Naufragar é preciso?


fiodeprumo,

 

“Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?

Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?

A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extra-terrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.

Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta Folha, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil.

Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros.

Questão de educação.

Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: “Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia”.

A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.

A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.

Resultado: é o desacordo total com todo mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?

Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.

Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.

Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo” etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.

Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.

Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.

A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.

Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.

Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem “desconforto” por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.

Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.

De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?”

 

O texto que acabaram de ler em itálico é de autoria de João Pereira Coutinho, escritor português e foi publicado na última terça feira na Folha de S. Paulo. Permito-me reproduzi-lo porque ele é o retrato do que penso a este respeito!

 

54 comentários em “Naufragar é preciso?”

  1. Helena,

    apoio incondicionalmente este escritor.

    Curiosamente ainda hoje escrevi no meu blog (http :/ ladosab.blogs.sapo.pt /) sobre este tema, manifestando o meu total desacordo ao acordo ortográfico.

    É uma tristeza que nem a nossa língua nós saibamos preservar.

  2. Aplaudido de pé!
    Ainda no outro dia tive de explicar a um brasileiro que segundo o dito «acordo» em Portugal se passaria a escrever «receção». Não queria acreditar que fosse possível!

  3. P.S. Estão a acordar e penso que não é tarde, mas cabe perguntar por onde terão andado. De facto, parece que estiveram noutro país.
    O Manifesto pela Língua Portuguesa assinado pelo escol dos intelectuais portugueses é de 2008.
    O JPC não previa que fosse assim?
    Mas nada tinha de imprevisível.

    1. Caro vsc
      Engana-se. O JPC, o Graça Moura e tantos outros como eu já assinaram a petição contra este (Des)Acordo, há muito tempo. E também há muito tempo escrevemos contra ele.
      O importante agora é que JPC consiga fazê-lo agora, com desassombro, num jornal brasileiro.

      1. Sem dúvida, e este gostoso e cuidado artigo pode dar uma mãozinha. Pela minha parte resistirei, até poder, ao “Desacordo”.
        Gosto da escrita de JPC , revela preparação e clareza, lastimo que não surja mais vezes na TV, ofuscava com certeza uns coitados que por lá pululam e que contribuíram para eu dar “à sola” ( perdoe o popularucho da expressão).

      2. Também assinei, há dois anos – tal como mais de 120 000 portugueses.
        Não é no Brasil que o desassombro é preciso, mas aqui. Desde logo, para levantar o problema que subjaz ao do «acordo» e que é o da saúde do sistema representativo e do funcionamento da democracia.

          1. Mas acho muito louvável o artigo. Seja como for, o JPC está de parabéns. Que seja o 1º de muitos artigos, já que o assunto é grave.
            Não creio que o brasileiro comum esteja preocupado com o «acordo», que lá consiste em pequenas moficações.

  4. Pessoalmente, estou-me nas tintas para a ortografia brasileira, mesmo depois de já ter recebido uma notificação para alterar o corrector de texto, nesse sentido.
    … podem esperar sentados, ou deitados…
    Mas não isso que me traz macambúzio, ensimesmado, introspectivo, acabrunhado, não… aquilo que me traz pensativo, reflexivo, descolho… perdão; Desmoralizado. É a ameaça que representa, em termos linguísticos e ortográficos, o avanço da economia asiática. Temo que dentro de muito poucos anos, tenhamos de ser fluentes em mandarim e cantonês, tanto falado como escrito.
    一个非常快乐的一天的休息所有

  5. O que mais me encanita é essa classificação de “antiga ortografia”, como um selo que rotula de troglodita quem opta por não aderir à “nova ortografia”. De repente (não mais que de repente…) quem defende a integridade e a diversidade da sua língua é “antigo”? Não tenho paciência para este seguidismo acéfalo dos moderninhos de serviço. Ainda não perceberam, por exemplo, que para que os seus “ótimos” e “fatos” soem a qualquer coisa natural, lhes falta o samba, o calor e a havaiana no pé. A língua, como a comida, também precisa da temperatura certa para ser servida.

