Natal sem crianças não tem graça, mas sem pobrezinhos também não. Nada como a quadra natalícia para aconchegar o ego de alguns cristãos, fazê-los sentir solidários e generosos. Se não circulassem nesta época do ano as habituais histórias de miséria com gente dentro pelas televisões, pelos jornais e pelas paróquias, aquela comoção ritual, que chega a arrancar uma lágrima furtiva aos corações mais empedernidos, não aconteceria e a possibilidade fascinante de algumas almas se surpreenderem e até comoverem com a sua própria sensibilidade perder-se-ia entre sonhos e filhós. Esta magia da saison, a que nenhum cristão é insensível foi, porém, perturbada pelas palavras do bispo auxiliar de Lisboa, D. Carlos Azevedo, que chamou a atenção para uma incompatibilidade que é válida para todos os dias do ano: gestão feroz e catolicismo, ao que parece, não combinam.


Já vai sendo tempo de a Igreja Católica se concentrar nos “problemas reais”, exigindo alternativas, em vez de ir na onda das “caridadezinhas”. Será até esta a única possibilidade que a Igreja tem de sobreviver, esperemos que esses senhores tão estudados e tão sábios dêem conta disso.
O que D. Carlos diz, Cristina Torrão, é que “esses senhores tão estudados e tão sábios” não dão conta disto porque só estão preocupados consigo e com a ferocidade do lucro.
Essa foi a denúncia corajosa do que vem sendo há décadas o ensino universitário da Universidade Católica.
Nunca ninguém tinha denunciado isto.
E é precisa verticalidade, coragem e uma dignidade moral superior para vir fazer um exercício público de denúncia dum estabelecimento de ensino que encostado à Igreja Católica muito foi ajudado financeiramente pelo Estado por causa da referida matriz religiosa e confessional.
Sim, o meu comentário é um aplauso a D. Carlos, o “já vai sendo tempo” é para ser entendido como um “finalmente”. Espero é que denúncias corajosas passem a ser um hábito, a nível geral, da Igreja.
Adenda ao comentário anterior:
Com os “senhores estudados e sábios” eu referia-me aos senhores da Igreja, que ganhem coragem e sigam o exemplo de D. Carlos.
Peço desculpa se não fui clara no meu comentário inicial.
Cristina, em tempo de crise, espera-se que a Igreja cumpra um dos seus principais papéis, que é o de intervir, denunciando as injustiças sociais e a hipocrisia de alguns cristãos que estão em posição de dar o seu contributo para uma sociedade mais solidária. Por isso achei tão importante esta intervenção do bispo. Quando tanto se discutem modelos económicos, é bom que certos gestores, que se dizem católicos, se interroguem sobre as ‘opções estratégicas’ das suas empresas.
Subscrevo o seu comentário, Ana.
Teresa,
Quero dar o meu testemunho.
Licenciei-me na Católica em 1988.
O que mais me “desnorteou” no primeiro ano de frequência do curso foi o “ambiente” nada católico que por lá havia entre estudantes, mas também no relacionamento entre professores e estudantes.
Procurei a Universidade Católica porque eles se “gabavam” de oferecer uma sã formação cristã, além de um bom plano de estudos na minha área (direito).
Entre estudantes, o sentimento dominante (quando sóbrios!) era o da mais feroz e trucidária competição. Talvez seja mais moderna a palavra competitividade…
A única referência à religião católica que lá encontrei, para além das missas de Natal, foram oa “aliciamentos”/chamamentos para o Opus Dei.
Encontrei pessoas maravilhosas, óptimos professores e belíssimos seres humanos, que me marcaram e me acompanharão para todo o sempre.
Mas foram luminosas excepções e o ponto de encontro deu-se ali por mero acaso.
Se ainda hoje sou católica devo-o a tudo quanto aprendi fora da Universidade Católica.
Por que será que nada disso me espanta, Amélia? Obrigada pelo seu testemunho.
Lendo pessoas com o prof. César das Neves, é perfeitamente clara a forma como o capitalismo mais selvagem convive bem com uma certa visão do catolicismo:
Os pobres podem ter esperança na vida eterna, e não num país solidário. Sofram agora que esta condição é passageira… E os ricos, esse encontram o céu fazendo caridade. Não pode haver uns sem os outros, e o capitalismo mais selvagem e competitivo assegura que ambos existem (e cada vez menos classes pelo meio).