Há graves erros nas análises de muitos comentadores sobre a nova realidade dos partidos extremistas que surgem na Europa. Em primeiro lugar, sustentaram que os partidos de protesto nunca chegariam a partidos de governo, uma vez que para o efeito teriam que moderar o seu discurso, em ordem a ser admitidos no arco da governação. Quando fracassou esta tese, com a retumbante vitória do Syriza na Grécia, começaram a defender que a chegada ao governo moderaria o extremismo desses partidos, confrontados com a dura realidade de não haver alternativa ao actual estado de coisas. Essa tese demonstra uma grave ignorância histórica: os partidos extremistas têm uma ideologia marcada, que querem a todo o custo aplicar quando chegam ao governo, sob pena de perderem a sua razão de existir. Foi assim com a revolução francesa, com a revolução russa, com todas as revoluções comunistas subsequentes e ainda com a ascensão dos regimes fascistas dos anos 30. Nesse aspecto, o velho slogan do Maio de 1968 “sejamos realistas: exijamos o impossível” é uma clara demonstração de que nem a mais dura realidade se consegue impor a uma ideologia forte.
A marcha do “Podemos” de ontem em Espanha não foi por isso um simples comício partidário, igual a tantos outros. Há ali um claro desafio ao actual regime espanhol, quer na bandeira republicana, sempre presente, quer na cor escolhida (o roxo) que falta na actual bandeira espanhola. Sabe-se, por outro lado, que o “Podemos” defende o referendo sobre a independência da Catalunha e a saída da Espanha da NATO, além de estar naturalmente contra a actual política europeia. Dificilmente assim o actual regime espanhol sobreviverá a um governo do “Podemos”. O que obviamente é o que o “Podemos” mais deseja.
É por isso que acho completamente idiota esta frase de Mariano Rajoy de que os dirigentes do “Podemos” não passam de uns tristes. É com disparates destes que os partidos tradicionais estão a caminhar para o desastre. E provavelmente nem se aperceberão do que lhes vai acontecer.

Retumbante com a ajuda de 50 deputados de bónus.
“Retumbante (a) vitória do Syriza”, mas apenas com 36% dos votos expressos validamente?
9 911 495 eleitores inscritos
6 330 786 votantes (com brancos e nulos)
6 181 274 votantes (sem brancos e nulos)
SYRIZA (+OP : Verdes Ecologistas)
2 246 064 votos
ANEL
293 371 votos
Total da coligação 2 539 435 votos
Isto é : 25,6% dos eleitores inscritos
Certo, boa reflexão.
Vejamos o nosso governo, sobre o “total de inscritos”:
PSD: 22,44%, PSD+CDS: 29,23%
não muito mais que o Syriza.
… e se olharmos ao resultado das europeias:
AP = PSD+CDS : 9,46%
… é mesmo muito confrangedor.
Quanto ao arco governativo : PS+PSD+CDS : 20,20%
… continua a ser de “gritos”.
Portanto, é bom não esquecer que actualmente sobre a UE o “grande consenso nacional” representa 20% da população votante.
Um sistema mais engraçado é o francês.
A grande maioria que Hollande conseguiu veio de 22,45% dos inscritos.
A quase totalidade do seu parlamento com 577 lugares veio de 42% dos votantes.
Porém a Frente Nacional, com 13,6% dos votos expressos,
teve direito apenas a 2 lugares, ou seja, a 0,35%.
O sistema “democrático clássico” permite assim na França uma distorção de perto de 4000% na representatividade.
Por isso ninguém se atreve a criticar verdadeiramente a legitimidade do Syriza, pois há sistemas muito mais aldrabões, destinados a preservar a aldrabice, sob capa de “votação democrática”.
É claro que já aqui foi falada a aldrabice pegada a que a Comissão Nacional de Eleições fechou os olhos: exactamente, falsificação de resultados – como se soube na eleição de Cavaco.
Eu prefiro esquecer isso, e ir fazendo de conta que vivemos num sistema democrático.
No entanto, não vamos embarcar em contas da carochinha, próprias de contos de criança, ao jeito do “rigor aldrabão” de Crato ou Passos-Portas.
