Navigare necesse est (5)


Ana Vidal,

«À semelhança dos andamentos numa peça musical, a proposta de uma história encerra-se na sua epifania: tal como um quarteto de Haydn – moderado, lento, rápido, em fuga -, uma sinfonia de Brahms – alegro, mas não demasiado, lento, mas moderadamente, alegro e feliz, um pouco menos rápido, alegro energético e apaixonado, mais rápido -, ou uma peça de Dutilleux – encantatória, linear, obsessiva, trôpega e resplandecente.(…) Enunciar um acontecimento – uma viagem, mas não só – é classificá-lo e dispô-lo numa fórmula, recolher e conjurar a dispersão, matematizar o mundo e tornar a sua poetização possível. (…) Porque o poema do mundo convida a incessantes interpretações.»


 

 

 

Já deixou para trás a bela Capri? Bem, console-se com o pensamento de que, ao contrário do que dizia o Hervé Villard (que não percebia nada do assunto), “Capri, c’est jamais fini”. Mas há muito mais para ver nesta costa das delícias que foi declarada, por direito próprio, património da humanidade: com o omnipresente Vesúvio por cenário tem ainda Vico Equense, com o seu Antiquarium (arqueologia pré-romana) e uma das mais bonitas e coloridas cúpulas de majólica de toda a região: a de San Ciro e Giovanni. Ao dobrar a Punta della Campanella (assim chamada por ter existido ali um velho farol, onde uma campainha alertava para a aproximação de piratas) maravilhe-se com a vista dos dois golfos – o de Nápoles e o de Salerno – que só aí pode admirar em toda a sua extensão. Sant’Agata Sul Due Golfi é o nome da vilazinha situada quase no bico da península. Faça por passar por lá a horas de refeição e mergulhe num paraíso gastronómico que os gourmets de todo o mundo não dispensam: o restaurante Don Alfonso, uma lenda desde 1890. A partir daí, a falésia vai escarpando e subindo cada vez mais, no espectáculo imponente dos Monti Lattari. A estrada costeira obriga a voltas cada vez mais apertadas e estreitas, e terá de resistir à tentação de parar em todos os miradores para se embasbacar, a cada curva, com a paisagem. Mesmo assim, cada recanto possível da rocha a pique sobre o mar está salpicado de limoeiros e vinhas, parecendo impossível que alguém consiga plantar ali seja o que for. Não deixe de visitar Positano e Praiano, duas vilas cujas casas – pintadas em belíssimos tons pastel – parecem agarradas à rocha como lapas, “escorregando” até ao mar. Em Positano (onde Rudolf Nureyev, tal como outros nomes famosos, não resistiu a comprar uma casa típica) tome um café na terrazza do La Sirenuse. Diz a lenda que eram as rochas Li Galli, ali mesmo em baixo, o abrigo das sereias que com os seus cantos atraíam os marinheiros aos seus braços, depois de um mais que certo naufrágio.

 

 

Em Amalfi visite o Duomo, com a arcada imponente e o frontão de mosaicos de ouro que brilham ao sol, a Torre Sarracena do séc.XV (que agora  tem dentro um restaurante romântico) e os túneis que conduziam aos banhos árabes do séc. XII. Para se refrescar, tome no Gran Caffe Tea Room a milésima granita do dia, de limão ou de melão. Depois siga a lungomare (a estrada costeira) até Salerno, para um passeio no centro histórico medieval e uma rápida visita ao Museo Diocesano para ver, pelo menos, os sumptuosos painéis de marfim esculpidos. Do porto de Salerno rume a Paestum, quanto mais não seja para ver de perto três imponentes templos gregos, mais bem conservados do que a maioria dos que encontrará na própria Grécia. Pode também visitar uma das fábricas onde é produzido o famoso “oro bianco” da Campania: o queijo mozzarela de búfala com que se faz, por exemplo, a salada “caprese”, uma das minhas saladas preferidas.

 

 

Num dia em que se sinta com coragem para sair da costa e enfrentar a “Itália profunda”, proponho-lhe uma viagem até Pertosa, nos montes Alburni, para uma visita às majestosas Grotte dell’Angelo. O esforço compensa, acredite: terá uma hora e meia de puro encantamento (primeiro de barco, pelo rio negro que corre dentro das grutas, e depois a pé) numa visita guiada entre cascatas, estalactites e estalagmites que formam figuras ao sabor da sua imaginação (verdade seja dita, muito influenciada pela alegoria que o guia/barqueiro vai fazendo, ao longo do passeio, à Divina Comédia, de Dante). Há “salas” em que as cavernas chegam a ter 40 metros de altura, e estão iluminadas de forma sugestiva para maximizar o efeito de cada recanto. Leve sapatos confortáveis e um casaco quente: a temperatura lá dentro é bastante baixa, e o frio pode impedi-lo(a) de apreciar devidamente o espectáculo. As Grotte dell’Angelo foram descobertas, segundo consta (embora Plínio, o Velho, já se lhes tivesse referido muitos séculos antes), por um monge benedictino do séc. XVI, que se aventurou ao longo de 3.000 metros de escuridão e silêncio – só interrompido pelo som da água – munido apenas de uma tocha e de muito fervor religioso. Não admira que tenha tido revelações místicas naquele cenário, e por isso lhes chamou Grutas do Anjo.

