Ninguém pára para pensar


Pedro Correia,

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Este ano comemora-se, pela primeira vez, o 5 de Maio como Dia Internacional da Língua Portuguesa. Associando-se às comemorações com o proselitismo acordístico que há muito o caracteriza, o Jornal de Notícias imprimiu hoje, com grande destaque na primeira página, aquele que se candidata ao título mais absurdo do ano na imprensa cá do rectângulo: “Fisco para venda automática de casas penhoradas”.

É daqueles títulos que qualquer indivíduo se sente incapaz de entender à primeira. Ou à segunda. Ou até à terceira leitura. Contrariando assim as mais elementares regras jornalísticas, que recomendam um português correcto, claro, compreensível. Tudo quanto não existe nesta frase indecifrável.

E afinal nem era preciso inventar nada. Bastava repetir o título da notícia da página 12 para a qual remete o da capa: “Fisco trava venda de casas penhoradas”. Este sim, é claro e compreensível. E não induz o leitor em erro. Nem trata a língua portuguesa a pontapé.

Mais fácil ainda: bastaria um simples sinal gráfico para desfazer qualquer dúvida. O acento agudo na palavra pára. Que – tal como sucede com o acento circunflexo que distingue o verbo pôr da preposição por – se destina precisamente a desfazer as incertezas da homografia, que contaminam a mensagem jornalística. Como qualquer aprendiz do ofício tem obrigação de saber no momento em que redige um artigo e sobretudo ao elaborar um título.

Eis uma forma original de comemorar o novo Dia Internacional da Língua Portuguesa: dando destaque àquela que é, de todas, talvez a mais estúpida regra contida no chamado “acordo ortográfico”. E logo na primeira página – aquela que mais chama a atenção. Às vezes até parece que ninguém pára para pensar.

0 comentários em “Ninguém pára para pensar”

  1. No passado domingo vinha eu na A1 a caminho de Lisboa e a certa altura mudei para a Antena 2, onde estava a ser entrevistado um senhor que tinha algo a ver com isto do AO.

    Não sei quem era porque não ouvi o princípio e, como tenha mais coisas com que me chatear e me tinha esquecido que era dia de provável muito trânsito (que foi), resolvi não ouvir o fim que a paciência me fazia falta para a condução…

    Pois a certa altura o senhor deu como exemplo de como as discussões actuais sobre o tema serem despropositadas, na opinião dele, o facto de nada disto se ter verificado quando se acabou com o “ph”, por exemplo.

    De facto eu não estava cá na altura, estariam os meus avós com menos 20 anos do que eu tenho hoje, portanto não sei que discussões houve ou deixou de haver, talvez uma pesquisa no Google me ajude.

    Mas comparar um país onde o analfabetismo real ultrapassava os 75% – com alguns poucos jornais que chegavam 15 dias depois à “província” e eram lidos “em grupo” – com o mundo de hoje explica muita coisa sobre a argumentação do dito.

    Foi aí que pus outro CD.

  2. E o que dizer de um artigo do DN, na passada, semana em que se afirmava que os deputados municipais saltaram dos seus acentos (sic)?

  3. Que travão para a confusão?
    Que travão pára a confusão?

    Com fusão já a via, e sempre, ouve:

    Parada pela confusão. (ela parada)
    Parada pela confusão. (parada – formatura)

    Nu em tanto, pio orou muito, e somos a penas, espetadores dos fatos.

      1. Penso o que não diria deste dislate o grande Manuel António Pina, firme opositor do acordês e que durante vários anos ocupou (e muito bem) a coluna da última página do JN…

  4. O último linque do post contem referências a múltiplos outros casos semelhantes, que nada têm a ver com o Acordo Ortográfico:

    acerto (ê), substantivo, e acerto (é), flexão de acertar; acordo (ô), substantivo, e acordo (ó), flexão de acordar; cor (ô), substantivo, e cor (ó), elemento da locução de cor; sede (ê) e sede (é), ambos substantivos; etc.;

    1. Sim, mas o caso que me interessa é este da primeira página do jornal. Aliás o próprio acordo mantém a distinção entre ‘por’ e ‘pôr’: pelo mesmíssimo motivo devia manter a distinção entre ‘para’ e ‘pára’.
      Enfim, incongruências para as quais centenas de pessoas conhecedoras da matéria alertaram em devido tempo na comunidade científica portuguesa. Incongruências que devem ser tomadas em consideração pelos decisores políticos numa futura revisão do AO, que já peca por tardia. Aliás esta matéria devia competir em exclusivo à comunidade científica e não aos políticos.

