Não será antes um problema de entendimento?


Sérgio de Almeida Correia,

“O sucesso da democracia não é apenas questão de se ter a mais perfeita estrutura institucional que possamos imaginar. Inevitavelmente, ele também há-de depender dos nossos reais padrões de comportamento e do funcionamento das interacções políticas e sociais. Não se pense que se pode abandonar o problema nas mãos ‘seguras’ do puro virtuosismo institucional. O funcionamento das instituições democráticas, e o mesmo acontece com todas as instituições, depende da actividade dos agentes humanos no sentido de conseguirem utilizar as oportunidades conducentes a realizações razoáveis” – Amartya Sen, A Ideia de Justiça.

 

 

A mentira é hoje uma verdade. A mentira faz parte do nosso quotidiano. Mas não apenas a mentira. O enviesamento dos factos e da forma como os mesmos devem ser lidos é uma constante desse jogo em que os nossos líderes e dirigentes políticos se especializaram.

Começa no Presidente da República (no actual, que os anteriores tinham outro estilo, outro savoir faire), continua nos primeiros-ministros, nos ministros das Finanças, prossegue nos presidentes do PSD, continua, sempre numa vertigem descendente, nalguns senhores deputados, nos dirigentes da bola, e vai por aí fora até encontrar o seu apogeu nalguns profissionais do sindicalismo e da arruaça.

Mas quando um conselheiro de Estado, que já foi ministro das Finanças e é hoje comentador encartado, resolve sair à rua para esgrimir desta forma os seus argumentos com um primeiro-ministro demissionário que anda pelas ruas da amargura, será legítimo pensar que ou o senhor não tem a noção do seu papel de conselheiro, e nesse caso devia ficar calado, ou então está a desempenhar um papel para o qual foi “indicado” por aquele outro senhor que não imaginava que até os sistemas informáticos do Pentágono podiam ser pirateados. E que ainda hoje está convencido de que o pagamento voluntário de impostos limpa os favores de que não se desconfiou, quando seria legítimo acreditar que qualquer bom pai de família teria desconfiado, e se beneficiou, quando não se devia ter beneficiado. 

De um já havia a ideia, cada vez mais consistente, de que tinha dificuldades em ver os factos na sua crueza, sem óculos de correcção, e mais ainda em relatá-los a terceiros. Como os seus próprios eleitores.

Do outro tem-se hoje a certeza, pelas declarações que proferiu, que se assume, e ele que como bom cristão me perdoe se exagero, como um fala-barato esforçado, sem categoria para conselheiro de Estado, e que não se importa de colocar o órgão que ainda agora integrou, o único que até hoje ia passando incólume por entre os salpicos da lama – não obstante os múltiplos esforços em contrário de Alberto João Jardim -, ao nível de uma assembleia de accionistas de uma qualquer empresa dependente do Estado. Como uma PT, por exemplo. 

Depois das declarações do conselheiro Bagão Félix, e assumindo ele nesse filme, aparentemente, o papel de um Zeinal Bava inexperiente, os portugueses certamente que quererão saber quem será aquele que no Conselho de Estado assegurará o papel que antes era o de Rui Pedro Soares na PT. E por quem é que esse terá sido indicado. Temo o pior.

As declarações de Bagão Félix, pela oportunidade com que são feitas, são uma certidão de óbito do actual Conselho de Estado. Mais um prego, e dos bons, no caixão do regime democrático.

O Prof. Cavaco Silva já não precisa de se incomodar em discursar no próximo dia 25 de Abril. Bagão Félix, solícito e reverente, poupou-o a essa maçada. Pelas palavras que tão depressa profere como pelas que não profere e pelas escolhas que faz, o Presidente da República é o coveiro-mor do regime. Os outros, os que aí andam, a começar pelo rei da poncha, não passam de aprendizes.

E depois, quando o regime implodir, não se esqueçam de vir falar na Pátria. E de se queixarem.     

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