Não é sobre vacinas


Paulo Sousa,

Todos os casos que têm acontecido à volta da administração das vacinas são exemplificativos de um fenómeno mais alargado a que podemos classificar por pequena corrupção.

O maior motor da pequena corrupção é a escassez. Arrisco-me a afirmar que a grande corrupção terá outros motivos.

A maior parte dos tráficos ilegais desenrola-se e floresce à volta da pobreza. Neste caso tratam-se de vacinas que estão a chegar a uma velocidade inferior às necessidades e às expectativas criadas, mas podíamos estar a falar de um contrato que viabilizará uma empresa em dificuldades, ou de um emprego que estabilizará as finanças de uma família. É fácil que a necessidade fale mais alto do que outras questões morais ou legais. O pequeno favor vindo do chefe de secção, do encarregado pelas compras, do decisor do concurso público, do fiscal, ou de outra figura que tem um ascendente circunstancial, pode acabar por ser a solução para os problemas imediatos. Quem está nessa posição tem consciência disso e é fácil que aceite o jogo que afinal o coloca numa posição de poder.

Se não houver nada para dar em troca, e não me refiro apenas a bens materiais, então fica-se devedor de uma obrigação. No futuro uma outra pequena prevaricação entrará a crédito na respectiva conta-corrente. E essa é afinal a palavra que usamos para agradecer, fico-lhe obrigado.

Esta é a lógica que explica a pequena corrupção. A pobreza ancestral do nosso país, somada à falta de expectativas de crescimento económico (no século XX só houve crescimento económico efectivo nos anos 60 e na segunda metade dos anos 80 e 90) explica, e resulta, da colonização do estado por gente que quer fazer pela vida. As alternativas são escassas e a famosa mão invisível impele os indivíduos a maximizar o seu bem estar. A sobre-dimensão do estado, com a sua teia de esquemas de esquinas arredondadas, resulta e promove a estagnação. É um ciclo que se auto-alimenta.

O que está a acontecer devido à falta de vacinas é rigorosamente o mesmo que acontece com a riqueza do país. Como o bolo é pequeno, todos lutam por migalhas. Se o bolo fosse maior, todos poderiam ambicionar por mais. Daí a necessidade do crescimento económico que, já vimos, não se resolve por decreto, mas sim e apenas se houver condições para atrair investidores. Com a nossa estrutura etária, não será possível financiar um SNS sem crescimento económico. Também por isso, é necessária uma abordagem diferente.

Crescimento económico, acompanhado por uma educação ministrada pelo exemplo de quem exerce cargos públicos, levar-nos-ia a um patamar superior de salubridade social, mas para isso precisamos de uma mudança, não só de políticas, mas de pessoas. Fernão Lopes, nas suas crónicas da crise de 1383-85, refere-se ao levantar de uma “nova geração”. É disso que precisamos. É necessário atrair para a política gente da sociedade civil, desligada do pântano em que nos encontramos.

19 comentários em “Não é sobre vacinas”

  1. A maior parte dos tráficos ilegais desenrola-se e floresce à volta da pobreza.

    É verdade, a pobreza é o ambiente de fundo, mas creio que há componentes mais activos — exemplos de batota que vêm de cima, do desporto, do municipalismo: é o próprio regime e a sua forma de funcionar dá poder aos “chefes” da função pública.

  2. Além disso, parece-me que a falta de ética não vem da miséria — vem do clubismo. Quando as pessoas se congratulam por ganhar com batota, no desporto ou na política… Os dirigentes políticos, administradores públicos, construtores civis e dirigentes desportivos não se confundem uns com os outros e não passam com facilidade de uma coisa para a outra? Isso acontece porque a sua ética e a sua maneira de funcionar é a mesma.

    1. Os exemplos do desporto-rei são péssimos, mas na antiga Roma não eram melhores. Digo isto por acreditar que, mesmo demorando mais do que o tempo que nos é dado a cá estar, o futuro será melhor.

  3. Concordo, Paulo. É tema muito estudado- pobreza implica maiores índices de corrupção. Grandes assimetrias sociais também (e aqui entra um novo conceito, o da pobreza relativa. Ou seja, o sentir-se pobre). Porém há outros factores. Uma ambição desmedida, que justifique todos os meios, já que vivemos num mundo onde o importante é vencer. Direi que noutros países bem mais abundantes tem havido também essas vacinações indecorosas.