      Outra incongruência – aliás anotada com espanto por Helena Figueira, nesse mesmo texto a que faço ligação – surge na Base IX do AO, que readmite a grafia ‘fôrma’ para desfazer homografia com ‘forma’. Algo que já tinha sido abolido tanto na ortografia portuguesa como brasileira.
      Enfim, provas cada vez mais consistentes de que o chamado “acordo ortográfico” deve ser revisto de alto a baixo.

      1. o caso que me interessa é este da primeira página do jornal

        Só se interessa por estas coisas quando elas aparecem em jornais? Que estranho.

        o acordo mantém a distinção entre ‘por’ e ‘pôr’: pelo mesmíssimo motivo devia manter a distinção entre ‘para’ e ‘pára’

        Não. “Para” é uma palavra grave, portanto não necessita nunca de acento – já se sabe que a antepenúltima sílaba é acentuada, quer seja aberta quer fechada. “Por” é uma palavra aguda, logo precisa de acento se a sílaba fôr aberta.

        Pela mesma razão, “herói” tem acento mas “heroico” não tem, “só” tem acento mas “somente” não tem (foi eliminado em 1973, antes tinha um acento grave).

        esta matéria devia competir em exclusivo à comunidade científica e não aos políticos

        Se assim fosse, então nem você nem eu, que não somos cientistas desta matéria, deveríamos estar aqui a mandar bitaites.

        Mas não é assim. Trata-se de uma matéria também política, que interessa à polis – a todos os cidadãos.

        Outra incongruência surge na Base IX do AO, que readmite a grafia ‘fôrma’ para desfazer homografia com ‘forma’. Algo que já tinha sido abolido tanto na ortografia portuguesa como brasileira.

        Também fico espantado com essa incongruência.

        Mas igualmente me espanta que você considere que a palavra “forma” (tal como as palavras “acordo”, “cor”, “sede”, etc) se deva escrever sempre da mesma forma, independentemente da acentuação, mas que a palavra “para” se deva escrever de duas formas diferentes.

        Em minha opinião, todas essas palavras, que são graves, jamais devem levar acento.

        1. “Se assim fosse, então nem você nem eu, que não somos cientistas desta matéria, deveríamos estar aqui a mandar bitaites.

          Mas não é assim. Trata-se de uma matéria também política, que interessa à polis – a todos os cidadãos.”

          O facto de não ser cinéfilo não me impede de fundamentadamente apontar defeitos ou virtudes a um filme. O facto de não ser crítico literário não me inibe de o fazer quanto a um romance. O facto de não ser melómano, idem, quanto à música. Passaria demasiado tempo a elencar exemplos invalidando o que você acima escreve.

          O facto de nada saber de medicina não me impede de constatar quando me sinto mal e, dentro de limites de prudência e bom senso, procurar identificar porquê. O facto de não ser mecânico não me impede de perceber quando algo está mal com o meu carro e, dentro de limites de prudência e bom senso, procurar identificar o que seja e porque terá falhado.

          Como em tanta coisa na vida, o facto de não ser especialista não impede, dentro de limites de prudência e bom senso. E que, perante essa contingência, apelemos de facto à indispensável acção de especialistas.

          Mais ainda, talvez, aqui. Aqui em que como você escreve a matéria interessa à polis. Mais não seja para – apelando à prudência e ao bom senso – manter a política (a politiquice, no caso) fora do que não é seu domínio.

          Imprudência e falta de bom senso é do que mais abunda, em defesa desta indefensável mistela chamada AO90 . Isso, arrogância e pura e simples ilegalidade. Nada para si, bem sei, que minimamente releve. Prudência e bom senso não serão, manifestamente, coisas a que o Luís Lavoura devote algum do seu, sem dúvida preclaro e salvífico, tempo.

