“No trates de escribir bonito”


Pedro Correia,

 

Um dos melhores conselhos, em matéria de técnica de escrita, foi dado certa vez pelo escritor e pedagogo colombiano Tomás Rueda ao jovem Eduardo Caballero Calderón, que na década de 30 do século XX ensaiava os primeiros passos na literatura.

Disse-lhe o mestre: “No trates de escribir bonito.  No dejes que se te vea la gramática.”

É um conselho que vale para todas as épocas, para todas as latitudes. A escrita tem muito de pessoal. Tem de irromper sem artifícios. Límpida como a de Borges, depurada como a de Pessoa, torrencial como a de Kerouac. Mas sem pomposidades, sem adstringências.

O estilo diz tudo sobre o seu autor.

Para escreveres bem, evita as frases feitas, as frases batidas, as frases de efeito fácil mas vazias de conteúdo.

Arruma as ideias, escreve como pensas, desvenda-te em cada parágrafo.

Assimila as regras gramaticais evitando sempre a prosa canhestra de mestre-escola.

Escrever é isto.

26 comentários em ““No trates de escribir bonito””

    1. Não precisas, Leonor. Está mais que sabido que te escondes nestes comentários e que, de um momento para o outro, irrompes a desvendar-te fluida em prosa que nem precisas de assinar, porque afinal é sempre a tua escrita bonita.

  1. Muito bem condensado, compadre. A receita está verdadeiramente nos três parágrafos que antecedem o teu desfecho: «Escrever é isto.» Depois? Depois, a escrita é bonita.

  2. Conselho sábio…

    Pode-se ficar siderado
    por novas “escriticidades”
    sem um estilo depurado
    de redondas pomposidades.

    Do prazer de escrever
    com tão pleno sentido
    ganha-se outro viver
    deveras incontido.

  3. Ok, é um excelente conselho e agradeço, mas do que eu precisava mesmo era de alguém que me corrigisse os erros ou, então, me tirasse as dúvidas quando surgem e me fazem parar alguns segundos para pensar duas vezes…
    E, por vezes, nem depois disso consigo esclarecê-las.

    Por exemplo:
    Qual é forma correcta desta frase?
    Podem-me dizer…
    ou
    Podem dizer-me…

        1. Acho que a troca reflexiva é tão comum a falar como a escrever, Teresa. O que é inexplicável, pois até no Brasil há rigor: colocam o reflexo antes do verbo, mas no verbo certo.

      1. Obrigada, Teresa. Obrigada mesmo.
        Era uma daquelas dúvidas que duram há já algum tempo. Nem sabia onde esclarecê-la e, como diz, vê-se muito escrita na outra forma, até por jornalistas e pessoas supostamente “bem formadas”, o que me deixava na dúvida. Mas, afinal, eu estava certa. E agora que me lembro, tenho a certeza que já vi escrito por aqui, no DO, el algum lado o “podem-me” :)))

          1. Bolas, João. Não me confunda. Please!
            Olhe ali para cima, para o comentário da Amêijoa fresca, que diz assim: “Pode-se ficar siderado”.
            Deve dizer-se “Pode-se ficar…” ou deve dizer-se “Pode ficar-se…” ?

        1. Teresinha, posso sugerir-lhe (e não “posso-lhe sugerir”) um bom sítio para esclarecer dúvidas de português corrente: http://www.ciberduvidas.com – Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Esclarece mesmo, e tem a vantagem de apresentar várias opiniões de estudiosos da língua, nos casos não consensuais.

  4. Bolas!! Hoje, ganhei o dia (ups, a noite).
    Pelos esclarecimentos, pela disponibilidade e janela aberta para mais dúvidas, pelo sítio onde ir beber, etc. Obrigada a todos. Um bom Domingo. Viva a Liberdade (e, já agora, viva a net).

  5. Lá escreveu o nosso Zé, José Cardoso Pires, de boa memória e tão esquecido; que para escrever bem, primeiro é necessário aprender bem a gramática e depois esquecê-la.
    O outro Zé, o Eça, tinha uma certa irritação com a bela frase tonta e pedante.

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