Meu caro
Não fiz nenhuma reflexão, apresentei números.
Estive para fazer uma mas não a fiz precisamente para evitar comentários como o seu, serviu-me de muito…
Para mim metade mais um dos votos expressos dá legitimidade a qualquer um.
É essa a minha noção de democracia, ninguém foi proíbido de votar portanto não sei de que se queixam uns e outros.
Legislativas são legislativas, europeias são europeias e quem é a menina maus bonita da turma é quem é a menina mais bonita da turma.
São raciocínios que não me levam a sítio algum.
Os sistemas são esses e os respectivos povos têem convivido com eles.
Quando o sistema joga a nosso favor, porreiro pá.
Quando não joga, não é democrático.
oportunismos.
Eu vivo num sistema democrático porque vivi num sistema não-democrático.
Não lhe digo o porquê aqui.
Abraço
Meu caro, não percebo porque levou a mal.
Apenas contrapus factos, aos seus factos sobre a percentagem, face ao valor dos inscritos. Lamento, mas foi esse o ponto da sua intervenção, não foi o dos votos expressos – esse foi o do anónimo.
As palavras leva-as o vento (;-) e “democracia” já serviu o nome da RDA, e sobre percentagens lembro sempre os 99% do Ben Ali na Tunísia, quando lá estive, ou as votações de 98% no último congresso PS do Sócrates.
Por isso, simplesmente não vi o seu interesse em menorizar o resultado do Syriza, porque curiosamente, nos termos que indicou, foi melhor que o da maioria do Hollande, que os contadores de histórias acharam retumbante e inquestionável.
Talvez lhe pareça secundário, mas em Portugal também não precisa de 50% para ter maioria absoluta no parlamento – aliás não sei alguma vez algum partido teve.
Ou seja, também há à volta de 20 deputados que são prenda do sistema eleitoral.
Se achei que isto tinha importância, foi porque lhe quis dar importância.
Para mim, eles são gregos, que se entendam!… Abraços.
Meu caro
Porque levei a mal o quê?
Eu não levei nada a mal.
Se soubesse que agora ainda me vinha tentar pôr a mim na figura do mau da fita depois daquilo tudo que eu lhe respondi, aí sim, aí é que eu tinha levado mesmo a mal.
Mesmo assim pus lá que tinha tentado evitar certos comentários, gato escaldado…
Contrapôs factos com OPINIÕES aos meus factos sem OPINIÕES, dê as voltas que der ao texto (a menos que me acuse frontalmente de má fé).
Menorizar pondo factos quando o meu amigo utiliza a sua retórica para o enaltecer menorizando tudo à sua volta?
Claro que pus os votos respeitantes aos inscritos.
Então não anda meio mundo a chatear outro meio mundo com a falta de legitimidade do governo A e depois do governo B porque não tem legitimidade para isto ou para aquilo porque a grande maioria dos portugueses não votaram neles, incluíndo mesmo a patetice “do abstencionismo é que ganhou as eleições” (uma frase notável de estupidez anti-democrática) e outras balelas que tais?
Não posso dizer que mora na minha rua um tipo que tem 1,57 mt e pesa 110 Kgs (o que é verdade)?
O que eu não posso acrescentar é que é uma figura ridícula e parece uma pipa de vinho, isso é que seria menorizar a pessoa (no mínimo).
Ou dizer que na rua ao lado há um ainda mais baixo e mais gordo só para enaltecer aquele, a propósito de nada.
Como só leu o que quis ler, relembro-lhe o que escrevi:
“Para mim metade mais um dos votos expressos dá legitimidade a qualquer um”.
Olhe que para quem ainda ontem e noutro lugar me propôs (delicadamente) não continuar uma conversa (ao que eu acedi, não gosto de ficar a falar sózinho) não me parece simpático o sucessivo recurso que faz a afirmações e situações que eu não partilho.
Não lhe vou dizer porquê mas esse hábito de atirar umas coisas para o ar que as mentes distraídas interpretam como possíveis afirmações anteriores do oponente ou quanto muito ideias que se supõe ele partilhar não pega comigo.
