Não se enxergam


Teresa Ribeiro,

Acho piada à ligeireza com que tantos se congratulam com o fim do Estado social. Falam como se não fossem também prejudicados e não corressem o risco de chegar à velhice numa situação de total desamparo, ou de ficar sem um suporte digno na doença e no desemprego.

Só uma minoria privilegiada não terá de se preocupar com o seu futuro, por mais anos que viva. Por isso o Estado social não é só o maná dos parasitas. Trata-se de uma conquista civilizacional, que fez da Europa uma referência, um bom lugar para viver.

É por isso que me irrita ver tanta gente a bater palminhas com a sua morte anunciada. Será que não se enxergam? Assim parece.

27 comentários em “Não se enxergam”

    1. Comecei logo por assumir, Carlos Pires, que infelizmente não parece haver grandes condições para a sustentabilidade do Estado social. Não pretendo discutir o que pelos vistos já não tem discusssão, embora tenha a esperança de que algo ainda se consiga preservar desse legado civilizacional de que só nos devíamos orgulhar. A atitude dos que aplaudem o seu fim, como se de coisa boa se tratasse, é que me levou a escrever este post. Porque é minha convicção que com todas as suas imperfeições se trata de um bem comum de que alguns desses críticos ainda vão ter muitas saudades.

  1. Nisto dou-te inteira razão. Mas o estado social só poderá ser sustentável e útil aos que dele mais precisam se deixar de ser o tal maná dos parasitas. E está falido, infelizmente.

    1. Pior do que a subsidiodependência foram os esbanjamentos, fruto de péssimas gestões, e a roubalheira generalizada. Ainda há pouco tempo veio a público informação sobre o que a este nível se passou nos hospitais públicos. Um escândalo! Mas não foram só os hospitais públicos a derreter o dinheiro dos nossos impostos. A prática foi generalizada. O que quer dizer que bem geridos, estes serviços, não estariam em ruptura.

  2. Quando lhes bater à porta, verão. Há muita a gente a falar como se o problema fossem sempre os outros e eles próprios estivessem acima de qualquer necessidade. No funfo, há uma certa presunção nessa atitude: eu, que sou diferente de todos, não preciso de ajudas.

  3. O Estado Social é corrupção de um Povo. Nada mais.
    É precisamente o contrário de Civilização. Um retrocesso.
    Esconde o que é a vida.
    Por isso é que a maioria não sabe nem quer saber que 2+2=4.
    São pós-civilizados. Escolheram esquecer-se ou foram corrompidos para esquecer ou nunca aprender o que sustenta uma civilização.

    1. O Estado social procura servir um ideal de justiça social e de solidariedade para com os mais fracos. Se acha que isto é o contrário de civilização, nem vale a pena argumentar mais consigo. Temos, obviamente, concepções muito diferentes sobre o que deve ser a vida em sociedade.

      1. Absolutamente.
        Você quer preços falsos.
        Você não quer ciência, recusa uma conta simples 2+2=4.
        A crise não acabará enquanto a maioria dos preços no Ocidente voltar a ter alguma semelhança com a realidade e as pessoas começarem a agir de acordo com eles.
        O seu Estado Social destruiu o seu País, destruiu a sociedade, que agora não passa da relação Estado+Individuo. Chama a isso Sociedade?

  4. Cara Teresa, este seu comentário insere-se na mesma lógica de terrorismo político que marcou a campanha de Sócrates. Já vai sendo tempo dos saudosistas socialistas compreenderem que não acreditar, confiar ou querer contribuir para “este” Estado Social, não significa que não se defenda um outro tipo de Estado Social. É uma lógica de pensamento e debate muito à la George W., estilo quem não está comigo está contra mim.
    Estes dogmas e virtualidades em que os “Arnauts” e os “Alegres” deste país vivem, e insistem continuar a viver, trouxeram-nos até a um ponto onde parece praticamente inevitável dar um passo atrás para poder tentar dar um e meio em frente, e, com esforço, talvez conseguir manter o equilibrio.
    De qualquer forma, deixo-lhe um pequeno desafio: imagine que se dava a possibilidade aos portugueses de utilizar uma fatia da contribuição para a Seg. Social como entendessem, podendo escolher um fundo privado, uma seguradora, a própria Seg. Social, ou outro. O que é que acha que resultaria daqui? Prevaleceria a tão propalada solidariedade geracional ou, em vez disso, os egoísmos individuais?

    1. Terrorismo político? Por esta é que eu não esperava. Saiba, Filipe Almeida, que não foi em Sócrates que votei nestas eleições. Penso que era aí que queria chegar, portanto resolvi ir directa ao assunto. Lamento, mas não percebeu nada do que quis dizer neste post.

      1. Não, não era aí que eu queria chegar. Fiz apenas a comparação entre o seu discurso e o que Sócrates utilizou durante a campanha: os que defendem a reformulação deste Estado Social éporque querem apenas o seu desmantelamento e “entregá-lo” aos privados.
        A Teresa irrita-se com quem, alegadamente, quererá a sua morte (há-de dizer-me onde leu ou viu isto, nestes termos), e eu chateio-me com quem, na sua infinita devoção ao próximo, pretende manter tudo como está.
        Devo dizer, igualmente, que a sua resposta ao leitor que escreveu seguir a mim éum tanto ou quanto contraditória com o seu post. Porventura, ter-se-á explicado mal, e eu, de facto, não terei percebido.

