«Nós próprios, eis a grande questão da viagem. Nós próprios e nada mais; Pretextos, ocasiões, múltiplas justificações, sem dúvida, mas de facto fazemo-nos à estrada movidos unicamente pelo desejo de nos reencontrarmos, ou mesmo de nos encontrarmos. A volta ao mundo nem sempre basta para atingir este frente a frente. Por vezes nem sequer a vida inteira. Quantos desvios, e quantos lugares, antes de saber que estamos em presença daquilo que levanta levemente o véu do ser? Os trajectos dos viajantes coincidem sempre, secretamente, com as procuras iniciáticas que colocam a identidade em jogo. (…) O que posso descobrir acerca de mim se mudar de lugar, de orientação e modificar as minhas referências? O que subsiste no meu ser quando elimino os apêndices gregários?»
Pronto, chega de ruínas e de dramas. O programa que hoje lhe proponho é alegre e vai compensá-lo(a) de tanto peso histórico. De Nápoles ou de Sorrento, tanto faz, meta-se num barco de manhã cedo e rume à mítica ilha de Capri. Há inúmeras carreiras regulares que pode utilizar, ou então alugue um barco pequeno (não é muito caro, sobretudo se conseguir juntar mais quatro ou cinco amigos) e faça-se ao mar por sua própria conta. Pode visitar também Ischia ou Prócida (as outras duas ilhas habitadas da Riviera napolitana, que não têm grande interesse) mas ai de si que troque a visita a Capri por alguma delas… sete anos de azar, garantidos por uma praga que eu própria lhe rogarei!
Como já percebeu, Capri é, para mim, um dos mais deliciosos locais do mundo. A ilha vê-se num instante mas apetece ficar lá para sempre, como fez o médico-escritor-humanista-arquitecto-filantropo Axel Munthe, um sueco irremediavelmente rendido à sua magia em meados do século passado. Foi ele, com o seu encantatório “Livro de San Michele” – que povoou de sonhos perfumados de limão uma boa parte da minha adolescência – o principal responsável por esta eterna romaria, que cumpro com gosto quase sempre que vou a Itália. A belíssima Villa San Michele, uma casa construída e recheada de obras de arte, ao longo dos anos, por este médico que trocou uma clientela de luxo (a família real do seu país) pelos habitantes pobres de Capri, é de visita obrigatória. Todo este valioso património pertence hoje ao povo de Capri e está aberto ao público durante todo o ano, sendo os extraordinários jardins e a terrazza-pérgola, com uma esfinge olhando o mar (a vista é de cortar a respiração, 330 metros a pique sobre o mar, quase no topo da mais alta falésia da ilha) um palco privilegiado para uma infinidade de eventos culturais.
Depois visite a pequena igreja, divirta-se a fazer compras nas ruas pedonais de Anacapri, cheias de gente de todo o mundo, arrepie-se na subida do funicular (em cadeiras individuais suspensas sobre o vazio) que o levará até ao ponto mais alto da ilha, e espreite o velho castelo. Enfim, passeie muito a pé, até porque não poderá fazê-lo de outra maneira nas zonas mais movimentadas. Aliás, só os veículos com matrícula de cada ilha podem circular lá durante a época turística. Beba, sobretudo, o ar de Capri. Mas pode juntar-lhe um limoncello bem fresquinho, que não se arrependerá. Quanto a mim, comprei um avental com a receita. Quero fazer, eu própria, o meu licor preferido.
Guardei para o fim o maior tesouro da ilha: a Grotta Azzurra, de visita igualmente imperdível. Mas atenção: já estive em Capri um bom par de vezes e só uma vez – uma única – consegui ir à gruta. A “porta” é muito pequena e só com condições meteorológicas muito especiais os barqueiros arriscam a entrada, nos seus pequenos barcos a remos. Se o mar não estiver plano e houver vento, nada feito. Acrescento uma outra condição sine qua non, esta da minha lavra: não vá lá se não estiver um dia de sol. Tal como digo a quem me quiser ouvir que nunca entre (pelo menos na primeira vez) na Catedral de S. Marcos de Veneza a não ser quando o sol estiver a pôr-se, incendiando ao limite o ouro dos mosaicos bizantinos, também lhe faço esta recomendação quanto à Gruta Azul: sem sol, o glorioso espectáculo de um mar azul-cobalto-elécrtico como você nunca viu, parecendo iluminado por baixo, não terá jamais o mesmo impacto. Por tudo isto, escolha criteriosamente o dia da sua primeira visita (um conselho: telefone antes de ir e pergunte se nesse dia está “mar de gruta azul”), se quiser fazer desse momento uma verdadeira experiência iniciática. Habitualmente os barcos ficam poucos minutos lá dentro, mas às vezes, quando não há muitos à espera cá fora, os barqueiros permitem que a epifania se prolongue. Eu tive sorte: o meu deixou-me até dar um mergulho naquela água mágica, e quando voltei ao mundo real fiquei espantada por não ter ficado azul para o resto da vida. E tive pena.