  6. É claro que a ortografia não é obrigada a seguir a fonética. No entanto, nunca se deve esquecer que FOI A REPÚBLICA PORTUGUESA que UNILATERALMENTE por meio de DECRETO em 1911 alterou a ortografia tradicional da língua, para retirar seus belos aspectos etimológicos e transformá-la em uma ortografia predominantemente fonética. Todos os pecadilhos posteriores emanam desse pecado original português que deveria, sim, ter sido conjuntamente debatido na época, em que a população do Brasil já era sensivelmente maior que a de Portugal e seu Ultramar. É absurda a quantidade de tinta (real ou virtual) gasta para defender a “honra” de uma ortografiazinha de cem anos. Mas, se sentem tanto prazer assim em defender uma pseudotradição, por favor façam-no alegremente. Vai fazer muita diferença! Talvez os tratados, leis e decretos desfaçam-se assim, magicamente, pela resistência passiva dos Gandhis da consoante muda…

      1. De forma alguma: a Base I do Acordo Ortográfico deixa claro que, a menos que exista uma forma vernácula antiga e correspondente, os nomes próprios devem ser grafados da forma usualmente empregada – tanto para topônimos quanto para antropônimos. O Acordo é realmente muito fácil de entender e aplicar, bastam boa vontade e leitura atenta de suas normas.

          1. Ou seja, não conhece, critica o que não conhece, recusa-se a conhecê-lo, e ainda usa de condescendência mesmo confessando a própria ignorância. Digamos que é todo um resumo do pior do que encontramos em Portugal. (O melhor de Portugal é muito bom, mas o pior é terrível, porque encontra-se em algumas de suas pessoas.)

  7. A ‘nova ortografia’ conduzirá fatalmente a uma nova fonética. Como acentua João Pereira Coutinho, as impropriamente chamadas consoantes mudas «transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem». A sua supressão conduzirá ao emudecimento progressivo das vogais, ampliando assim as diferenças fonéticas entre o português falado nos dois lados do Atlântico.
    Além disso, com o excesso de zelo típico dos cristãos-novos, aos caçadores de consoantes não basta liquidar as “mudas”: também as “sonoras” estão a ser alvo de violentos disparos. Tenho lido em despachos da agência Lusa, que foi tão lesta em alterar a ortografia, palavras como “fato” (em vez de facto) e “contato” (em vez de contacto), à revelia do estipulado no próprio “acordo ortográfico.

  8. Acho que a ortographia não deveria mudar. Huma coisa é o systema gráphico e outra coisa é o systema phonetico. Quando a Língoa Portugueza se separou do Gallego deveria ter fixado a sua norma graphica, diferenciando-a do accento da oralidade. Seriam dois systemas diferenciados. Ambos hombreariam a par, porêm fixando-se hum delles na memoria e outro nas columnas dos diccionarios e vocabularios. Seria muito mais facil fazer as reproduccões dos livros e d’ahi obrigaria todos os alumnos a comprehenderem que não são coisas oppostas, mas antes duas fórmas que na fala e na escripta representam o theatro da Lingoa.
    Aprender a escrever palavras que não se relacionariam directamente com aquillo que se ouve ajuda a desenvolver a memoria e a comprehensão.

    Por expressa vontade do auctor, êste textos esta escripto segundo a nórma antes da entrada em vigôr da reforma ortográphica de 1911, uma modernice…

    Sem críticas a nada nem a ninguém. É só para fazer pensar o que seria se os sistemas gráficos não fossem mudando com os tempos. Não defendo este acordo, mas defendo a mudança emergente. Alguns argumentos apresentados no texto de Pereira Coutinho sabem a requentado, principalmente o da abertura das vogais devido à consoante muda. (Cf actual, tactear, caracteres, reflicta (ha ii abertos?), e muitos outros. Em contrapartida temos muitas abertas que não precisam de indicador: padeiro, corar, pregar, etc e apronúncia não falha por isso. A aquisição oral precede a escrita e faz-se por modelos a imitar. Não entremos em pânico.

