Passo, no Cais de Gaia, por uma mulher segurando um telemóvel no ar, a câmara apontada à outra margem (não, não iria obter uma foto igual à que ilustra este texto, tirada às oito e tal de uma manhã de Outubro em que a cidade parecia não querer acordar). Algo não corre bem e ela começa a bater repetidamente no ecrã com a ponta do indicador direito. Suspira. Lamenta-se: «No me entiendo.» Afasto-me a pensar que é suposto o espanhol comum ter um amor-próprio tão grande quanto o do José Mourinho em dia de especial auto-satisfação e que, todavia, em situação idêntica qualquer português diria «Não entendo», acrescentando depois «esta»… hmmm, digamos «treta», que afinal isto nasce de uma cena ocorrida no Porto, onde toda a gente tem extremo cuidado em evitar o uso de terminologia que possa ferir susceptibilidades alheias. «Não entendo» admite tanto a falha própria (o telefone até é fácil de operar mas eu não o entendo) como a falha do equipamento (ou esta… hmmm, treta se passou ou então é absurdamente confusa). E todos sabemos em que versão pensa mais depressa um português (ainda que seja portuense). Mas «no me entiendo» centra a falha na pessoa. É a mim próprio que eu não entendo. É como dizer: hombre (ou, neste caso, mujer), qé isto diebe ser muy fácil (el materiale tiene siempre razón) e io é que soy tapadito (ou, neste caso, tapadita). O que nos obriga a considerar uma hipótese chocante: a de os espanhóis estarem tão à vontade para se questionarem por falhas que muitas vezes, analisada bem a questão, nem lhes podem ser imputadas que até integraram essa possibilidade na sintaxe das suas frases. No fundo, talvez este seja o melhor tipo de amor-próprio: ter segurança suficiente para considerar primeiro, sem dramatismos, a hipótese de falha própria. Mas, caramba, se isto não condiz connosco, que ou fugimos às responsabilidades ou, caso tal não seja possível, nos mortificamos como filipino em Sexta-Feira Santa, também não condiz com os espanhóis, pois não? Decididamente, no me entiendo.
Adenda: não me venham com… hmmm, tretas acerca do meu castelhano, que ele é perfeito.


“No fundo, talvez este seja o melhor tipo de amor-próprio: ter segurança suficiente para considerar primeiro, sem dramatismos, a hipótese de falha própria.”
É isto sem tirar nem pôr.
Um inglês chega a uma festa calçando chinelos. Repara que todos estão de fato escuro e pensa: “enganei-me na roupa”. Um português entra de chanatos numa festa onde todos estão de fato escuro. Faz um juízo de valor: “Olha estes gajos com a fatiota errada armados em bons.”
lol. É a mesma história da contamão na auto-estrada, não é? Todos os outros é que estão errados… E obrigado.
“contramão”. Mas por que raios não uso o botãozinho de verificar ortografia?
(Se calhar, deep down temo que já esteja em “acordês”…)
Perfeita é a tua arte fotográfica! Mais uma imagem fantástica do Porto.
(sim, nós somo óptimos a assumir culpas, até as que não temos… mas com muito dramatismo.)
Obrigado, Ana.
(Certo. Mas verdadeiro dramatismo – mamma mia! – é com os italianos.)
E vero. Não há como um zorba para um bom drama!
Por Dios jaa yo te entiendo muy bien! Por supuesto la mujercita era una española que se había perdido por Portugal y hubiera quedado como nosotros…
Err, claro, pois com certeza, deve ser exactamente como dizes…
“io é que soy tapadito”, é muito bom:)
Depois de ler textos destes, resumo-me à minha insignificância, há muito assumida (por isso é que visito diariamente o blogue, para ver se aprendo umas coisas) para aprender coisas e para aprender a escrever, triste criatura, é o que é (a criatura sou eu:)
Maria, muito obrigado pelos elogios. O resto espero que seja ironia… Ou não leu a parte sobre a autoconfiança?
P.S.: mas espero bem que só o resto seja ironia, não os elogios…
Hombre, su texto es delicioso…