 

 

De volta à luz e ao calor do sol, ofereça a si próprio(a) um presente de luxo, ao fim da tarde: Ravello. É uma verdadeira jóia esta cidadezinha de influência mourisca, empoleirada na ponta da falésia a 400 metros de altura sobre o mar. É também a capital cultural de toda a Campania, com um importante e muito prestigiado Festival de Artes que vai de Julho a Setembro. Há diariamente concertos, peças de teatro, dança, etc. Tudo isto se passa no auditório mais bonito que já vi, nos jardins da Villa Rufolo, suspenso sobre o mar por uma estrutura metálica. Todos os espectáculos são de eleição (espreite o programa deste ano, para confirmar o que digo). Se tiver sorte, como eu tive, estará reservada para si uma qualquer surpresa de despedida de Itália: no meu caso, um encontro inesperado e uma conversa descontraída com o grande Toquinho, que nessa noite apresentava ali, em primeiríssima mão, o seu mais recente disco (comemorativo dos 30 anos – já! – da morte do Poetinha Vinicius). Um fim de tarde de alma cheia, que não esquecerei. Antes de deixar Ravello, tome um copo na terrazza do histórico Rossellini – o restaurante mais “in” da cidade, e com razões de sobra para isso – ao som de Mozart e Verdi.

 

 

E antes de deixar Sorrento, já de malas feitas, jante uma última vez no Café Latino – um pátio luxuriante de limoeiros, oliveiras e plantas aromáticas, onde respirará pela última vez o aroma único que há-de bailar-lhe na memória por muito tempo. Pelo menos até sentir de novo uma vontade irresistível de voltar ao sul de Itália.

 

 

Ainda tive um último presente, na manhã da viagem: este magnífico arco-íris duplo, depois de uma memorável tempestade sobre a baía que iluminou a noite durante mais de uma hora.

18 comentários em “Navigare necesse est (5)”

  1. Uma lição de história, geografia e bom viver. Ainda bem que aproveitaste.
    Difícil é ler os textos depois de se chegar de férias sem se ter um calendário ao lado, para ver quando será possível comprar um bilhete de ida.

      1. e eu que trabalho a ver partir e chegar aviões e amanhã já estou de novo lá pelo aerotrolleys !! Devo rir ou chorar ?? oh que dor tão fininha…

  2. Também assisti uma vez a uma dessas tempestades mediterrânicas de pleno Verão, só que no Adriático. No dia seguinte um cedro estava rachado ao meio.

    Entretanto fui viajando contigo pelos mapas do Google. Bem sei, não é a mesma coisa.

    1. Já assisti a outras, Paulo, mas esta foi bíblica! De tal maneira que se viu tanto no Adriático como no Tirreno, imagina.
      Sabes que mais? Tamb+em me farto de viajar no Google Earth. É uma preciosa fonte de informações e dá-me um gozo enorme aquela ilusão de viagem, quando não posso fazê-las como e quando gostaria.

  3. A ler estes deliciosos relatos num micro ecrã de telemóvel e menos invejosa do que da última vez por estar na \’ilha\’ a passar uns também deliciosos dias. Beijos e saudades

  4. Excelente roteiro de férias, excelente roteiro de viagem. Melhor do que qualquer outro que tenho lido. Qualquer dia vamos dedicar-nos a este ramo de actividade, Ana. Achas bem?

    1. Por mim, acho óptimo… faria disso vida sem uma hesitação. Mas pelo menos podemos trazer para o DO uma rubrica permanente dedicada às viagens. Sem querer fazer concorrência ao nosso amigo “Viagens Lacoste”, claro.
      🙂

    1. Obrigada, Leonor. Itália é “o meu país”, como se deve notar pelo tom destes textos. E os Açores, e a Índia, e… o resto do mundo, afinal, embora tenha as minhas preferências. Cheguei há muito tempo à conclusão de que tenho alma de nómada.

  5. Um extraordinário programa, Ana. E pelo entusiasmo que se lê nas suas palavras, executado com os ingredientes certos. Até as minhas raízes bem presas à terra palpitaram com uns tremores «libertários». ;-D

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