Não compreendem


José Meireles Graça,

A Câmara Municipal de Lisboa é um lugar mágico: Foi ali que, numa manhã gloriosa de Outubro de 1910, José Relvas proclamou a República a meia dúzia de basbaques, feliz iniciativa que o telégrafo se encarregou de comunicar ao resto do país.

O novo regime veio garantir que o Poder Moderador não mais seria exercido por quem derivasse a sua legitimidade de ser filho de seus pais, mas antes por uma litania de filhos da mãe, e que a bandeira do país “modesta e grave, como convém a quem viu tanto perigo e tanto mar”, seria substituída por uma pletora de símbolos e cores inspiradas nas bandeiras de países africanos ainda por nascer.

O lugar de presidente da Câmara do, na opinião dos locais, concelho mais importante do país, viria a ser do maior relevo. E, em nossas vidas, vimos dali sair para a presidência da República vultos como Sampaio, autor dos mais entediantes e esquecíveis discursos que a banalidade militante já produziu, ou para a presidência do Conselho de Ministros Santana Lopes, um conhecido apreciador de peças musicais que nem os respectivos autores reconheceriam, e António Costa, uma desgraça palavrosa e vácua que detém a suprema habilidade de convencer os magistrados da opinião de que nutre para o país outra ideia que não seja a sobrevivência do vasto exército de clientes que sentou à mesa do Orçamento.

Pois bem: quem hoje ostenta o colar de mayor é um tal Medina, que se distinguiu por beijar o chão que o seu antecessor pisava com as nédias patas e que, de um início tímido feito de discursatas de circunstância, desabrochou num atrevido político de mão cheia ao qual se augura um risonho futuro, na hipótese de no país haver condições para continuar a progredir o retrocesso.

Pois este portento teve a ideia (não me foi possível até ao momento apurar se original ou copiada de outras paragens progressistas) de pintar de cores garridas o piso de certas ruas lisboetas. Entrevistados pelas televisões, os locais dizem coisas, como é costume os locais dizerem, um achando que o azul era adequado à próxima vitória do FCP e outro que discordava daquele tom de verde; e nas redes sociais instalou-se a polémica. Há quem lembre que aquelas tintas vão poluir (com o atrito do trânsito a pintura vai à vida e as partículas alojam-se algures, esperando-se todavia que não nos pulmões dos senhores edis), que a manutenção vai custar uma pipa de nota, que isto beneficia o comércio ou que pelo contrário o prejudica, que a ideia é muito bonita ou horrível.

Neste artigo explica-se vagamente o que vai na cabeça destas luminárias municipais e percebe-se que as horrendas pinturezas fazem parte de um quadro mental que inclui ciclovias, proibições de trânsito automóvel, diminuição de lugares de estacionamento, promoção de uma vida saudável e “mudanças de comportamento a longo prazo”.

“A ideia da cor é só para delimitar o espaço, marcá-lo para que as pessoas saibam que, agora, podem andar no meio da rua. Sem constrangimentos. O alcatrão não proporciona essa segurança. Além disso, a tinta é autonivelante, o que facilita a estadia em esplanadas’, explica o gabinete do vereador Miguel Gaspar”.

(Fui ver, por curiosidade, quem era este Gaspar, confiante em que se tratava de um dos dementes do Bloco. Não, é oriundo das mesmas coudelarias do Presidente).

Que pensar?

A discussão é surpreendentemente mansa. Quarenta anos de socialismos sortidos tiveram este resultado: É possível uma manifestação para “lutar” pelos direitos da comunidade LBGT (o “T” é de turbo, salvo erro), ou dos pretos, ou dos palestinos, ou dos imigrantes, ou dos cães e gatos abandonados, ou dos brasileiros que Bolsonaro oprime, ou dos brancos que oprime Trump. E, não há muito tempo, dos reformados, dos desempregados, dos empregados explorados, das vítimas da austeridade e de todo o cidadão que odiasse Passos. Manifestações de ofendidos pela prepotência das mudanças e em nome dos legítimos interesses prejudicados, isso não. A Câmara é de esquerda, é do povo, e o povo não se manifesta contra si mesmo, não é verdade?

Números: Os números estão ausentes, seja quanto custam estas frescuras, seja a quem foram adjudicados os trabalhos, por quanto e de que forma, quanto tempo se aguentam as obras sem necessidade de renovação, e quanto custará o reforço do policiamento (se a Câmara pinta para se publicitar, os artistas de rua também quererão enriquecê-las pelo efeito de lhes imprimir, pintando, as suas mensagens para o mundo cruel e injusto).

Trânsito: A ideia de que, numa cidade como Lisboa,  onde se está sempre a subir ou a descer, salvo para quem se deslocar ao longo da frente ribeirinha e de mar, e onde há muito mais velhos do que jovens, se pode significativamente substituir o transporte automóvel por bicicletas, releva de delírio. E como, para o automóvel que vai sendo perseguido e acantonado, não se criam alternativas de transporte colectivo (nem se criarão: borrar umas ruas e expectorar uns discursos e palpites não tem o mesmo grau de dificuldade que criar uma rede de transportes eficiente) do que estamos a falar é de um crime de moda de pensamento moderninho.

