Nível das águas


Adolfo Mesquita Nunes,

No ido ano de 2002, António Guterres sentiu as pantanosas águas subir-lhe pelos pés. A tempo de evitar que as águas lhe chegassem ao joelho e fossem vistas a qualquer olho nu, decidiu-se pela fuga e pela tentativa de salvar a pele. E apesar de tudo, conseguiu salvá-la de tal forma que ainda na legislatura anterior conseguimos ver os jornalistas comprar a ideia de que os dois anos e meio de governo PSD e CDS eram responsáveis por todos os males da nação apesar dos anteriores seis anos de guterrismo.

Mais distraído, ou talvez mais confiante nas suas capacidades, José Sócrates deixou que as pantanosas águas subissem muito acima do joelho, sendo agora evidentes para qualquer um, nomeadamente para as instituições internacionais e para o mercado. A saída que conhece, e que aprendeu com Guterres, é a mesma: a fuga. E se não houver eleições autárquicas para justificar o golpe, outra coisa qualquer se arranja com facilidade, num país com poucos Mários Crespos e muitos Emídios Rangeis.  

No entanto, ao contrário do que aconteceu com Guterres, cujo superior estatuto se mede, pelo menos, pela atenção ao nível das águas pantanosas, Sócrates não vai salvar a pele. Com uma maioria absoluta de quatro anos e o primeiro Orçamento de Estado minoritário aprovado em conformidade, ninguém vai acreditar que José Sócrates, cúmplice dos seis anos de guterrismo, nada tem que ver com o nível de crise da economia que vivemos e vamos viver. E os tempos não estarão fáceis, não senhor. Para quem fica.   

10 comentários em “Nível das águas”

  1. Adaptação de: Pão, pão, queijo, queijo…

    Números impressionantes
    do descalabro orçamental
    são, sem dúvida, fulminantes
    para quem está no pedestal.

    Da normal anormalidade
    para ficar surpreendido
    emerge a fatalidade
    do nosso regime perdido…

    Epílogo (repetição)

    Negando a realidade
    numa visão arrebatada
    brota a imbecilidade
    devidamente atestada.

  2. Dá-me ideia que com este PM, nem quando a água estiver já a dar-lhe pelo pescoço e muitos de nós estivermos já mais do que afogados, ele parará um instante para pensar que não foi, na verdade, o salvador da pátria, apesar das condições excepcionais de que usufruiu para tal. Continuará, como sempre, a olhar só para o seu umbigo e a dizer que tudo não passa das habituais ‘calhandrices’ para o apear do poder.

    1. Por acaso acho que Guterres tomou uma atitude digana, e, coisa rara, não inventou desculpas para a sua saída. não conseguia governar, logo não se eternizou no poder.
      Já agora foram seis anos de guterrismo, não oito.

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