“Não fizemos o que devíamos”


Pedro Correia,

 

Frases recolhidas de uma das entrevistas mais marcantes dos últimos dias:

 

–      “Era necessário reagir à pressão dos mercados mas, mais importante, garantir que fossem já lançadas reformas estruturais que asseguram um crescimento mais elevado.”

–      “Ao longo da última década não fizemos o que deveria ter sido feito. As exigências com que fomos confrontados ao aderir à moeda única não foram entendidas. O euro é uma moeda inspirada no marco alemão, com uma exigência na disciplina orçamental e fiscal, que não foi assumida pela nossa economia. Deveríamos ter sido mais rápidos ao longo da última década a fazer reformas estruturais que garantissem a competitividade da nossa economia.”

– “[A reforma do Estado] foi feita em alguns sectores mas não fomos tão longe quanto deveríamos ter ido.”

– “Se o endividamento e défice excessivos são resultado da falta de produtividade e competitividade da economia devemos resolver os problemas estruturais que estão por detrás desta situação.”

–      “A economia portuguesa, para resistir ao processo acelerado de integração económica que a Europa vai conhecer, tem de andar mais depressa.”

–      “É muito difícil o entendimento à esquerda do PS, mas admito que é indispensável o entendimento à direita para dar continuidade a um trabalho de ajustamento orçamental imediato e de ajustamento da economia às condições dos mercados.”

–      “Nesta fase de grande complexidade o consenso deveria ser uma imposição da própria sociedade.”

– “O PSD tem que contar com o PS. Sem o entendimento destes dois principais partidos (…) o País não conseguirá adaptar-se às condições muito exigentes com que estamos confrontados. Seria irresponsável que os dois partidos não trabalhassem numa agenda positiva.”

 

Palavras de um dirigente do PSD? Não. Frases proferidas por qualquer outro membro da oposição? Nada disso. São declarações ao Diário Económico do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado – o segundo membro da hierarquia governamental. O que diz tudo sobre o actual estado anímico do segundo Executivo Sócrates, empossado há sete meses.

15 comentários em ““Não fizemos o que devíamos””

  1. O Luís Amado está a dizer o que é óbvio e que Sócrates diz desde que foi eleito novamente em Setembro: só um governo de coligação com maioria no Parlamento consegue ultrapassar esta fase dificílima. E um governo de coligação só pode ser, nestas circunstâncias, o PS com o PSD. Mas parece que o PSD e o CDS não querem entender isso.

    1. “Esclarecida”, o primeiro-ministro é obviamente o destinatário da entrevista de Luís Amado. Se não houve coligação foi apenas porque ele não quis. Lançar a escada simultaneamente ao BE, ao PCP, ao PSD e ao CDS, como o PM fez para sacudir a água do capote, é o mesmo que garantir à partida que não haveria coligação alguma.
      O resultado está à vista: nada brilhante. Mas em relação a Sócrates já nada admira.

  2. Estas “marcantes” opiniões, é pena, mas encontram-se profusamente REPETIDAS, nos últimos anos, em blogs, Jornais, entrevistas, etc. Será que é marcante porque proferida por um membro do governo NO ACTIVO? O que é que este Sr. esteve a fazer durante os últimos 6 anos? Só descobriu isto agora? Huf, parabéns até que enfim. Tristeza. Sempre muito atentos, venerandos e obrigados, não é ?

    1. Estas opiniões da segunda figura do Executivo valem por isto: são um sinal claro de que o Governo está em desagregação, sete meses depois da posse. Parece-lhe pouco?

  3. Acho que são palavras honestas e sensatas, que não envergonham nenhum dirigente, nem são sintoma da apregoada desorientação do actual Governo.
    Reconhecer que aproveitámos mal os apoios comunitários, que não nos adaptámos bem nem a tempo à moeda única, não é novidade. Já o Guterres o tinha dito. Que as forças políticas à esquerda do PS são irrealistas, só estes, os irrealistas, o não reconhecem.

    1. Também acho que não são sintoma de desorientação do governo. Estas palavras assentam no que é óbvio e a desorientação do governo, sendo igualmente óbvia, prossegue e não assenta nestas palavras. Certo?

    2. Se Portugal aproveitou mal os fundos comunitários, não se adaptou devidamente ao euro e não fez as reformas que deviam ter sido feitas a culpa é de quem? Deste e de outros ministros que estão há anos no Governo ou de mim e de si que não estamos nem nunca estivemos lá?

      1. A culpa, a meu ver, é colectiva . Os Governos que temos tido foram escolhidos por nós, isto é, pela maioria dos portugueses. Teríamos quem fizesse melhor? Talvez, mas não se candidataram ou, se o fizeram, não foram convincentes?

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