Prognóstico: Os munícipes, de Lisboa e dos outros concelhos, não costumam fazer a ligação entre o custo de obras e o que lhes sai do bolso. Isto decorre da opacidade do sistema fiscal e das contas dos municípios, das transferências de subsídios da UE (com frequência disponíveis apenas para fantasias), da falta de rigor da gestão financeira (ainda que empalideça em confronto com o regabofe do poder central), e da isenção de IRS para mais de metade dos contribuintes. Se o munícipe acha que são os outros que pagam, haveria de preocupar-se com o custo porquê? Não preocupa. E assim Medina, e os outros medinas todos que enxundiam o país como uma praga de gafanhotos, têm de fazer. Fazer o quê? Qualquer merda, desde que pareça progresso. A comunicação social, um vasto depósito de patetas de cujas cabeças está ausente qualquer ideia séria e comedida de respeito pela coisa pública, que foi substituído por concertos, trincas e mincas da política caseira, ideias gerais sobre tudo, e sobretudo erróneas, além de piolhos e lêndeas, faz o resto. De modo que as ruas pintadas vieram para ficar, até serem substituídas por outro disparate.

Estética: O alcatrão é preto, o granito cinzento. Alterar a cor tradicional é uma ideia anti conservadora porque o conservador acha que a tradição não tem de ter imutabilidade, mas a sua alteração deve ser justificada com as vantagens, sob pena de gratuitidade. O espalhafato, o berrante ó-pra-mim, o mudamos porque sim, são pirosos. E a quem assim não entenda a demonstração não pode ser feita porque não a compreenderia. Medina e os outros, claro, são desses – não compreendem.

5 comentários em “Não compreendem”

  1. A Câmara de Lisboa até está bem gerida se não se encontra mais nada de que falar que não a cor dos pavimentos.

    “O novo regime veio garantir que o Poder Moderador não mais seria exercido por quem derivasse a sua legitimidade de ser filho de seu pais, mas antes por uma litania de filhos da mãe, e que a bandeira do país “modesta e grave, como convém a quem viu tanto perigo e tanto mar”, seria substituída por uma pletora de símbolos e cores inspiradas nas bandeiras de países africanos ainda por nascer.”

    No caso dos monárquicos portugueses ao que sei propõem para rei um descendente de alguém que foi corrido do país depois de provocar uma guerra civil. Das duas uma: ou os homens nascem iguais e qualquer um pode ser chefe de estado, ou herdam as qualidades dos seus antepassados e há aí uns 10 milhões de portugueses com melhores antecedentes.

    A diferença entre bandeiras monárquicas e republicanas, além da exclusão da coroa é a cor do fundo. A modéstia parece a mesma. Aliás parece-me tolo combinar modéstia e um regime que é dirigido por alguém que se julga superior aos outros, não pelo que fez mas pela mãe que teve (os pais são tradicionalmente incertos na monarquia)

    1. “No caso dos monárquicos portugueses ao que sei propõem para rei um descendente de alguém que foi corrido do país depois de provocar uma guerra civil”
      Realço “ao que sei” porque demonstrou que pouco ou nada sabe. E vem de longe a constatação de que a ignorância é atrevida.

      “e há aí uns 10 milhões de portugueses com melhores antecedentes.”
      “(os pais são tradicionalmente incertos na monarquia)”
      Ofensas gratuitas surgem vulgarmente de ressabiamentos pessoais. Será talvez não incerto mas desconhecido?

      “A diferença entre bandeiras … … é a cor do fundo.”
      “(…) “contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se”.
      Fernando Pessoa em “República”

      1. D. Miguel o Ursupador, ao que sei.

        Não tenho nada pessoal contra o pretendente que só conheço de ver na televisão (talvez o bigode – parece uma morsa). Seria capaz de votar nele para presidente. Não considero é que ser um descendente de D. Miguel, de D Maria I e de Carlota Joaquina seja recomendação para chefe de estado, ou para coisa nenhuma.

  2. Como sempre digo: fujam de Lisboa, é cidade que atraí os tiranos.

    É a fatalidade de Lisboa pois precisam de mostrar fazer qualquer coisa para aparecerem nos jornais e TV’s e assim poderem ser Primeiros Ministros.

    A cultura da Camara de Lisboa é semelhante à DGS/Governo a “lutar” contra o COVID. Não interessam os factos, mas sim o valor das aparências.

    ——-
    “…na hipótese de no país haver condições para continuar a progredir o retrocesso.”

    hehe

    lucklucky

  3. A cor dos pavimentos é uma estratégia altamente pensada para contrariar as alterações climáticas.

    É necessário realçar que esses pavimentos não são simples pinturas, mas frescos.
    Desde modo os frescos estão aí para nos trazer a frescura do céu, a frescura das hortaliças e todo o tipo de frescura que se possa imaginar.

    Em época de covid, devido ao uso das máscaras que impedem contactos com lábios opostos, eu prefiro dar umas beijufas num pescocinho de gazela a andar a pisar frescos. Há 2 dias dedicava-me a este desporto e descobri repentinamente que era o mesmo que beijar as teclas de um piano. Pois à medida que meus lábios subiam e desciam por aquele pescocinho de gazela, dei-me conta que saiam umas notas melodiosas dos lábios mascarados.

    Tem esta nota o propósito de vos informar que nasceu um maestro e a nação ganhou um elemento dedicado às artes da musicalidade.
    Congratulai-vos com as claves de sol que pairam sobre esta nação.

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