Não há idade para a ingenuidade


Pedro Correia,

 

A conversa podia ser interrompida: no essencial, as opiniões já foram expressas. Vou só prolongá-la mais um pouco porque pressinto em Ana Matos Pires o gosto, que partilho, de confrontar pontos de vista sem que nenhuma das partes sinta necessidade de impor o seu. Por mim, isto constitui fonte de genuíno prazer – redobrado, quando sucede, por ser cada vez menos frequente. Há demasiada gente na blogosfera a confundir debate com doutrinação ou com insulto, o que não chega sequer a irritar-me: apenas me entedia.

Propõe a Ana que não nos afastemos do cerne da questão. Vamos então ao essencial. E o essencial vem resumido nestas palavras do Rui Costa Pinto que peço emprestadas: ao ponto a que as coisas chegaram no chamado caso Freeport, tem que ficar bem claro “por que razão as perguntas a fazer a José Sócrates e afins estiveram sujeitas a uma negociação completamente esdrúxula”. Na falta de um esclarecimento cabal, claro e completo, em que os jornalistas têm um papel essencial a desempenhar, reforçaremos a convicção de que “os inquéritos mais mediáticos têm sempre linhas de investigação muito peculiares”. O que seria péssimo para a justiça. Direi mesmo mais: seria péssimo para a democracia.

Exigirmos menos que isto é contentarmo-nos com quase nada.

 

Tomei entretanto boa nota do que a Ana me disse. E permito-me destacar esta frase: “Não há idade para a ingenuidade.” Como conjugar esta frase, no entanto, com uma outra sua em que classifica como “pretensioso” o facto de eu ter invocado o caso Watergate?

A questão, Ana, é que a minha geração foi irremediavelmente influenciada pelo caso Watergate. Mais: eu sonhei ser jornalista precisamente porque Watergate aconteceu. Dissequei-o nos mais ínfimos pormenores e na minha galeria de heróis figuram não só o duo Bob Woodward-Carl Bernstein (Robert Redford-Dustin Hoffman, na excelente versão cinematográfica de Alan J. Pakula) mas também Ben Bradlee, o director que confiou no talento e na sagacidade dos seus repórteres, e Katharine Graham, a proprietária de jornal que soube mostrar-se imune a todas as pressões. Incluindo as pressões da Casa Branca, reforçadas pela grosseria de Richard Nixon.

Dir-me-ão uma vez, dir-me-ão cem vezes: o caso Watergate é irrepetível. É escusado: quanto mais único, quanto mais insólito, quanto mais raro, mais me serve de referência. E continuará a ser o maior dos motivos por que um dia, já há muito tempo, decidi ser jornalista.

Ingenuidade, talvez. Dou-lhe razão: podemos ser ingénuos em qualquer idade.

 

Imagem: Dustin Hoffman e Robert Redford no filme Os Homens do Presidente (1976)

13 comentários em “Não há idade para a ingenuidade”

  1. é certo que o caso “watergate” só podia ser feito por jornalistas.

    Nao se esqueçam que havia um “garganta funda”, uma fnte anónima, de onde vinham provas…

    Ora, de acordo com o direito nacional (mas também alemao, ou italiano) tais provas nao valeriam nos sitios próprios : nos tribunais.

    É que no Direito, a verdade é alcançável e deve ser alcançada, mas POR MÉTODOS de legalidade da prova (o DVD nao podia ser usado, embora eu pessoalmente tenha dúvidas, poderei dizer quais se me interpelarem).

    Ora, a investigação jornalistica nao tem em conta que há provas proibidas ou proibições na btençao de prova.

    A verdade nao é alcançada a todo o custo. No Direito.

      1. Admite a tortura…
        Imagine o PM a ser objecto de tortura…e dizia que tinha recebido x e y.
        Vc é daqueles que admitiria…

        A forma como afirma diz que à OUTRA VIDA LEGITIMA PARA ALÉM DO DIREITO.

        Ora, nao é assim. Vc poe em causa a noção de DIREITO. Para si a VERDADE é ALCANÇADA a todo o custo, à luz da sua visao do mundo. E impõe-na!

          1. Nao. Só tomo laxantes. Os figos de Monte Gordo fazem mal. Mas levanto-me cedo e assim vigilante e atento.

            Zangou-se pelo argumento.

            Acredito que seja contra a tortura.

            Mas quem escreve “…a prova está à vista em Portugal como todos sabemos”…admitirá que a verdade pública pode ser conhecida por todos os meios. Ora, acontece que esta verdade pública poderá ser crime. E um crime necessita de factos. E os factos carecem de provas. E nem tudo o que é prova vale.

            FICA mal dizer “como TODOS sabemos”.Nao generalize. Eu nao sei. E você conte o que saberá…certo?

            Sabe nao vale falar em princípios para depois os nao perceber na dimensao concreta dos casos de vida que comenta.

            Levantei-me cedo.

          2. Nao se preocupe com minha saude.

            Diversas razões: vc preocupa-se com a minha saúde. Eu preocupe-me com o que vc diz.

      2. A verdade é alcançada no Direito, mediante o recurso aos meios e métodos de obtenção de prova previstos legalmente, deixando de lado muitos daqueles a que lançam mão os jornalistas. Logicamente se compreende tal facto, uma vez que as funções do intérprete e do aplicador do direito e do jornalista se desenrolam em campos diferentes e com objectivos diversos. Daí que, pretender que os factos devam ser vistos pela visão do jornalista, menosprezando a visão do aplicador do direito me pareça despropositado. Os jornalistas e a comunicação social terão como função precisamente informar, alertar, permitindo que os cidadãos formem convicções esclarecidas, mas não formar uma opinião pública uniforme de condenação pública de pessoas, com desrespeito pelas regras jurídicas que a eles não cabe aplicar e tentando sobrepôr-se a decisões judiciárias e judiciais. Impõe-se que as contradições, as dúvidas, as questões sem resposta relativas a processos judiciais que ganham relevância pelos seus intervenientes processuais sejam trazidas a público; não se impõe que as respostas sejam dadas através da usurpação de um poder que não cabe à comunicação social, julgar, proferir decisões, condenar, absolver…

  2. Caro Pedro,
    Fiz link deste post.
    Obrigado – e obrigado também pela excelente fotografia que escolheu para o ilustrar 🙂
    Um abraço.

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