Durante anos, o Campo Pequeno foi uma das zonas mais inóspitas de Lisboa. Um pouco como ainda sucede no Campo Grande, onde aquela que chegou a ser uma das mais populares piscinas da cidade permanece em ruínas, numa vergonhosa acusação à incompetência de sucessivos autarcas alfacinhas. Já para não falar dessa chaga ao ar livre que é o vasto terreno onde funcionou a Feira Popular.
Nada havia ali que chamasse ninguém: mal caía a noite, tudo aquilo se transformava num imenso deserto. Mas há poucos anos, com a abertura do centro comercial e a instalação de bons restaurantes em redor da secular praça de touros, o Campo Pequeno voltou a ganhar vida. E passou a ser um dos locais mais aprazíveis da capital.
Isto parece ter chegado ao fim. Por decisão do vereador José Sá Fernandes – o Zé que “fazia falta”, lembram-se? – foram retirados todos os resguardos em torno dos restaurantes que permitiam a qualquer pessoa jantar ali sem ser incomodada pelo vento. O resultado está à vista: ninguém consegue utilizar as esplanadas, assim desabrigadas, mesmo nas noites deste Verão tão incerto. Restaurantes da qualidade do Torricado, do chefe Luís Suspiro, que servia o melhor arroz de pato e alguns dos melhores pastéis de massa tenra de Lisboa, além do bacorinho assado no espeto que se tornara ex-libris da casa, parecem condenados a fechar as portas. Devido à obstinação burocrática do vereador, que já se havia distinguido por mandar arrancar as laranjeiras da Praça de Alvalade, transformando todo este espaço naquilo que hoje é: uma enorme placa de cimento.
Na sexta-feira, jantei lá com o meu amigo João Severino, autor da foto que publico em cima. Éramos os únicos clientes. Em perfeito contraste com a imagem publicada em baixo, anterior à absurda decisão do vereador que já se celebrizara igualmente como embargador-mor do túnel do Marquês. Parece sina dele: onde mexe, estraga. Ao contrário do que rezava a propaganda, não faz falta nenhuma.



De cada vez que regresso à ‘pátria’, depois de ocasionais escapadelas (em todo o caso, nunca comparáveis às do globetrotter que assina este post, que inveja), detenho-me metodicamente sobre este tema:
– O que é que existe em Portugal contra as esplanadas?!
Vamos por essa Europa fora, visitamos países com climas comparativamente mais inclementes, e o que é que vemos? O culto possível do ar livre, levado ao limite do fruível.
Pois por cá, jardim à beira mar plantado, a coisa é resumidamente inexistente, sebenta, ou então, impraticável. Chapéus da coca-cola, e é um pau. Melhor do que isso, só em ilhas de gosto, e são raras.
De resto, é o mesmo com os jardins, os espaços verdes, as floreiras em terreiro público ou os alegretes em domínio privado. Num clima como o nosso, o que vemos? Quase sempre árvores raquíticas, condenadas à morte a breve prazo; canteiros invadidos por pragas, num qualquer insulto botânico; raízes a rebentarem os passeios; ruas sem sombra; prédios desmazelados, sem um brio que seja.
Jamais compreenderei. A coisa comum não existe na Lusitânia. Só se for por decreto.
Hoje, mesmo assim, percebi mais um bocadinho: são os Zés deste país os culpados. Eles andam aos montes por aí.
Restam os arquipélagos. Felizmente, a Madeira e os Açores têm o culto das esplanadas. Não sei se é por falta de Zés ou por simples senso comum.
Os arquipélagos já estavam compreendidos nas ‘ilhas de gosto’… 😉
Não sei em que merda de terrinha é que vives (aposto que na capital do império da lusitânia) mas eu só frequento esplanadas, tenho uma oferta quase ilimitada, e estão sempre cheias e a abarrotar… No centro da minha cidade… e na marginal da minha cidade… e nas praias da minha cidade… Que não pertence a essa merda que chamas lusitania (que nunca existiu) mas sim que deu nome a portugal…
Não me lembro do nome da minha terrinha assim de repente. Burundi? E já estaria verde de inveja se não estivesse mesmo a ver as esplanadas que frequenta.
Hã claro…
O problema não é não haver esplanadas… Tu é que não gostas das que existem e claro não valem nada… Claro que as que eu frequento, não são para pessoas como tu…
Fica ai pela lusitania que eu vou continuar a usufruir das esplanadas da minha cidade, e continua a dizer mal que pode ser que ainda alguém te monte uma esplanada só para ti… no terraço da tua casa para poderes impedir gajos como eu de frequentar os sitios de que gostas…
Não preciso, a sério… tenho um guarda sol de colmo num cantinho do Nilo, água de coco, garrafas que me chegam regularmente com as notícias do dia e a companhia de uma fauna adorável que não diz asneiredo, nem quando os intrusos se aproximam e lhes limpam o sebo. De criar bicho são alguns humanos.