  4. A incompetência dos quadros superiores da máquina administrativa do Estado está a vir ao de cima. Ele é no Ministério da Saúde, ele é na Segurança Social, ele é na Administração Interna, em todo o lado. Tudo ou quase tudo gente do PS, alcandorada a níveis para os quais não têm competência.
    O caos das ambulâncias no Hospital de Santa Maria, é um bom exemplo da incompetência reinante: os responsáveis pelo encaminhamento de doentes demitiram-se das suas funções; as ambulâncias a chegarem aquele hospital sem qualquer triagem; os Centros de Saúde, preparados para atender urgências, fora do sistema; dezenas e dezenas de camas do Hospital, ocupadas com doentes que com alta, impedindo internamentos de casos graves; enfim, o caos.
    Mas a malta do INEM já estava toda vacinada, em 3 centros que criaram no país, para onde foram encaminhados, alguns percorrendo distância enormes, quando estavam a fazer falta nas suas bases. Não é so corrupção, é spbretudo incompetência.

    1. A nomeação de cargos por confiança política são uma das maiores ameaças a um funcionamento decente do país.
      Há dias falei aqui sobre o gestor do NHS britânico, que responde perante o parlamento e não perante o governo, e que tem um cargo que continua mesmo quando o governo cai.
      Até em Itália, que é Itália, no topo dos serviços dos estado estão técnicos que asseguram o serviço apesar dos trambolhões da política.

  5. Foi mesmo isso que disse ao ouvir hoje, mais uma vez, a telenovela sobre vacinas. às instituições, através dos seus membros, caberia, neste como noutros casos, ser exemplares. Mas não acontece. Ou acontece cada vez menos. Há um desfasamento entre a democracia que se apregoa e a prática que se constata a olho nu. E, curiosamente, esta é, em grande parte, uma geração que Abril criou. Onde foi que nós, os de antes, falhámos. Porque foram educados por nós.

  6. O poder corrompe. Característica inseparável da natureza humana. Está bem relatada vai para milénios. O poder absoluto corrompe absolutamente.
    A única forma de mitigar o abuso de poder -político ou outro- é, ou à força, com regras e forte supervisão na estrutura social, ou atravéz de uma cultura cívica na qual as religiões têm um papel significativo.
    O poder político -e os seus pontenciais abusos- pode ser mais ou menos controlado de acordo com a Constituição em vigor num País.
    “Novas gerações” só por si, mantendo a mesma estrutura social -constitucional e cultural- não resulta pois estas rapidamente continuarão a proceder como aprenderam, sendo a corrupção um dado cultural. Só as moscas mudam.

  7. Subscrevo o seu post. É de facto uma triste sina esta. Os mecanismos que geram corrupção são no entanto muito distintos. Penso que há a ideia geral (e acertada) de que as instituições não funcionam, e muitas vezes a corrupção surge como uma manifestação de amizade (ou de poder). Arranjar uma consulta no hospital, passar à frente o processo na segurança social, inscrever os filhos na escola da preferência. Penso que se as instituições funcionassem de facto este tipo de corrupção tenderia a desaparecer. Agora o outro tipo de corrupção, como tomar as vacinas destinadas aos idosos, desviar os fundos dos incêndios para construir casas de férias, parece-me estar mais relacionada com a total ausência de critérios morais e é mais difícil de compreender. Quanto aos políticos, muitas vezes me pergunto se não estivessem na política serviriam exactamente para quê? A total impreparação de uma grande parte dos deputados (com honrosas excepções) entra pelos olhos a dentro.

    1. A ausência de critérios morais que refere, não pode ser desligada do sentimento de impunidade. Quem prevarica é esperto e habilidoso e merece a nossa admiração. O nosso PM faz da habilidade uma imagem de marca.
      Só poderemos aspirar a algo mais se mudarmos os protagonistas.

      1. É verdade. Eu abomino o Costa e essa sua habilidade. Mas não me posso esquecer de que ganhou as eleições e continua a liderar as sondagens. Isso só se explica tendo em conta que uma grande parte dos portugueses prezam o seu Chico-espertismo. Ou de que são tão miseráveis que os tostões a mais no salário ou pensão fazem a diferença no seu voto. É sem dúvida preciso mudar. Este governo foi mais longe que qualquer outro no descaramento e impunidade. Ajudado por uma comunicação social subserviente.

        1. ” Ou de que são tão miseráveis que os tostões a mais no salário ou pensão fazem a diferença no seu voto”
          Eu procedo ao contrário: e votaria Passos Coelho porque ele reduziu substancialmente a minha pensão de reforma.

          1. Após todas a reposições que este governo de bacanos levou a cabo, imagino que já tenha voltado a receber o valor idêntico ao que anteriormente recebia.
            A redução do valor da sua e de outras transferências mensais foi imposta pela Troika. Ainda ninguém me explicou porque é que chamaram essa gente, mas isso agora não importa.
            Olhe para a dimensão da nossa dívida, e se tiver herdeiros, lembre-se que o valor que recebe mensalmente é um empréstimo que eles lhe estão a fazer.

    1. O crescimento económico que se exige tem, no entanto de ser acompanhado de uma valorização das instituições, com especial relevo da justiça. A impunidade corrói a nossa relação com a sociedade, roubar-nos a esperança e deforma a moral das gerações mais novas.

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