Quem acompanhou o dia eleitoral norte-americano apenas pelo principal serviço noticioso da SIC, ficou certamente estupefacto ao acordar na manhã seguinte com a notícia de que Donald Trump tinha sido eleito Presidente dos Estados Unidos. Nada – mesmo nada – do que aquele canal mostrara no seu Jornal da Noite indiciava algo diferente de uma vitória clara de Hillary Clinton.
No momento em que milhões de norte-americanos votavam nele, Trump foi apresentado aos telespectadores portugueses como uma irrelevância condenada ao fracasso – tom que prosseguiu madrugada adiante no canal de notícias da SIC, onde era quase impossível distinguir opinião de factos entre tanta reportagem “editorializada”.
Vale a pena mencionar exemplos concretos.
Logo a abrir, o Jornal da Noite visitou um concorrido local de voto em Manhattan. Espantosamente, segundo garantiu o repórter, todos puxavam para o mesmo lado: “Uma longa fila de eleitores onde, por acaso ou talvez não, não encontrámos ninguém que fosse votar Donald Trump.”
Nos depoimentos recolhidos entre esses eleitores, tudo a preto e branco: ele intolerável, ela extraordinária.
Sobre o candidato republicano: “péssimo”; “execrável”; “vergonhoso”; “louco”; “odeio Trump”.
Sobre a candidata democrata: “É a pessoa mais inteligente, mais bem preparada; “É a mais inteligente, a mais qualificada”.
Noutro ponto de reportagem, com outra equipa no terreno, a SIC manteve a nota: “Têm sido óptimas notícias para Hillary Clinton, estas últimas sondagens”; “Consegue a Florida, tudo parece muito bem encaminhado”; “O que temos vindo a ver é que ela pode até superar o recorde de Barack Obama no que diz respeito à participação dos hispânicos”; “Ela tem vindo a construir a sua muralha azul”.
Um cenário idílico para a candidata democrata, pois. Cenário que nunca foi posto em causa ao longo de todo o serviço noticioso.
20.08: “As pessoas parecem querer votar contra a América que Trump propõe: uma América muito extremada, muito anti-imigração, muito xenófoba, muito anti-semita. Hillary pode ter feito a sua jogada no sentido de não alienar minorias porque a América é um país de minorias que daqui a 30 anos serão maiorias e creio que o Partido Republicano vai pagar cara esta alienação de votos dos hispanos e sobretudo dos afro-americanos.”
20.56: “As sondagens apontam para que o cenário mais provável seja a vitória de Hillary.”
21.00: “Eleitores queixaram-se de que estão a ser intimidados por apoiantes de Donald Trump.”
Já bem depois da meia-noite, no canal de notícias, ainda a reportagem in loco da SIC transmitia aos portugueses a noção de que “ele [Trump] talvez tenha alguma razão para estar nervoso”.
Como os resultados demonstraram, não podia ser maior a discrepância entre a realidade e o quadro que a SIC pintou. Sem matizes, sem contraditório, sem um assomo de dúvida que pudesse abalar tantas certezas preconcebidas.
Opinião a mais, factos a menos. Não basta querer – ou crer – para acontecer.
Hillary acabou por ser derrotada: a “muralha azul” só existia na propaganda.
Este jornalismo destituído da elementar noção do equilíbrio também perdeu.

![150904-hillary-clinton-5-gty-629[1].jpg 150904-hillary-clinton-5-gty-629[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2016/20040493_fQrOF.jpeg)
A mistura habitual de ignorância,arrogância e irremediável provincianismo.
Que dá a ideia exacta daquilo que pensam em quanto aos eventuais masoquistas que os vêem/ouvem…
A SIC amarrou o seu destino nesta campanha ao de Hillary Clinton. Os resultados estão á vista.
“quanto aos”…
Mea culpa.
Eu segui a CNN com o Anderson Cooper e o Wolf Blitzer e restante equipa.
Creio que por volta das 3 da manhã o Wolf Blitzer debitava actualizações com a voz embargada. Penso que por essa altura, já temia que o pior se concretizase. Desliguei a TV com um mau pressentimento e por volas das 6:30h constatei que pressenti bem o mal.
Fiquei sentia a olhar e a pensar em que espécie de sonambulismo caiu os EUA. Dar a um arruaceiro espertalhão o poder de brincar de Deus, não é apenas mandar o establishment às urtigas, não é o mesmo que o ver armado em semideus no Aprendiz, a proferir o célebre ” you’re fired”. Isto é a sério e muito sério, ou doravante a vida vai passar a funcionar num interminável 24/7 reality show ?