Laura, não te canses a responder a esta criatura. Não merece. E ainda por cima usa o nome de um dos nossos comentadores mais antigos, meu amigo, que seria incapaz de exprimir-se nestes termos. Estes anónimos, sempre tão valentões…
O que é que existe contra as esplanadas, Laura? Eu digo-lhe: falta dinheiro por baixo da mesa para quem fiscaliza e autoriza. Quando escorre… nunca há problema.
Tenho quase a certeza, João Severino… Não só, mas também.
A sucessão de patifarias que esse indivíduo tem feito à cidade de Lisboa indicia algum problema mal resolvido com a cidade, que manifestamente odeia.
Só para falar da zona onde moro, lembro os casos do triste encerramento da Praça das Flores aos residentes durante 3 semanas, a troco de não se sabe o quê de uma marca de automóveis, e do piso do jardim do Príncipe Real, onde não se pode andar em dias de vento, por causa do pé que se levanta, ou de chuva, porque tudo aquilo vira lama.
Quando é que Lisboa corre definitivamente com esse sujeito?
por causa do pó, é claro, embora também o pé não fique lá muito bem…
A mim parece-me, da leitura da notícia lincada, que o vereador tem toda a razão.
Os restaurantes só podem montar na praça as estruturas que lhes foram licenciadas. Não podem montar estruturas fixas, porque isso corresponderia a uma privatização da praça.
Se o chefe Luís Suspiro quer continuar a servir o seu excelente arroz de pato, compre ou alugue um espaço para instalar o seu restaurante. Não pode é estar a ganhar o seu dinheirinho à custa da privatização ilegal de um espaço que é público.
Ou a cidade de Lisboa é agora como a ilha de Faro?
Para informação de Luís Lavoura: o espaço circundante da Praça do Campo Pequeno pertence à Casa Pia de Lisboa que o concessionou à empresa administradora da Praça de Touros/Centro comercial. Nem a Câmara pode intervir nas esplanadas. A administração do Campo Pequeno até poderia edificar uma vedação circundante, no absurdo, obviamente.
Mesmo que o espaço pertença à Casa Pia, nenhum proprietário tem o direito de edificar na sua propriedade sem autorização camarária.
De qualquer forma, o conflito não é com a Casa Pia, é entre os proprietários dos restaurantes e a Câmara.
Explorar uma esplanada na via publica não implica o pagamento da respectiva licença à camara municipal? Em todo o lado é assim , e na cidade onde vivo o preço do m2 de esplanada às vezes é superior ao preço do m2 do edificio do restaurante. Os restaurantes não ocupam a via publica de borla. A CML faz-se pagar, e bem!
Esse Sá Fernandes é um imbecil, que devia ter sido responsabilizado plos 5 milhões de euros que custou o embargo do tunel do Marquês. Se fosse da direita andava há uma semana a abrir telejornais; mas como é amiguinho do Costa ninguem fala das aventuras do sr vereador.
Pague-se o que se pagar, só se tem o direito de fazer aquilo para que se está licenciado, e nas condições nas quais o licenciamento está redigido.
O que faz falta ao Zé é ir para a Coreia do Norte e deixar-nos em paz.
Há coisas que só num país terceiro mundista com vereadores medíocres e culturalmente indigentes.
Mas o Zé pode estar descansado, agora nem protecções de esplanadas, nem pessoas e, daqui a pouquinho, mais uns quantos empregados a engrossar as listas do desemprego. Porreiro, pá!
Para se informar melhor:
“O processo de licenciamento é um dos grandes ponto de discórdia entre as duas partes. Os advogados dos proprietários alegam que, estando os pedidos de licenciamento das esplanadas feitos há muito tempo, mas sem resposta, há “um acordo tácito” para o funcionamento das esplanadas. Mas, dizem ainda os proprietários, a câmara defende-se dizendo que a não-resposta aos pedidos é um “desacordo tácito” em relação a estes. “
http://www.ionline.pt/mobile/135058-espl anadas-do-campo-pequeno-havia-toldos-vei o-camara-e-levou-os
«O processo de licenciamento é um dos grandes ponto de discórdia entre as duas partes. Os advogados dos proprietários alegam que, estando os pedidos de licenciamento das esplanadas feitos há muito tempo, mas sem resposta, há “um acordo tácito” para o funcionamento das esplanadas. Mas, dizem ainda os proprietários, a câmara defende-se dizendo que a não-resposta aos pedidos é um “desacordo tácito” em relação a estes.»
Já tinha deixado aqui a ligação a essa notícia do i para maior esclarecimento dos leitores. Mas o Luís Lavoura, como de costume, escreve mais rápido do que pensa. É uma característica muito típica dele.
Posso pensar lentamente, mas pelo menos penso com a cabeça e não com as papilas gustativas. Do facto de a comida num certo restaurante ser boa não deduzo que esse restaurante esteja legal ou se deva manter.