    Com todo o respeito.
    Outros serão mais justos, mas esse não.

    1. Caro A. Silva: a primeira metade do seu comentário é excelente, a segunda nem tanto. O argumento invocado para o acordo foi a unificação da ortografia. Sabemos hoje que isso não passou de falácia: não há unificação alguma. E é um facto que a supressão das chamadas consoantes mudas acentuam a lamentável tendência portuguesa (melhor dizendo: lisboeta) de fechar as vogais. Isto aprofundará as diferenças de pronúncia entre brasileiros e portugueses, sem vantagem para ninguém.

    2. Realmente a primeira parte prometia mais sciencia…
      «Padeiro», «corar» e «pregar» sofrem ainda hoje o efeito da crase das vogais depois da queda das consoantes intervocálicas. Para os que dizem que a língua muda, este fenómeno é um rico exemplo da velocidade a que isso se dá. As consoantes intervocalicas caíram nos séculos IX e X e Fernão Lopes ainda dobrava todas essas vogais no séc. XV. Se não sabe do que lhe estou falar é boa oportunidade, vá lê-lo. Em complemento deixo-lhe as Lições de de Philologia Portuguesa do dr. José Leite de Vasconcellos com a papinha da explicitação destes casos para se lhe não embrulhar muito a digestão.
      «Actual» e «tactear» só provam que o fenómeno de fechamento das vogais é tão real e intenso que se dá mesmo quando haja consoante etimológica para abrir o timbre da vogal anterior. Mas saiba que um mediano dicionário indicará a recta prosódia de «actual» e «actividade» (àt).
      O cê soa em «caracteres» (e provavelmente para si também em «caractere»). Aprenda a falar e deixe-se de piadas sobre is abertos; todos casos de consoante etimológica com valor nulo antecedida de i ou u foram furiosamente limados na reforma de 1911. Doutra forma teríamos «victima», «fructo», «producto» e (com licença) «delicto» (e não se perdia nada se tivéssemos). Mas aprenda o que é coerência gráfica em vocábulos da mesma família para perceber porque «tactear» deve grafar-se intacto e sem mutilação. Pense em «reflicto», pois! Reflicta nele e em egípcios que talvez ajude…

      1. Boa tarde. Bic Laranja.

        O comentário que me faz pode ser-lhe devolvido ponto por ponto. Não é uma questão de ‘sciencia’, é uma questão de racionalidade. Acho que fui claro quando afirmei que não defendo este acordo ortográfico, mas defendo a mudança. Os fenómenos fonéticos e de linguística histórica que me refere, nomeadamente a síncope do N e do L intervocálicos na região do Noroeste peninsular, está hoje provado que são anteriores ao século IX (basta ver as edições de textos latinos medievais do século VIII, onde não aparecem já grafadas tais consoantes em algumas – poucas- palavras). A queda do -D- (no caso de PRAEDICARE > pegar) intervocálico é ainda bem mais anterior que a referida mais acima.Também ser ler algumas teses mais atuais sobre o assunto, verá que as Lições de Filologia, pelo seu caráter enciclopédico, contêm imprecisões na datação dos fenómenos. Se atendermos à inércia caraterística do sistema gráfico, podemos adivinhar que na oralidade o fenómeno já teria decorrido com algumas décadas de precedência.
        Nem todas as aberturas de que me fala são crases, pois muitas delas são resoluções de hiatos de vogais distintas e que, evoluindo depois em ditongos, de acordo com a base poderiam resultar em vogais abertas ou fechadas.
        Se defende tanto a coerência gráfica dos vocábulos da mesma família, então defenderá ‘diccionário’ e ‘captivo’ e outras mais. Isso não é criticável, pois não se trata de criticar, mas antes assumir uma opinião. Não pretendo iniciar aqui uma discussão académica a defender uma dama que não é a minha; o que não gosto é que ponham em causa a dignidade de uma opinião. A minha área de trabalho e de investigação de toda uma vida é exatamente a linguística histórica. Por isso não preciso de aulas particulares.
        Já Rodrigo Sá Nogueira registava e defendia o verbo ‘reflectir’ sem o c na 1ª pessoa do presente do indicativo e em todo o presente do conjuntivo. De uma lado e do outro temos bons mestres e homens de douta ciência e não me atrevo a avaliar a sua por um breve comentário que coloca na blogosfera. As palavras ficam com quem as usa.
        Independentemente da vontade compreensível de não aceitarmos o acordo imposto, temos de nos consciencializar de que no termo da moratória ele terá de ser plenamente assumido e não duvide da estigmatização que começará a ocorrer, incluindo na obtenção de empregos e na vertente social da comunicação. Foi por isso que adotei para mim mesmo e ainda vou falhando e acertando, de modo a não ter problemas em 2015.
        Acho que cometi uma ousadia ao manifestar uma opinião desalinhada do blog, ou seja, corri o mesmo risco do João Pereira Coutinho ao publicar na Folha de S. Paulo.
        Enfim, tudo isto não são mais que opiniões.
        Com os meus respeitos e sem nehuma crítica.

