Nas nuvens


Maria Dulce Fernandes,

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Deito-me a olhar os céus e penso na criação.

Penso  na faúlha minúscula que viajou pelo vazio, ribombou com estrondo, criou este mundo que a nós nos fez, criou  os corpos celestes, criou a Terra, criou os mares , criou os céus, criou as nuvens.

Criou tudo e todos e criou-me também a mim, para que eu possa criar fantasias, deitada a olhar para os céus.

As nuvens são um mundo encantado cheio de fadas e corcéis, de ogres e dragões, montanhas e vulcões. 

Onde tu vês uma nuvem, eu vejo Alcácer-Quibir levantar-se das patas das montarias, oiço os gritos dos valentes, o tinir do metal, o desespero, os gemidos de agonia e depois nada mais. Resta  a nuvem tinta do entardecer que leva consigo mistérios eternos e os deposita suavemente na beira do rio onde os das letras tiram a cor da inspiração que lhes corre nas penas. 

Onde tu vês uma nuvem, eu vejo o Chomolungma na glória de Hillary e Norgay, imponente e impotente ao extermínio que se desenrola a seus pés e que purpúrea  a alvura  das suas neves.

Onde tu vês uma nuvem, eu vejo um universo de formas, cores e texturas que amassa e leveda o pão que alimenta a imaginação infinita do pensamento dos homens. 

 

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16 comentários em “Nas nuvens”

  1. Muito bom, Dulce.
    Também me deixo, frequentemente, interpelar pelas nuvéns.
    Se lhes dou atenção, fazem-me sonhar e “imaginar loucuras” (Rita Lee).
    Por isso me dizem (?) que ando sempre nas nuvéns …
    Bom fim‑de‑semana! Sem nuvéns.

  2. Essa visão é para quem está em terra, se apanhar um avião e passar a viagem acima das nuvens lá se vai “As nuvens são um mundo encantado cheio de fadas e corcéis, de ogres e dragões, montanhas e vulcões”.
    Os fenómenos atmosféricos estão pela hora da morte*, agora temos satélites a espiar a atmosfera e as alterações climáticas são devido ao mau comportamento dos homens.

    * com as mortes provocadas, ‘pela hora da morte’ deixa de ser apenas dispendioso.

      1. Maria Dulce Fernandes
        Então, normalmente uma viagem de avião é feita a cerca de 12.000 metros de altitude, se as nuvens, normalmente,. estão entre os 2.000 / 6.000 metros de altitude, viajamos acima das nuvens e por cima temos um teto plano. Não é verdade?
        Nesse caso, a imaginação tem de ser outra, deixa de haver “montanhas e vulcões”.
        Saltei várias vezes em paraquedas (8 vezes), normalmente entre 6.000/8.000 metros de altitude, e algumas nuvens apareciam pelo caminho na descida.
        Reconheço não ter a sua imaginação, e muito menos em descreve-la, por isso “imaginei” concretamente sobre o que conheci.

        1. Não imaginou, descreveu o que viu. Onde você vê nada eu poso ver um colchão de gelo, um batido de coco, um glaciar infinito… triste de quem só vê o que lá está…
          Bons saltos. Da próxima vez pense que está a entrar num capuccino cremoso que está numa chávena branca, numa mesa com toalha branca, debaixo de um guarda-sol branco bem no centro da Piazza Navona.

          1. Já não salto há muitos anos.
            Agora percebi, e imagino como que seria saltar de 8.000 metros em paraquedas e cair nos braços da Jayne Mansfield. (Coitada, vai cair nos braços doutra diria ela).

  3. A nuvem que tu estás a ver
    Nesse teu mundo encantado
    É a que me costuma aparecer
    Assim quase ao entardecer
    Depois de bem atestado

    Vou para a cama para curtir
    Vêm as fadas e os dragões
    Mas não consigo distinguir
    Se estou acordado ou a dormir
    Ou se são alucinações

    Tenho a cabeça enevoada
    Com nuvens até mais não
    Se calhar vem aí trovoada
    Espero que não seja a feijoada
    Que me parou a digestão

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