E aplaude então o facto de um estabelecimento aguardar anos pelo respectivo licenciamento, como alegam os advogados dos queixosos neste caso? É a vitória da bur(r)ocracia camarária sobre a iniciativa privada, deixando largas zonas da cidade de Lisboa ainda mais inóspitas e despovoadas. A propósito deste caso, ficámos todos a saber que existe uma «Divisão de Qualificação do Espaço Público lisboeta». Com um conjunto de “critérios” que chega ao ponto de pormenorizar os tamanhos e os modelos das mesas, cadeiras e floreiras ao centímetro quadrado. Segundo noticiou o jornal i, os critérios estendem-se às toalhas de mesa (“de cor única e sem motivos ou padrões decorativos”), cinzeiros “compostos por matérias de qualidade e monocromáticos”) e permitem que as mesas possam ser “dotadas de porta-guardanapos em aço inox e sem publicidade”.
Fantástica, esta bur(r)ocracia alfacinha que você aplaude. Esta bur(r)ocracia que nada facilita, nada cria: só entrava e atrapalha.
Não aplaudi burocracia nenhuma. Também não aplaudi qualquer demora em qualquer licenciamento. Muito menos aplaudi os detalhes quando às floreiras e às toalhas de mesa.
Apenas disse que quem faz contrato com um senhorio – que neste caso é a Câmara Municipal de Lisboa – sujeita-se às regras desse senhorio. Se não estiver contente com essa regras, há muitos outros potenciais senhorios. Não faltam espaços em Lisboa que podem ser arrendados para a instalação de restaurantes. Os contratos são para ser respeitados, sempre. Se o senhorio diz “não pode instalar tal e tal no espaço arrendado”, então o inquilino, ou obedece, ou vai-se embora procurar senhorio mais transigente.
Andar a instalar coisas no espaço público sem permissão da Câmara é inadmissível. (Aliás, mesmo se o espaço fosse privado, quaisquer obras que alterem a fisionomia exterior requerem autorização camarária.)
“Quaisquer obras que alterem a fisionomia exterior requerem autorização camarária.” Palavras suas. Nem parece que Lisboa é a capital das marquises: milhares de horrorosas marquises que são pura poluição visual – praticamente nenhuma delas construida mediante prévia “autorização camarária”.
A prioridade do Zé-faz-falta, depois de mandar abater as laranjeiras da Praça de Alvalade, é agora combater uma zona da cidade enfim revitalizada graças à iniciativa privada.
Como se a burocrática câmara de Lisboa não tivesse inúmeras chagas públicas às quais pode e deve dar prioridade. Quando devia ter a prioridade oposta: contribuir para dar vida a inúmeras zonas da cidade que estão mortas e onde os escassos residentes não se atrevem a sair de casa após o pôr-do-sol. Era assim o Campo Pequeno há poucos anos. Sei bem do que falo.
També havia “acordo tácito” na ilha de Faro e noutros locais, onde privados construíram ilegalmente?
Sejamos claros, aquele espaço não é propriedade dos donos dos restaurantes, eles não podem fazer lá nada com base em acordos tácitos. Em qualquer contrato de arrendamento ou de concessão, só se pode fazer aquilo que quem concede esse contrato autoriza.
Um post excelente. Boa, Pedro. Esse vereador já era, porque nas próximas eleições deverá ir trabalhar para uma Etar…
Este vereador não fazia falta nenhuma a Lisboa, João. Como está cada vez mais à vista.
Absolutamente nada, Pedro. E já consta que há coisa grave para sair sobre a verdade da Feira Popular…
Para já, nos terrenos da antiga Feira Popular, só vejo ratazanas. Algumas são do tamanho de gatos.
São as amigas do vereador, tipo aquelas que bufavam ao PS os segredos do BE…
Caro Luís Lavoura: Ignoro detalhes. Terá havido alguma tentativa de negociação? Sei que não se pode dispor do espaço público à toa, mas a verdade é que me revejo nas palavras do Pedro: o Campo Pequeno era uma praça infrequentável antes daquelas simpáticas esplanadas se terem instalado à volta da praça de touros. Tenho pena de ver regressar uma zona tão central da cidade à tristeza que sempre a caracterizou. Um pouco de flexibilidade quando está em jogo um interesse comum – o da animação, usufruto e até segurança da cidade – não faz mal a ninguém.
pode até ter razão, sobre a actuação do zé fernandes, mas as duas fotografias que apresenta são daqueles exemplos para comparar a noite com o dia.
ó homem, mostre lá duas fotografias de dia ou duas fotografias de noite, com e sem tendas, que assim se calhar já dá para a gente comparar.
Como refiro, a foto de cima foi tirada à hora do jantar da passada sexta-feira, uma noite de Verão. O cenário desolador da foto diz tudo: a decisão do vereador afugentou os clientes deste e de outros restaurantes. Não admira que fechem as portas a curto prazo, levando mais algumas dezenas de pessoas ao desemprego.