
Albert Camus escreveu um dos mais fabulosos textos que conheço para uma alocução proferida em Novembro de 1948, num encontro internacional de escritores. Este texto, intitulado “O Testemunho da Liberdade”, tem uma espantosa actualidade. É uma reflexão que devia constituir uma espécie de código de conduta para todos os intelectuais contemporâneos.
Passo a transcrever alguns trechos*:
“Os verdadeiros artistas não dão bons vencedores políticos, pois são incapazes de aceitar levianamente, ah, isso sei eu bem, a morte do adversário! Estão do lado da vida, não da morte. São os testemunhos da carne, não da lei. (…) No mundo da condenação à morte, que é o nosso, os artistas testemunham o que no homem é recusa de morrer. Inimigos de ninguém, a não ser dos carrascos! (…) Um dia virá em que todos o hão-de reconhecer e, respeitadores das nossas diferenças, os mais válidos de nós deixarão então de se dilacerar, como hoje o fazem. Hão-de reconhecer que a sua profunda vocação é a de defender até ao fim o direito dos seus adversários a não terem a mesma opinião que eles. Hão-de proclamar, consoante o seu estado, que mais vale uma pessoa enganar-se, sem assassinar ninguém e permitindo que os outros falem, do que ter razão no meio do silêncio e pilhas de cadáveres.”
Hoje, mais que nunca, estas palavras devem merecer-nos profunda meditação.
* Tradução (excelente) de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes para a editora Contexto (2001)

Virá esse dia mesmo? Em que “os mais válidos” entendam que não havendo diferença, há estagnação? Aqui mesmo pela blogosfera se vêm tantos ataques nascidos de um “delito de opinião”. E se vêm pessoas inteligentes a rebaixarem-se na senda de ter razão a todo o custo. Quantos de nós em discussões e argumentações nos apegamos de tal forma à nossa tese que nos recusamos a ver o contraditório? Isso, por acaso, faz-me lembrar alguma coisa de Camus…cá está:
“L’intelligence dans les chaînes perd en lucidité ce qu’elle gagne en fureur.”
Deturpei o contexto original mas assenta aqui que nem uma luva. É um exercício de crescimento pessoal, esse de entender que a nossa “vocação é a de defender até ao fim o direito dos [nossos] adversários a não terem a mesma opinião que [nós].”
De qualquer modo, muito interessante a reflexão proposta. Obrigado.
Também lhe agradeço a oportuna reflexão que aqui nos traz, Hugo. Que, como bem acentua, se aplica igualmente à blogosfera dos nossos dias.
Gostei muito de ler. Uma reflexão que procura aquilo que em muitos de nós está adormecido (na melhor das hipóteses…): a honestidade intelectual para connosco e para com os outros e a admiração e respeito pelos demais que se nos “opõem”, num exercício de mútuo engrandecimento.
Camus é um dos meus autores de eleição. Um dos raros que nunca me desiludiram em texto algum.
Camus deve ser um autor de eleição comum a todos e de todos os tempos.
Nem mais, compadre.
Como peixe na água (eu). Discurso pujante e inimitável (o de Camus). Podia ter sido dito ontem, realmente podia, e amanhã continuaria na ordem do dia.
De raros outros pensadores daquela época se pode dizer o mesmo.
Este texto é tão verdadeiro, tão límpido, tão sincero, que se torna brutal, demolidor. Esmaga-nos.
É isso, Luís. E se pensarmos que estas palavras foram proferidas pouco depois da II Guerra Mundial, em plena guerra fria, em plena idade atómica, ainda mais nos tocam.
Grande texto, Pedro, de um homem raro, cuja obra deveria ser recomendada em todas as escolas do planeta (embora, pelo contrário, hoje muito poucos o lembrem e ainda menos o conheçam verdadeiramente). Uma das minhas luzes também. A imagem da cruz para ilustrar um texto de um ateu convicto é que… [mas acima de tudo: obrigado pela evocação]
A cruz, neste caso, como símbolo da morte, Rui. De resto, o ateu Camus sempre travou um diálogo estimulante com os crentes seus contemporâneos.
É uma guerra de egos, Pedro, e não vejo forma de deixar de haver nela vítimas e algozes. Infelizmente, estas palavras sábias de Camus estão condenadas a ser uma utopia. Enfim, talvez um dia a humanidade mude por dentro, quem sabe…
Há boas e más utopias, Ana. Esta palavras de Camus, ainda que utópicas, têm o condão de nos iluminar. Ao contrário de outras, que só nos obscurecem.
Não era uma crítica às utopias. Pelo contrário… o que seria de nós sem elas?
É verdade.