Por exemplo.
“que os contadores de histórias acharam retumbante e inquestionável”.
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Logo eu, francófono desde que nasci, que já achava o Hollande uma fraca figura política quando ele ainda andava de fraldas ao colo do Mitterand nas eleições de 1974…
“Talvez lhe pareça secundário, …”
Mas porque é que havia de me parecer secundário?
Em que é que se baseia escrito por mim para dizer isso?
E quem é que lhe disse a si que eu não conheço de trás para a frente e da frente para trás o método de Hondt e todos os seus defeitos para a democracia ( que de resto são vantagens para alguns, nunca são os pequenos partidos que falam em baixar o número de deputados ou mudar de método)?
20 deputados “prenda” do sistema eleitoral em Portugal?
Como assim, não foram votados e não podem ír parar a qualquer um em qualquer altura, desde o PP ao PCP?
E onde é que eu falei nisso dos 50 deputados “caídos do céu” aqui nestes comentários?
Que tal se fôsse ler o que eu escrevi sobre o assunto noutro post?
Pois acho que não vou mais a norte que o distrito de Viseu por uns tempos…
Abraço
Errata à atenção de “da Maia” e no seguimento do meu último comentário
(que ainda não apareceu aqui, agora que estou a escrever este).
Não foi noutro post que teci considerações sobre o Syriza e o bónus de deputados.
Foi neste mesmo, umas linhas abaixo.
Talvez não as tenha lido.
Li, sim. Li que usou o adjectivo “aberração”.
Meu caro, respondo a esta sua adenda, já que a parte anterior levaria para conversas de animosidade, cujo interesse me escapa.
Acrescento um ponto que não terá talvez notado.
A certa altura, não é preciso responder, tudo está respondido antes.
É-me importante que possa ser entendido, mas é-me indiferente que seja entendido. Uma coisa depende de mim, a outra não.
Cumprimentos.
A certa altura não é preciso responder, pois não.
Respondo-lhe só para dizer que o li.
Tiveram mais votos do que coligação de direita/PSOK que ajudou a destruir o resto da economia grega.
Já quanto aos 50 lugares, também os anteriores tiveram essa benesse que está plasmada na lei grega!
Já chamei a atenção aqui para isso e para o direito indiscutível que lhes assiste de
terem os 50 deputados que estão inscritos na lei.
Também se falou aqui que Tsipras anda desde sempre a criticar forte e feio esses
deputados caídos “do céu” pelo que tinha sido bonito mas não obrigatório que tivesse tentado uma coligação “sem eles” ainda que depois os juntasse ao grupo.
Acrescento que o Syriza devia, em consciência, acabar com essa aberração.
Duvido que o faça, por falta de tempo ou de vontade (a 1ª que acontecer).
Sim acredito que a asfixia gerada pela atual crise e os desesperos criados levem a que haja apostas arriscadas que alguns não julgassem possíveis.
Todavia, também vejo muitos foguetes com uma semana de poder do Syriza, muito antes de se perceber como a situação estará daqui a uns meses, sobre quem cedeu, como cedeu, como ficaram as coisas. O balanço de um campeonato não se faz com uma vitória na primeira jornada.
De acordo. Só não pensa assim quem militantemente anda a sonhar com outras coisas. Na minha opinião, caro.
Corrigindo: “na minha opinião, claro”.
Continua igual a si mesmo. Excelente.
Aguardemos, para começar, o 22 Março ,”aqui ao lado” na Andaluzia.
E os “coletas” já se encontram enredados nos mesmíssimos problemas da “casta” ( da qual são parte mais que integrante) : turvas questões com a “Hacienda” e com o “curriculum” académico (Monedero);vigarices com a concessão de bolsa (Errejon); acusações provadas de nepotismo num município de Madrid ( Tania Sánchez).
Edificante ver o que a IU, em luta pela quase sobrevivência , diz, escreve e predica sobre estes burguesíssimos betos urbanos…
Por uma vez concordo com o que escreveu na ultima frase. Só idiotas menosprezam Marxistas.