        1. Sabe ler e teima em não saber escrever. Ou doutra maneira, é contra o «coiso» mas a redacção não no espelha.
          Não insisto que os três casos que usou são crases; vossemecê define crase pela opinião não pela semântica. Obrigado por me acertar a cronologia da queda dos eles e enes intervocálicos; e por recuar umas décadas o Fernão Lopes. Só estendeu o tempo longo da mudança da língua, não sei se se notou. Talvez, pelos galões que exibe…
          A sua opinião é ousada? Que note, não impressionou ninguém no blogo; fui só eu (que não pertenço cá) que ia a passar. Cheira-me antes que é faro, com a certeza que dá vossemecê de saber dos fados de 2015 em diante. Mas noto: se se decide já, tão asinha, por dama que não é sua e com tamanha «sciencia», louvo-lhe a razão, afinal. A mesma que vejo nas rolhas que se têm sempre à tona.
          Cumpts.

          1. Se alguém usou galões não fui eu, de certeza. Apenas contra-argumentei, nada mais. E ‘teimar em não saber escrever’ é apenas marca de uma grande parte dos portugueses e de toda a administração central que, desde 1 de janeiro de 2012, já redige segundo ‘o coiso’, como lhe chama. Não se afobe que a partir de mais uns anos seremos 100% a não saber escrever, como o foram os cidadãos da 2ª e 3ª década do século XX para Teixeira de Pascoaes: uns ‘antiphilosóphicos’, ‘contra producentes’, ‘selvagens’ e ‘ridículos’, porque aceitaram escrever segundo a reforma de 1911.
            Já se ouviram algumas vozes dizendo que não escreveriam nunca segundo o AO (uma bastante mediática afirmou que emigraria para o Brasil para não ter de o fazer (?)). Eu espero que não nos demitamos de sermos portugueses críticos, conscientes e interventivos, como o senhor/ a senhora o é e eu o sou.
            Cumprimentos agradecidos por nos pôr a pensar e a debater temas tão importantes como a nossa língua.
            A.S.

          2. A. Silva acha que a língua muda de 30 em 30 anos, mas que o Portugal de hoje continua igual ao de 1911. Isto é, com a maçonaria a dominar o estado e os portugueses a aceitarem passivamente o que cozinham nos gabinetes duas ou três pessoas que ninguém mandatou. É certo que continuam velhas pechas: o «acordo» foi aprovado CONTRA o parecer científico desfavorável de todas as instituições que se pronunciaram (excepto a do a. do «acordo») sem que tenha sido dada qualquer explicação. Mas, embora pouco tenhamos, na essência, mudado, e continuemos serviçais, não somos já hoje o país rural com 80% de analfabetos a quem o governo ditatorial e maçónico de 1911 impôs a mutilação da ortografia.
            Nestes 100 anos sempre alguma coisa mudou e não é demasiado ambicioso esperar que a democracia prepondere sobre as organizações secretas que infestam o estado (e dele vivem) e o «acordo» seja enviado para o caixote de lixo.

