Doris Lessing, cujos livros acompanharam a minha juventude morreu há dois dias, com 94 anos. Em 2007, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura e então escreveu um belíssimo discurso que intitulou «Como não ganhar o prémio Nobel».
Falou de livros, do sonho de saber nos países pobres, da falta de interesse da juventude no mundo dos ricos. Falou sobretudo de África, do Zimbabwe que ela tão bem conheceu, recordou uma «aldeia onde a população não comia há três dias, mas onde se falava de livros e dos meios para conseguir obtê-los»; um autor negro, seu amigo, que «aprendeu a ler sozinho, nas etiquetas dos frascos de compota e das latas de conservas de frutos»; uma localidade perdida no mapa, onde dois jovens resolveram escrever romances na língua nativa (tonga); um jovem de dezoito anos que, ao receber uma caixa com livros oferecidos por um americano, os embrulhou cuidadosamente num plástico, com receio de que se estragassem, sabendo que dificilmente poderia voltar a receber outros.
O discurso é longo, pode ser lido em inglês ou em francês. Deixo aqui em português algo que resume bem o que ela pensava de quem escreve.
Há sempre um o “fazedor de histórias” escondido no fundo de cada um de nós. Suponhamos que o nosso mundo era destruído pela guerra, pelos horrores que todos podemos facilmente imaginar. Suponhamos que inundações submergiam as nossas cidades, que o nível dos mares subia… O narrador estaria sempre lá, pois é o nosso imaginário que nos modela, que nos faz viver, que nos cria, para o bem ou para o mal. São as nossas histórias que nos recriam quando estamos despedaçados, moribundos, ou mesmo destruídos. É o narrador, o fazedor de sonhos, o construtor de mitos, que é nossa fénix, aquilo que somos no melhor de nós mesmos, da nossa criatividade.
(entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt)


Que palavras bonitas, obrigada por as trazer para aqui.
E o Nobel já foi em 2007? Como o tempo passa…
Desculpe corrigi-la, Helena, mas a Doris Lessing morreu no dia 17 e não hoje.
Ela era, de facto, uma mulher extraordinária e fiquei imensamente feliz quando ganhou o Nobel, pois era uma das minhas escritoras favoritas.
Obrigada por se ter lembrado dela.
🙂
Antonieta
Tem toda a razão Antonieta. É o que dá escrever e deixar nos rascunhos…
Ainda sobre escritores, e se me permite, nestes últimos dias li três livros preciosos:
“Alma e Vida”, que a Helena conhece bem;
“A Papoila e o Monge”, do Padre Tolentino Mendonça, que penso que também conhece;
Finalmente “La ridícula Idea de no Volver a Verte”, da Rosa Montero, um livro absolutamente comovente sobre Marie Curie, e também sobre a perda de um companheiro.
Atrevo-me a recomendá-lo, penso que iria gostar de o ler.
Antonieta
Que bela citação, Helena.
Está aqui a mesma Doris Lessing mas escreveu sobre Comunismo e o Politicamente Correcto
Questions You Should Never Ask a Writer n/13lessing.html?ex=1350014400&en=e065189878c17fdf&ei=5124&partner=permalink&exprod=permalink&_r=1&
http://www.nytimes.com/2007/10/13/opinio
Estas histórias sobre crianças africanas que têm livros como tesouros fizeram-me recordar que os meus dois filhos basicamente se recusam a ler seja que livro fôr (com exceção dos livros escolares). É triste.