do Sá Carneiro”, nada, absolutamente nada.
Do desastre tive conhecimento por um amigo alemão, que na adolescência conheci no sudoeste alentejano, muito antes do boom turístico, por o pai trabalhar no aeroporto de Beja e ainda ser parente de uma senhora que trabalhava Alfragide numa empresa de automóveis.
Ele não se referiu ao “Sá Carneiro caloteiro”, referiu-se ‘aquele importante que tem o nome dele em muitas ruas’.
A série de ficção apresentada na RTP1, como muitas outras da RTP, é alguma coisa de jeito feito nas tv portuguesas.
A nota de pesar é por termos perdido um grande homem que não teve tempo. Venceu as eleições intercalares em 79 e perdeu vida um ano depois. Quem sabe poderia ter mudado o mundo, mas não teve tempo.
Sá Carneiro sempre me pareceu um político vulgar, daqueles que gerem o momento para terem ganhos momentâneos. É ver as vezes que ele entrou e saíu do partido que fundou.
Não merecia um inquérito ao acidente de Camarate como o que teve – 37 inquéritos parlamentares, um recorde. Ainda bem que o último determinou que foi assassínio por pessoas e por motivos desconhecidos (muito elucidativo), se não ainda agora estava a decorrer o 459º inquérito.
Morreu prematuramente, não chegou a ver o seu candidato a perder as eleições para a presidência nem a sua AD a autodestruir-se, com o PSD a demitir o próprio primeiro ministro Pinto Balsemão.
Se demorou tempo a “concluir” o inquérito foi porque convinha que demorasse tempo a chegar a uma “conclusão “.
Se Sá Carneiro não tivesse sido morto, não sei se o candidato dele sairia derrotado na primeira volta.
Foi um efeito borboleta na social democracia nacional.
A mim parece-me que se chegou a essa conclusão porque se fosse outra não se fechava o inquérito. Desse modo o resultado fica ligeiramente condicionado, mas só ligeiramente…
Isso é muita especulação. As pessoas votaram em Eanes e não em Soares Carneiro nessas eleições, apesar do apelo emotivo feito pela direita. É muito duvidoso que se Sá Carneiro fosse vivo a vitória fosse de Soares Carneiro. Chamar social democrata à figura sinistra de Soares Carneiro não lembra ao careca. De qualquer modo Eanes não é propriamente um ditador comunista.
Se não é desse tempo, eu explico: Sá Carneiro era a AD. Com ele vivo, o Soares Carneiro poderia ter atingido outro patamar nas eleições. O Soares Carneiro não dizia muito a muita gente, mas o Sá Carneiro sim. E se ele apostava neste General, a aposta seria capaz de estar ganha. Por vezes as pessoas são tão carismáticas que se sobrepõem a grupos, coligações ou ideais.
Eanes foi um bom presidente para os governos socialistas.
“Soares Carneiro não dizia muito a muita gente, ” Mas dizia muito a todos os que sofreram sob as suas ordens no regime de Marcelo Caetano. É difícil perceber a razão para a escolha deste General tão comprometido com a ditadura e a guerra colonial e numa época em que ainda estava tudo fresco nas memórias. Na época ele era um nome horroroso para a maioria dos que desejavam a democracia. Nunca ganharia contra Eanes.
Pois, agora nunca se saberá, pois não? Naquela altura mais de meio país pensava que o General Ramalho Eanes estava impreparado. Passou até a fazer parte de uma colectânea de cartoons do Augusto Cid , salvo erro Eones o Superman. Toda a gente que votava PSD/CDS/PPM sabia que votando Soares Carneiro estava a votar AD. Por isso não seja tão peremptório em afirmar algo que desconhece. Eu vivi intensamente aquele período, a época em que os políticos eram gente de bem. E assumiam as fraquezas . O Dr. Mário Soares, por exemplo, repetia ad nauseam naquele seu francês de triste pronúncia ” nous avons toujours les mêmes idots”. Está claro que ele queria dizer “ideaux” , mas que soava e ainda soa acertado, ninguém pode negar.
“a época em que os políticos eram gente de bem” Agora não são! Só são de bem quando são do nosso partido. Soares Carneiro era de bem? As percentagens com que Eanes foi eleito deixam pouco as dúvidas.
Agora não são, nem eu tenho partido. São uma cambada de inúteis.
Se me souber dizer onde estava a 4 de Dezembro de 1980, talvez entenda o seu conhecimento de causa. Nunca me esquecerei que, mesmo contra vontade, O General Ramalho Eanes foi eleito com os votos do PCP, num incrível golpe teatral.
“São uma cambada de inúteis.” André Ventura dixit
Começando por ele, que é o inútil-mor, a classe política não vale o sal que ganha.
Dizer que se o grande político não tivesse morrido, acontecia isto e aquilo, é um pouco especulativo.
Eu sei que as caravanas automóveis na Avª de Roma davam à AD um aspeto muito moderno e faziam muito barulho, mas aquilo era um saco de gatos e nem uma legislatura durou. E há muito mundo fora do Areeiro e das Avenidas Novas em Lisboa.
Sá Carneiro esteve longe de ser a figura carismática que se diz.
Agora, a 40 anos de distância, pode dizer o que mais lhe apraz, jo. A cor de cada um fala sempre mais alto.A verdade nunca se virá a saber. E pode nivelar por baixo o aconteceu para que quem não viveu nesse tempo pense que foi assim como diz. Não foi nada disso. Não é verdade. Se poderia ter sido grandioso? Eu acredito que sim. Você acredita que não. Tudo bem. Bom fim de semana.
Sá Carneiro sempre me pareceu um político vulgar
Não, não foi um político vulgar. Foi, em grande medida, um político populista, num tempo em que tal ainda não era vulgar. Saiu há pouco tempo um excelente livro de José Pedro Zúquete que estuda o populismo em Portugal e se detalha, entre muitos outros, sobre o populismo de Sá Carneiro. Aconselho a leitura.
Nem tudo é o que parece, balio. O balio por exemplo tem alturas em que parece lerdaço, mas garanto que não é.
Como é que garante isso?
O balio segundo consta, é um físico de investigação com uma quantidade de PHDs agregados. É de valor entender as partículas, etc. como também seria de valor entender as pessoas.
Os inquéritos foram o que foram, para, principalmente, saber quem pagaria as indemnizações das mortes por acidente ou por atentado.
E chegou-se à conclusão que foi atentado, saindo “ilesa” a companhia de seguros caso fosse considerado acidente.
Em relação à personalidade de Sá Carneiro, tanto se pode dizer que seria ou não seria, por não ter feito nada até então, a não ser umas refilices de menino da Foz na ala liberal da AN.
Como já referi, poderia ter sido grande. Não teve tempo.
Do pouco que li sobre ele pareceu-me um homem distinto e arrojado, talvez tivesse sido a fonte dos seus problemas.
O primeiro comício a que fui foi um de Cavaco Silva e na altura mesmo sendo pequeno via as multidões que arrastava e se Sá Carneiro ainda tinha mais carisma então decerto perdeu-se um grande político.
O Professor Cavaco Silva nunca arrastou multidões, nem é da sua maneira de ser. É uma pessoa muito fria.