        2. «…no termo da moratória ele terá de ser plenamente assumido e não duvide da estigmatização que começará a ocorrer, incluindo na obtenção de empregos e na vertente social da comunicação.»
          Silva gosta de ameaçar! Deve ser o terror lá da loja.

    3. A ortografia do português de 1910, mudou porque pensavam que seria mais fácil a aprendizagem. E foi feita a «reforma», da responsailidade de um governo ditatorial e maçónico. Por sua vez, a ortografia do inglês e do francês não mudou nada desde essa altura. Em Portugal há 20% de analfabetos e no Brasil 75%. Em Inglaterra ou em França ou nos Estados Unidos há ZERO.
      Não houve qualquer mudança naquelas línguas desde há mais de 250 anos. Será que não «evoluem»?
      Sobre o mais que expende, talvez conviesse afastar-se de ideias velhas de 140 anos (essa de «aproximar a escrita da oralidade»…) e ter uma noção do estado actual da questão.
      Para isso, pode estudar o que ensina o Professor Doutor António Emiliano – transcrevo e indico link (http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/7679.pdf).
      «É hoje consensual entre os especialistas que a escrituralidade 1) tem características substantivamente distintas da oralidade, as quais não resultam de, ou não se reduzem a, um putativo estatuto secundário ou subsidiário da escrita em relação à fala, e 2) não é
      uma transcrição da oralidade — na realidade, a escrita não é, nem pode ser, uma transcrição da fala, apesar de ser uma representação da língua. Sobre esta questão escreveu lapidarmente David Olson, naquela que é certamente uma das obras mais influentes das últimas
      décadas de investigação sobre língua escrita:
      […] writing is not the transcription of speech but rather provides a conceptual model for that speech. […] Writing systems […] do represent speech. But not in the way that is conventionally held. Writing systems create
      the categories in terms of which we become conscious of speech. […] we introspect our languages along lines laid down by our scripts.
      (Olson 1994: 89-90)
      Esta perspectiva, absolutamente fundamental para o adequado estudo da língua escrita, e a que volto um pouco mais abaixo, inverte completamente os termos em que tradicionalmente se tem equacionado a relação entre escrita e fala e obriga a repensar a
      questão da “primazia” da língua oral sobre a escrita.
      Se a escrita é uma tecnologia no seu aspecto material, uma coisa artificial cuja utilização depende de outras tecnologias e artefactos, como foi acima dito, é uma tecnologia radicalmente distinta de outras, pois possibilita a comunicação linguística através de um
      medium totalmente alheio à fala. É uma tecnologia de comunicação que, como proclamou Walter Ong, restrutura a consciência e o pensamento. Ao fazê-lo, a escrita altera radicalmente a forma como uma língua é percepcionada pelos falantes alfabetizados, criando uma
      metalinguística (ou seja, possibilitando a introspecção linguística) e altera também a sociedade. Melhor: a escrita proporciona o surgimento de modos novos de organização social assentes em relações e papéis
      sociais dependentes da prova escrita e da comunicação diferida.»