Hope the next time he says “you’re fired” the fire won’t be of the nuclear kind…
Também segui a emissão da CNN noite fora e madrugada adiante. Seguindo aliás um ritual que iniciei em 1988, acompanhando a corrida eleitoral entre George Bush (pai) e Michael Dukakis.
Continuo a admirar na CNN a separação escrupulosa entre notícia e comentário – pedra angular do jornalismo. No comentário, como é óbvio. não faltaram as mais duras críticas a Trump. “É um pesadelo”, desabafou Van Jones, um dos principais analistas políticos da estação, dando voz a milhões de norte-americanos.
Como os jornalistas não são máquinas, entendo bem a voz quase embargada do Wolf Blitzer. Tal como fixei o esforço de Walter Cronkite para não ceder à emoção no momento em que divulgou ao país – aos microfones da CBS – que o Presidente Kennedy fora assassinado.
Mas a regra número um da comunicação social enquanto serviço público mantém-se: as opiniões são livres, os factos são sagrados.
Posso pensar o pior de Trump – e penso. Mas acho inaceitável o tratamento jornalístico que ele mereceu da SIC na noite eleitoral.
Acredito piamente. É por isso mesmo que raramente vejo a SIC. Os noticiarios, raramente são isentos. Emissões como estas noite afora com convidados enciclopedicamente irritantes fazem-me alergia.
Eu vejo a SIC. E continuo a elegê-la como meu canal preferido de informação. Daí a minha decepção ser maior quando falha em toda a linha, como agora aconteceu.
Gosto mais da SIC Notícias. É menos condicionada. Mas isto sou eu, claro.
Eu também. Quando refiro SIC já abrange a SIC N também. Até porque muitos noticiários são comuns hoje em dia.
Gosto de ouvir o Miguel Sousa Tavares à segunda-feira. E alguns outros.
Caro Pedro:
Quem não sabe expressar-se correctamente na sua língua muito dificilmente pensa bem ou poderá ser bom profissional.
E a SIC, nessa matéria, nunca nos surpreende: é a «bombar» calinadas todos os dias e a todas as horas.
Sabe se eles têm Provedor do espectador a quem nos possamos queixar?
Cumprimentos.
(Manuel Silva)
Tanto quanto sei não têm, caro Manuel. Nem do espectador nem do “espetador”.
Continuo a admirar na CNN a separação escrupulosa entre notícia e comentário
Consta que em 1991 a CNN fez uma figura vergonhosa na transmissão da 1ª guerra do Iraque. Basicamente, transmitiam acriticamente (ao que se diz) todas as informações do militares norte-americanos. Talvez a admiração que o Pedro manifesta pela CNN devesse ser moderada em certas ocasiões.
(Eu não sei, porque não vejo a CNN.)
Você insiste em pronunciar-se sobre aquilo que não conhece.
Eu não me pronunciei. Eu apenas referi aquilo que algumas outras pessoas disseram sobre a cobertura que a CNN fez da 1ª guerra do Iraque. Talvez o Pedro tenha visto essa cobertura e se queira pronunciar sobre ela?
Comecei a ver a CNN em 1989, quando a estação fundada por Ted Turner fez um trabalho exemplar na cobertura da agitação política na China que culminou no massacre de Tiananmen. Com raras interrupções, foi-me servindo sempre de referência na cobertura dos grandes acontecimentos internacionais.
Também na Guerra do Golfo, sim. Foi aliás a única cadeia de TV americana que manteve durante todo o conflito um repórter em Bagdad, Peter Arnett, permitindo estabelecer o contraditório com a versão dos acontecimentos a partir da capital do Iraque.
Eu segui noite dentro o Peter Arnett e o “fogo de artifício” que tinha como pano de fundo. Se algumas outras pessoas me contassem que ele estava no bar a tomar Martinis, talvez , como pessoa do contra, acreditasse que aquilo tudo foi mau jornalismo e uma lástima tendenciosa.
Mas isto sou eu, que tenho a mania de tentar conhecer a realidade das coisas (percepcionada através dos meus sentidos, os tais que ajudaram a formar a minha personalidade) antes de tecer comentários sobre as mesmas.
Antigamente na escola, algumas outras pessoas contavam que Salazar olhava por nós…
Agora temos alguns canais de televisão a “olhar por nós” e a meterem-nos na cabeça a narrativa simplória dos bons e dos maus, forçando-nos a gostar de X e a detestar Y.
