Escrevo da minha varanda. O sol incide no lado oposto da casa e isso deixa-me à sombra, a observar o verde vergado ao calor carrasco. As cigarras e os cucos gritam à desgarrada num babélico diálogo. A aragem vai e vem. Os choupos do vizinho no lado nascente aproveitam todos os sopros desta para se espreguiçar.
Há quem escreva por necessidade. Não é o meu caso. Escrevo apenas para desafiar o esquecimento que um dia nos irá vencer. A todos. As verdades universais nunca deixarão de o ser, mas as pequenas verdades, as nossas, essas têm os dias contados. Todas. Quantas já desapareceram e, por não terem sido escritas, é como se nunca tivessem existido?
Por já sabermos qual será o desfecho, desafiar o esquecimento será sempre uma batalha desigual, mas que ainda assim tem de ser travada, olhos nos olhos, sem ter para onde retirar nem nunca aceitar a rendição. Talvez viver seja apenas isso, combater o inevitável. Ou pelo menos combater o inevitável seja uma parte do que é viver.
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«Desafiar o esquecimento será sempre uma batalha desigual, mas que ainda assim tem de ser travada.»
Excelente reflexão, Paulo. Penso nisto todos os dias, quando faço o levantamento da nossa rubrica “DELITO há dez anos”.
Tanto se esvai, muito mais depressa do que supomos. Lutar contra a desmemória é um imperativo vital.
Sim Pedro,
A ausência de registo equivale ao esquecimento garantido.
O registo escrito, fotográfico, a escultura, a pintura e por aí a fora são vãs tentativas de negar essa desmemória.
pois, “sao vas tentativas”. Ou seja, ninguem nos garante que no futuro a memoria que construimos agora nao va ser adulterada, apresentada com outra explicaçao. No fundo e se olharmos para seculos de historia, estamos so a construir castelos na areia.
entao, mas se tanto se esvai, significa que mais e mais se vai, tipo barragem a transbordar, e assim lutar contra a desmemoria, nao será infantil ?
atençao, sou do tempo do antigamente, agarrado á memoria. Mas, coletivamente, e face ao inevitavel , parece ate desgastante, e inutil a prazo.
Neste momento estamos a atravessar um período tão negativo em termos sociais que em vez de desafiar o esquecimento temos é de acalmar as lembranças.
Período negativo?
Com certeza que não vive no mesmo país que o Dr António Costa.
Se o problema fosse só o Dr António Costa estávamos nós bem.
Por nos afastar mornamente da solução, ele é a face do problema.
Pois, mas o problema não tem só a face, tem o corpo inteiro.
Por já sabermos qual será o desfecho
A avaliar pela fotografia, o desfecho será um incêndio.
As resinosas é que ardem.
Incêndios de oliveiras e choupos? Só se for no Farmville.
Os incêndios em geral não são de árvores; são do mato que por baixo delas cresce. Aa árvores raramente ardem; morrem (ou não) devido ao efeito do calor do incêndio, não por arderem.
Se houver muito mato, arde, independentemente das árvores que haja ou deixe de haver.
Nos eucaliptais não há mato. Segundo foi dito por um entendido, isso será uma consequência da acidez das respectivas folhas. E mesmo sem mato, os eucaplitos ardem. E muito.
sim, talvez a vida seja combater o inevitável. Talvez por isso com o avançar da idade, as forças fraquejem, a doença domine, e já só se viva. Simplesmente.
Mas, estará garantido que ao menos sobrevirao as verdades universais ?! Se calhar estas ora verdades universais, serao substituidas por …nada.