“No deseo más tiempo”


Pedro Correia,

 

Miguel Delibes, um dos melhores escritores espanhóis de todos os tempos, morreu agora, aos 89 anos. É um autor que permanece praticamente ignorado dos leitores portugueses por decisão dos editores, que preferem dar à estampa qualquer texto de um ficcionista americano de terceira ou quarta categoria do que as melhores obras do autor de Las Ratas e Cinco Horas con Mario, que permanecem inéditas no nosso país enquanto as editoras se acotovelam para lançar um qualquer título de uma figura televisiva, mesmo que não saiba escrever três parágrafos seguidos.

“No deseo más tiempo; doy mí vida por vivida.” Palavras de Miguel Delibes, um castelhano dos quatro costados, católico, caçador, conservador, castiço, cultor de um dos mais antigos idiomas europeus, que procurava aperfeiçoar até à exaustão. Estava doente há já algum tempo, desde que enviuvara. Percebia que lhe restava pouco tempo de vida. Conformou-se com o seu destino, proferindo aquelas palavras sábias. Gostava um dia que estas palavras me servissem de epitáfio. Como uma caminhada que chega naturalmente ao fim. “No deseo más tiempo.” Ponto final.

6 comentários em ““No deseo más tiempo””

    1. Também acho. Admiro esta lucidez, esta sabedoria, este desprendimento, esta forma natural de alguém se despedir da vida. Delibes foi grande na morte como foi na obra.

    1. “Descobri” Miguel Delibes,quando há mais de quinze anos o meu Pai me ofereceu o “mi vida al aire libre”. E confesso que passei a “desear todo él tiempo…”. Em idas a Espanha fui comprando os seus livros,já que por cá é realmente quase um desconhecido(traduzidos,só él herege e los santos inocentes, creio eu).Assim acho que tenho todos os seus livros,em castelhano,o que me proporcionou extraordinários momentos de leitura e emoção,um rigor e clareza na descrição que reflectem cristalinamente a sua matriz de castelhano. Não consigo referir apenas um dos seus livros,distinguir simplesmente esta ou aquela obra. Gonzalo Torrente Ballester afirmou ser Delibes um dos maiores de sempre na literatura espanhola contemporânea.Francisco Umbral elogiou-o repetidamente e “Paco” Umbral não era de elogios fáceis !!

      Delibes foi por cá ignorado,como Álvaro Cunqueiro ou Josep Pla.(também estão na minha biblioteca,ah pois estão).O azar é nosso. Recordo-me das suas perdizes e trutas em Sedano,de Daniel el mochuelo ou Germán el tiñoso. Do bedel Lorenzo.

      E Miguel Delibes está,de novo, junto à “señora de rojo” da sua vida.

      he dicho

      1. Mea culpa, mea ignorância… para mim, Delibes era o compositor (do Lakmé, sobretudo, de que gosto muito).

        Mas, caro señor Antolin, usted me deja con agua en la boca. Hay que buscar los libros, antes que no tenga mas tiempo!

  1. Além do que já foi aqui dito, sublinho que várias obras de Delibes deram origem a excelentes filmes espanhóis, como ‘Los Santos Inocentes’ e ‘Cinco Días con Mario’.

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