Um dos melhores conselhos, em matéria de técnica de escrita, foi dado certa vez pelo escritor e pedagogo colombiano Tomás Rueda ao jovem Eduardo Caballero Calderón, que na década de 30 do século XX ensaiava os primeiros passos na literatura.
Disse-lhe o mestre: “No trates de escribir bonito. No dejes que se te vea la gramática.”
É um conselho que vale para todas as épocas, para todas as latitudes. A escrita tem muito de pessoal. Tem de irromper sem artifícios. Límpida como a de Borges, depurada como a de Pessoa, torrencial como a de Kerouac. Mas sem pomposidades, sem adstringências.
O estilo diz tudo sobre o seu autor.
Para escreveres bem, evita as frases feitas, as frases batidas, as frases de efeito fácil mas vazias de conteúdo.
Arruma as ideias, escreve como pensas, desvenda-te em cada parágrafo.
Assimila as regras gramaticais evitando sempre a prosa canhestra de mestre-escola.
Escrever é isto.


Fiquei a pensar no teu conselho. A partir de agora tentarei esconder a minha gramática 🙂
Não precisas, Leonor. Está mais que sabido que te escondes nestes comentários e que, de um momento para o outro, irrompes a desvendar-te fluida em prosa que nem precisas de assinar, porque afinal é sempre a tua escrita bonita.
Muito bem condensado, compadre. A receita está verdadeiramente nos três parágrafos que antecedem o teu desfecho: «Escrever é isto.» Depois? Depois, a escrita é bonita.
Vou dar um exemplo por palavras minhas: focalizar as ideias a recepcionar pelos outros para todos percepcionarem a escriticidade. Basicamente.
Muito bem dito…ou escrito!
Logo, ideia recepcionada e percepcionado!
Vejo que estamos no caminho da boa entendicidade.
Basicamente, sim.
Bolas, João, anda a coleccionar o dicionário das palavras que o Pedro mais odeia?
Conselho sábio…
Pode-se ficar siderado
por novas “escriticidades”
sem um estilo depurado
de redondas pomposidades.
Do prazer de escrever
com tão pleno sentido
ganha-se outro viver
deveras incontido.
Ok, é um excelente conselho e agradeço, mas do que eu precisava mesmo era de alguém que me corrigisse os erros ou, então, me tirasse as dúvidas quando surgem e me fazem parar alguns segundos para pensar duas vezes…
E, por vezes, nem depois disso consigo esclarecê-las.
Por exemplo:
Qual é forma correcta desta frase?
Podem-me dizer…
ou
Podem dizer-me…
2Podem dizer-me”. É sempre o segundo verbo que fica na forma reflexiva.
Mas a falar desrespeita-se muito essa regra, daí a confusão. Não é assim, João?
Acho que a troca reflexiva é tão comum a falar como a escrever, Teresa. O que é inexplicável, pois até no Brasil há rigor: colocam o reflexo antes do verbo, mas no verbo certo.
Também agradeço o esclarecimento. Já corrigi o meu erro “irreflexivo”.
Obrigada, Teresa. Obrigada mesmo.
Era uma daquelas dúvidas que duram há já algum tempo. Nem sabia onde esclarecê-la e, como diz, vê-se muito escrita na outra forma, até por jornalistas e pessoas supostamente “bem formadas”, o que me deixava na dúvida. Mas, afinal, eu estava certa. E agora que me lembro, tenho a certeza que já vi escrito por aqui, no DO, el algum lado o “podem-me” :)))
Pode-se esclarecer no DO, Teresinha… Perdão… Pode esclarecer-se no DO.
Bolas, João. Não me confunda. Please!
Olhe ali para cima, para o comentário da Amêijoa fresca, que diz assim: “Pode-se ficar siderado”.
Deve dizer-se “Pode-se ficar…” ou deve dizer-se “Pode ficar-se…” ?
Pode ficar-se.
:o)
Teresinha, posso sugerir-lhe (e não “posso-lhe sugerir”) um bom sítio para esclarecer dúvidas de português corrente: http://www.ciberduvidas.com – Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Esclarece mesmo, e tem a vantagem de apresentar várias opiniões de estudiosos da língua, nos casos não consensuais.
Uma receita tão simples e tão difícil de alcançar.
Bolas!! Hoje, ganhei o dia (ups, a noite).
Pelos esclarecimentos, pela disponibilidade e janela aberta para mais dúvidas, pelo sítio onde ir beber, etc. Obrigada a todos. Um bom Domingo. Viva a Liberdade (e, já agora, viva a net).
E viva quem quer saber mais. Ou seja: um viva para todos nós.
Trata de te escrever em cada parágrafo.
A perseguir.
O que eu tenho andado a perder… 🙂
Aprenda, J.M. Coutinho, que o Pedro Correia não dura sempre. Eh!Eh!
Lá escreveu o nosso Zé, José Cardoso Pires, de boa memória e tão esquecido; que para escrever bem, primeiro é necessário aprender bem a gramática e depois esquecê-la.
O outro Zé, o Eça, tinha uma certa irritação com a bela frase tonta e pedante.