        1. Não é contraditória, não. Defender o Estado social não é defender o imobilismo. É evidente que são necessárias reformas, porque a situação, tal como está, é insustentável. Só que há reformas e reformas. Algumas pretendem preservar tanto quanto possível o modelo, rentabilizando estruturas, racionalizando recursos, corrigindo erros clamorosos de gestão e combatendo a corrupção. Outras visam essencialmente a restrição drástica dos apoios prestados aos cidadãos e a transferência gradual dos serviços de assistência para o sector privado, ou seja, na prática preconizam o gradual esvaziamento do papel social do Estado.
          Tem razão, poucos vêm a público assumir que são contra o Estado social, o que não quer dizer que sejam a favor…

  5. Haverá alguem no seu juizo perfeito que se alegre com o fim do “estado social”? O nosso problema, (mais uma vez), é que pusemos o carro à frente dos bois. Quem defende um estado social sustentado, devia simultaneamente ter explicado aos seus utentes que é preciso dinheiro para o pagar, e como arranjar esse dinheiro. Não basta estar escrito na Constituição ainda por cima de uma forma dubia: tendencialmente gratuito.(????) E igual para todos, os que podem pagar, e os que não podem! Agora todos vão ter que pagar. Mesmo os que não podem. Convenhamos que o que aí vem de estado social tem muito pouco! Infelizmente.

  6. O Estado-providência é uma das maiores conquistas da Humanidade. Mas não surgiu de um golpe do acaso. Resultou de diversas convergências, proporcionadas pelos condicionalismos políticos do pós-guerra. Beneficiou do Plano Marshall, por exemplo, que injectou monumentais capitais norte-americanos na Europa Ocidental nos anos do pós-guerra. E de um crescimento económico fabuloso, com médias anuais de 5%, nas três décadas subsequentes à II Guerra Mundial. Estas taxas de crescimento, aliadas ao factor demográfico, ajudaram a robustecer o sistema. Nos últimos 30 anos tudo isto tem estado em regressão – recessão económica, taxas demográficas negativas, perda de competitividade europeia na economia mundial. A globalização, permitindo índices de crescimento ímpares nos países do Terceiro Mundo, tem contribuído para atrofiar a economia europeia, comprimindo direitos sociais.
    O problema, neste caso, não é de conceito. É de dinheiro. Face aos desafios da globalização, à concorrência desleal dos países asiáticos onde não se respeitam direitos mínimos, e com uma economia em recessão de longo prazo, só um milagre de engenharia financeira salvaria o Estado-providência nos termos existentes nas três décadas prodigiosas (1945-75).

    1. Pedro, como já disse num comentário acima, naturalmente são necessárias reformas para tornar o sistema sustentável.
      Os europeus devem lutar pela preservação do conceito, que constitui uma marca identitária de que só se podem orgulhar.

      1. Têm toda a razão. É precisamente esse o meu ponto. E o facto de estarmos sempre a “atacar” quem pretende reformular “este” Estado Social, alegando que só pretendem desmantelá-lo, enviesará sempre a discussão. Essa será sempre a posição mais perigosa para a própria preservação desta conquista, precisamente porque despertará uma reacção ainda mais antagónica nos aproveitadores das fragilidades do sistema. É a velha regra da psicologia do “comportamento gera comportamento”.

    2. Pedro, com meia duzia de palavras disse o essencial. Eu acrescentaria que uma sociedade inteligente estaria há anos, como fizeram os nordicos, a procurar maneiras de manter o Estado-providencia possivel. Mas como sabemos, em Portugal é a ESQUERDA que recusa a procura de novas soluções insistindo num sistema que não tem viabilidade. Continuam convencidos que é acabando com os ricos que vamos lá. Assim nunca mais acabamos com os pobres.

      1. Há muitas esquerdas dentro da esquerda, Alexandre. Nem toda a esquerda é anquilosada. E já agora, se me permite, também há uma direita que rejeita a procura de soluções. A que argumenta que o Estado social é um sorvedouro de impostos que só serve para sustentar inúteis. A que defende o darwinismo social.

        1. De acordo Teresa. Mas refiro-me à esquerda do arco politico representado no Parlamento. Os outros, de um lado ou de outro, são irrelevantes.

    3. “Nos últimos 30 anos tudo isto tem estado em regressão – recessão económica, taxas demográficas negativas, perda de competitividade europeia na economia mundial. A globalização, permitindo índices de crescimento ímpares nos países do Terceiro Mundo, tem contribuído para atrofiar a economia europeia, comprimindo direitos sociais.”

      Nunca o Estado Social Europeu e Norte Americano gastou tanto como hoje.
      O que aconteceu é que o ritmo do seu crescimento tem vindo a diminuir.
      Bastaria por exemplo regressar aos gastos dos Estados no ano 2000 para a maioria dos países terem superavites.

  7. Suponho que a alegria de alguns não se deverá exactamente ao fim do Estado social mas ao facto de verem a História validar os avisos que vinham fazendo há anos, sob críticas ferozes (ainda hoje falar da necessidade da reforma do Estado social é visto por muita gente como desejo de o destruir). É verdade que a satisfação pode configurar uma vitória de Pirro (de facto, as consequências não serão bonitas) mas não deixa de ser humanamente compreensível.

  8. Se a sociedade portuguesa tivesse pensões onde o próprio contribuísse para a sua reforma e só nos casos excepcionais houvesse ajuda em vez do sistema politicamente corrupto das transferências entre gerações as pessoas seriam educadas para pensarem o futuro, e o enfrentarem desde cedo a longo prazo. Desde pequenos o pais educariam os seus filhos.
    Mas os Portugueses preferem escapismo.
    É o resultado de uma sociedade ainda com muitos traços do passado.
    De aristocratas e machista onde só alguns têm responsabilidade para se preocupar com o futuro.
    Não existe o Individuo.
    O problema é que a Democracia pode chamar qualquer um.

    Por exemplo esse diferente Portugal, onde todos teriam forçosamente de saber um pouco de economia e finança geraria Sócrates que chegassem a Primeiros Ministros?

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