          Questões menores de que se não ocupa o pretor, bem se sabe.

          Costa

      2. Ou ainda, revisto de alto: Abaixo!

        Que há ambiguidades, todos sabemos.
        Existem mesmo na expressão oral… e são deliciosas.

        Por exemplo, no verbo haver:

        a ver = haver
        a verei = haverei
        a veria = haveria
        a verão = haverão ~ a ver hão
        a via = a Via = avia = havia
        a vemos = havemos
        a vias = avias = havias
        a viam = aviam = haviam
        ouve = houve
        aja = haja
        ajas = hajas
        ajam = hajam

        Isto só num verbo, que “acidentalmente” se liga foneticamente em conjugações de outros verbos bem distintos, como :
        – ver, agir, aviar, ouvir.

        Resumindo, sobre a língua portuguesa:
        – Havia quem a via.
        – Havia a Via, havia.
        – Ouve o que houve!
        – Haviam os que aviam e não a viam.
        – Haja quem aja.
        – Haverão os que a verão, porque a ver hão.

        Quanto aos exemplos do Luís…
        Acorda! A corda do acordo é retórica de cor, sem côr, acerto sem acertar, por sêde de uma sede que não cede.

  5. Acento num assento para por por escritos fatos feitos regras . Sou dos que não para para pensar se tem lógica ou correção, apenas vale o menor esforço de escrever mais e mais carateres . É o mercantilismo da palavra lusa, meus senhores.

  6. Caru Luiz Lavora
    Verifico que ficaste obstúpido com o teu fraco discernimento qüando outros chegàram à comclusão que demasiadas letras tornam a apprendizagem da escripta difícil. Apprendeste a escrever «óptimo», escreveste «óptimo» de 1991 até 2009, mas só depois de um babaca qüalquer affirmar que é difficil escrever dessa maneira é que verificaste que o é e agora, qüal psitacídio, repetes o que ouviste. À sempre pessoas prontas a h-xarem-se… A mim preocupa-me que um qüalquer babaca martelleiro imponha a sua ditadura hortographica com o argumento de que os meus netos são tão estúpidos que são incapazes de escrever «impacção», «hemoftalmia», «occídio», «opugnar» ou «talictro». Ou mesmo «phosphoro», «architecto», «escriptura», «accommetter», «ethnographico». É mesmo difícil, só ao alcance de génios, impossível de alcançar pára um tipo que tenha obtido um canudo «Novas Hoportunidades». Um babaca que quer obrigar os outros a escreverem «e-gi-to» só porque ele tem um qüalquer problema mental e é incapaz de dizer «e-gip-to». E o exemplo péga: já há jornalistas a escrever «eucalito». Não falta müito para escreverem «ócalito».
    Já agora, ó Luiz, podias explicar porque razão o babaca utiliza o argumento da hetymologia para manter o «h» em palavras parvas como «helefante» e «hipopótamo» e bu rifa-se para a hetymologia em palavras como «optógrafo» e «occipital».
    Boas pedaladas.

  7. Eis o único momento em que o acordo ortográfico, de facto, me incomoda – e muito!
    O resto, tem justificação (como o caso de as consoantes mudas deixarem de se escrever – não se lê, não se escreve – No caso da palavra “facto”, como o “c”, em Portugal, se lê, continuará a escrever-se. – Perfeitamente compreensível.), mas isto é uma abominação, que duvido que alguém consiga justificar.
    Comer acentos?? Para quê? Não. Não faz sentido.

  8. Eu não escrevo segundo o novo AO, mas não há duvida de que o “novo significado” da palavra espetador.. me dá sempre vontade de rir!

    1. Mais irónico é ler aqueles órgãos de informação que mantêm a grafia espectador mas escrevem “espetáculo” – na maior das barafundas lexicais. Tal como escrevem característica e “caráter”, às vezes até no mesmo texto.
      Quem faz tábua rasa da etimologia, tratando-a assim a pontapé, está afinal a (de)formar uma geração de analfabetos funcionais, pessoas que perdem por completo a noção da origem das palavras.

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