      1. Acho que a discussão é cada vez mais estéril. Os argumentos do professor António Emiliano, que tão bem conheço, são argumentos de um homem coerente, que assumiu uma posição e sabe defendê-la. Do outro lado temos posições de ilustres académicos com o mesmo gabarito, colegas de departamento e profissão que merecem a mesma consideração. Sobre a teorização da scriptologia, há muito autores que apontam para a diglossia, mas muito outros defendem a aproximação dos sitemas. Há moderados e há radicais.
        Não vejo ameaças no pragmatismo. Vamos entender-nos numa coisa muito clara: alguém acha que este AO vai ser ´deitado para o caixote’? Com a decisão já posta em prática de a ‘coisa’ pública usar as novas formas de escrita, com a (re) edição de todos os manuais escolares já desde o ano transato, com a prática já adotada este ano de todas as universidades públicas, acha que ainda se vai voltar ao ponto de partida? Pode dizer que sim, que acredita, mas terá tantos frutos como eu terei com a vinda de D. Sebastião. Não concordo com todas as leis do meu país, mas não espero que mudem para, só então, eu agir em conformidade. Esta é a lei da democracia e da cidadania.

        Os meus respeitos.

  9. naquelles tempos do herculano, é que era bom, mas mesmo muito bom, para os adoradores de consoantes:

    “Estas ultimas palavras, dictas em tom
    de escarneo, mal foram ouvidas: a grita
    na praça era já espantosa; as injurias, as
    pragas, as ameaças, cruzando-se nos ares,
    produziam aquelle rouco e grande brado da
    fúria popular, que só tem semelhança com o
    ruído de tufão abysmando-se por cavernas
    immensas.”

    (das lendas e narrativas do nosso alexandre herculano)

    1. Carlos,
      fugindo (mas só ligeiramente) ao assunto: achei graça a essa visita ao Herculano, porque recebi há dias um mail de uma amiga brasileira – escritora, por sinal – com a seguinte frase: “Vai por aqui uma grita geral por causa do fechamento da livraria Camões”.
      Há muitas palavras e expressões portuguesas que caíram em desuso em Portugal mas continuam a usar-se no Brasil, mesmo entre os mais eruditos.

    2. Nos tempos de Herculano ou hoje em Inglês ou Francês, que vem a ser a mesma coisa. As grafias do francês e do inglês não mudaram desde o tempo de Herculano.
      Immensas é o immenses francês de hoje.
      Será subdesenvolvimento?

  10. Se o autor tiver a curiosidade de ler a reforma ortográfica de 1911 e tomar conhecimento da forma como foi decretasda perceberá três coisas;

    – a primeira; em 1911 Portugal instituiu uma reforma ortográfica profundíssima à revelia do Brasil; durante mais de 20 anos no Brasil continou a ser usada a ortografia clássica (exemplos: orthographia, occulto, systema), enquanto em Portugal se escrevia como escreve hoje. O texto da reforma portuguesa de 1911 é uma má peça de filologia, plena de incongruências e que almejava a aproximação do português ao castelhano.

    – a segunda; quando finalmente o Brasil adoptou a reforma ortográfica, cerca de 20 anos depois de ela ter sido decretada unilateralmente em Portugal, fê-lo de modo congruente. Assim, vogais mudas não se escrevem. Ora, uma das incongruências da reforma portuguesa é precisamente essa; entendeu-se que deveriam permancerer algumas vogais mudas supostamente para abrir a vogal anterior, mas foi decidido excluir outras que, pelo mesmo critério, abririam também a vogal precedente. Por exemplo, caiu o duplo ‘c’ de occidental, mas fica o ‘c’ de atual. Nada mais cretino.

    – terceira; manter vogais mudas é simplesmente manter um dos dois aspetos mais erróneos e mal concebidos da reforma portuguesa de 1911.

      1. @VSC
        1º um projeto de reforma ortográfica não é uma reforma ortográfica;
        2º Mais de 20 anos antes do projeto de reforma brasileiro que citou, em 1885, Gonçaves Viana, português, publica em Portugal as “Bases da Ortografia Portuguesa”, trabalho que serviu de base à reforma unilateral portuguesa de 1911;
        3º Antes ainda, o primeiro “projeto” de simplificação da ortografia é do século 18 e ocorreu em Portugal: Luiz António Verney defendia a fontetização absoluta da grafia. Por exemplo, seria preferível escrever “uzo” a “uso”.