Pode dar a volta à ilha de barco e visitar também as grutas Verde e Branca, mas o sortilégio não se repetirá. Diga adeus a Capri e prometa – jure! – que voltará. De regresso a terra, ao fim da tarde, saboreie uma levíssima insalatina caprese no bar flutuante da marina de Castellamare, enquanto escolhe mentalmente (ainda embalado(a) pelos modelos de sonho que viu na Marina Grande, em Capri) o iate que comprará quando lhe sair o euromilhões.
(cont.)




Estás uma verdadeira escritora de viagens!!!
Adoro limoncello e águas azuis dão pano para muitas histórias… fiquei já aqui a magicar umas coisas e roída de inveja, claro!
Quem sabe numa próxima viagem…
bjs
Por mim, S., ficaria a escrever crónicas de viagem o resto da minha vida. Isso queria dizer que estaria sempre em viagem, o que não me importava nada!
Não resisti ao avental… e sei que tu também não lhe resistirias. Ofereço-te um copo, depois.
bjs
Ana, tenho-me abstido de fazer comentários a estes post, porque a inveja é uma erva daninha que nos transforma em seres mesquinhos, i know…
:)))
Ah, Ariel, ler sobre viagens é também viajar.
Mas páro já com as crónicas, se estiver a fazer mais mal do que bem aos leitores do DO…
🙂
Vou seguir a tua receita, incluindo o ‘limoncello’. Capri é uma ilha que chegou até a fascinar o rígido e impiedoso Lenine, que ali foi hóspede de Gorki. Outra das casas mais fascinantes da ilha é a de Malaparte, também no alto de uns penhascos: ali Godard filmou o seu fabuloso filme ‘O Desprezo’, com Brigitte Bardot e Fritz Lang. Quem viveu em Ischia, cerca de um ano, foi o Truman Capote: as crónicas que escreveu sobre a vida nessa ilha são excelentes.
É verdade, há mais algumas casas famosas na ilha. Uma delas é o refúgio de Alessandra Mussollini, filha do Duce. A de Axel Munthe merece uma visita especial, não só pela própria casa como pelo magnífico recheio (hoje em dia não seria possível a um particular reunir os tesouros arqueológicos que ele levou para lá, ainda bem que se transformou num museu). Mas obrigada pela tua preciosa achega.
Ischia é, hoje em dia, uma ilha de SPAs e praias famosas (se não as compararmos com as nossas, enfim…). Por isso digo que não tem grande interesse, no critério destes posts. Mas nunca li essas crónicas do Capote, que talvez lhe tenham descoberto encantos que eu não vi porque só estive de passagem.
Quando estiver pronto o meu limoncello, aviso-te.
🙂
Quando voltar a esses lados, para rever o mar de Sorrento, vou ter de levar estes apontamentos. É só novidades!
Troco pelos de Cabo-Verde, Sérgio. Esses é que são mesmo novidade para mim, que nunca lá fui…
Capri é um dos meus destinos. Belíssimos retratos, estes teus postais. Mas estou a ficar como a Ariel…
Não rezingues.
Lindo!
Capri? Lindo mesmo, Dylan.
Eu hei-de lá ir, Ana. Ai hei-de, hei-de. E com estes teus preciosos conselhos atrás.
Boa, Paulo. Tenho mais dicas na gaveta, passo-tas todas com muito gosto.
Também adoro Capri, Ana. E tive a sorte de ter entrado na gruta azul logo à primeira, embora toda achatada no fundo do barco. E embora não tenha tomado banho, também contava sair dela ao jeito de um «Na’vi» («Avatar»), o que, felizmente, não aconteceu. Muito gostaria de lá voltar, à ilha, para explorar alguns aspectos que aqui refere e que nunca explorei. 🙂
Teve sorte mesmo, Luísa. Já lá estive várias vezes sem conseguir ir à gruta, e esta foi mais uma delas. Mas vale sempre a pena Capri, não é? Esqueci-me de referir os linhos, fabulosos de qualidade e cores. Uma compra obrigatória, pelo menos uma camisa…
🙂