    1. Este esquece a reforma de 1945…. que unificaria, essa sim a língua em 99,5% e sem duplas grafias…
      Quanto às consoantes ditas mudas, talvez o Prof. Houaiss consiga fazer-lhe entender para que servem http://youtu.be/DQUj4BvD9Gc

      Tendo em conta a função das consoantes ditas mudas não houve qualquer incongruência, mas uma paragem ante o que mutilaria gravemente a estrutura mesma da Língua.

      1. Quanto a Houaiss;
        – 1º o professor Houaiss usa a palavra “actividade” como exemplo da necessidade de os portugueses manterem consoantes mudas para “abrirem” o ‘a’ átono. Acontece que, como bem sabe, a palavra “actividade” é precisamente um exemplo em como um consoante muda não serve para abrir uma vogal átona precedente: o primeiro ‘a’ é pronunciado em “fechado”, apesar da consoante muda que o segue.
        – 2º não existe qualquer relação entre a pronúncia de uma vogal átona aberta e a necessidade de haver uma consoante muda a segui-la. Dei vários exemplos disso mesmo, e se o VSC quiser pode encontrar muitos mais.

        Quanto à reforma de 1945; pretendia essencialemente uma coisa: colocar os brasileiros a escrever consoantes mudas, quando aquilo que deveria ter sido feito era colocar os portugueses a não escrever consoantes mudas. Como expliquei noutros comentários deste post, seria mais justificável escrever “occulto” do que “tactear”. No entanto, a aberração de 1911 suprimia o c mudo de oculto e manteve-o em tactear.

        O AO de 2009 veio pôr termo a esta incongruência, embora com demasiados anos de atraso.

  11. Escreve o autor do post
    “Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.”

    Isto é uma mistificação. A prová-lo, ficam alguns exemplos de vogais átonas que são pronunciadas em Portugal sem necessidade de serem seguindas por consoante muda (assinaladas com acento grave):
    òbrigado, bèbé, invàsão, òcorrência, òculto, prègar, òpaco, rèpública, rètórica. São inúmeros os exemplos de palavras pronunciadas em português com vogal átona “aberta” sem que existam consoantes mudas a segui-las.

    Em contrapartida, existem vogais que pronunciamos “fechadas” (linguagem corrente) apesar de serem seguidas por consoante muda; a mais conhecida á actuar.

    Algumas das consoantes que agora pronunciamos “abertas” (linguagem corrente) eram seguidas de vogal muda há cem anos. Essa consoante muda deixou de ser escrita e, no entanto, continuamos a pronunciar essas vogais abertas. Exemplos occidental, opposto, etc, etc.

    Os argumentos de Vasco Graça Moura não têm qualquer validade científica como ele próprio, melhor que ninguém, está farto de saber.

    Se queremos perceber os verdadeiros fundamentos da oposição ao AO em Portugal temos de seguir três pistas: entre os ignorantes, a pista da xenofobia e a pista da apetência dos portugueses pelo pechisbeque; entre os interessados economicamente no assunto, a pista dos editores e tradutores que nos vendem os livros mais caros da Europa.

    1. Corrijo um parágrafo no comentário acima:

      “Algumas das vogais que agora pronunciamos “abertas” (linguagem corrente) eram seguidas de consoante muda há cem anos. Essa consoante muda deixou de ser escrita e, no entanto, continuamos a pronunciar as vogais abertas. Exemplos occidental, opposto, etc, etc”

      Dislexias…

      1. Impressionante. Tal como os oo de «ocidental» e «oposto» serem ô e até u, para os transmontanos. Mas ubrigado polo esforço.

        1. Não percebo os contra-comentários de Bic Laranja. Eu sou transmontano e não pronuncio assim nem me lembro de ter ouvido…

          1. Muitos surdos também não ouvem certas consoantes e chamam-lhe mudas. É um problema de ótica.

          2. Pensei que se estava a referir a ‘ponto de vista’ e não a questões de ouvido. Cmpts.

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