Vivemos na era da TV a cores mas parece que regressámos aos tempos do preto&branco.
Por alguma razão CNN = Clinton News Network
É só ver as notícias que não passaram na CNN. Para começar a violência política.
Só vão noticiar quando existir resposta
A CNN foi fundada em 1980, existia muito antes de Clinton, que só chegou ao poder em 1993.
É continua a existir muito depois de Clinton.
Curioso dizer isso de Trump, quando o nosso Presidente foi eleito pelos anos que passou na televisão a debitar o que lhe diziam (o seu amigo Ricardo Salgado está bem agradecido, PT, BES…) e a opinar pensando que sabia tudo. Tanto que já foi enganado na lei dos vencimentos da caixa, é o o problema da malta de advocacia, fala, fala, ouve, fala, fala, fala sobre o que ouve, já é expert do que ouviu e agora debita.
Eu sobre Trump só sei que nada até ao momento me faz simpatizar com a personagem. Acontece no entanto que acaba de ser eleito Presidente da maior economia mundial. E nada, numa estação de referência como a SIC, me esclareceu até hoje sobre os méritos do senhor e das propostas que apresentou aos americanos – e acabam de ser sufragadas.
Algum mérito há-de ter. Esta vitória não pode resultar só da experiência mediática do magnata nem da simples vontade de “mudança” dos eleitores.
Essas são as explicações simplistas, que pouco ou nada explicam. Daí eu achar que ficou até agora uma história muito interessante por contar. Um relato jornalístico de que a SIC abdicou para se concentrar na redução de Trump à caricatura e à anedota, enquanto apoiava a candidata derrotada.
Ter um presidente não enciclopédico mas conhecedor e opinativo, é um privilégio só de alguns, os que reconhecem o mérito e a rectidão.
Dizia o meu bisavô que há comparações tão absurdas, que são como comparar o traseiro a erva de cheiro. A sua é uma delas. Deixo aqui a outra, um excelente momento cultural e de teor argumentativo digno dos melhores comentários.
https://youtu.be/AiZqFGLAeAc
Também considero um privilégio. Um dia mais tarde todos lembraremos com saudade este tempo com MRS em Belém.
Se calhar o seu bisavô não era o sábio que pense que ele era.
Infelizmente o nosso presidente já não pode ir com o seu amigo para o Brasil, hoje em dia fica mal.
PT a empresa mais elogiada pelo Sr. Presidente se calhar por ter metido lá o seu filho através do seu amigo.
A pessoas que têm memória curta, outras nem têm.
A comparação faz sentido, pois se não tivesse a enchido as televisões durante cerca de 15 anos teria alguma dúvida que não teria sido presidente? De modo similar assim foi Trump.
(Isto não quer dizer que haja alguém perfeito e que MRS não era o melhor candidato)
Como lhes chamava aquele poço de limpidez, esclarecimento e sabedoria popular que foi o meu bisavô?
Anteolhos!!! É isso mesmo.
Provavelmente o Sr. 1º Ministro também não quis ficar para trás e eis – lo uma porr@da de anos na Tv a apimentar a Quadratura dita do Círculo. E, para não fazer feio, dado que a academia foi a mesma, também ele falou, ouviu, falou, falou, mas sem chegar sequer aos calcanhares do expert e incrível Presidente MRS que muito me honra.
Bem como isto está a descambar um pouco.
Para mim a comparação faz sentido, pois sem a exposição televisiva/mediática nenhum dos dois teria sido eleito e penso que isto é claro e foi isto que quis dizer.
Alguns membros do marketing acreditam que não existe má publicidade.
Estive esta manha a seguir a France Info.
Resumindo: não aprenderam nada.
Não aprendem nada, não esquecem nada. Como a aristocracia parasitária do Ancien Régime.
Impressiona!
E lembra o que se passou na sequência do processo que viabilizou o nosso atual governo.
Parece um ninho de serpentes assanhadas.
Todos os que controlam o establishment, ou dele beneficiam, ou simplesmente julgam que beneficiam não aceitam o óbvio:
– sempre manipularam e exploraram o povo-povo, sobretudo através dos meios de comunicação e do marketing;
– aconteceu que o povo-povo finalmente acordou e fez-lhes um manguito;
– mais, tal aconteceu com establishment de todos os establishments (com o introito do Brexit);
– o que faz prever que a coisa não ficará por aqui.
E é vê-los desorientados e furiosos, em todos os fóruns, a debitar discursos inflamados e cheios de contradições, contradições que eles acham que o povo-povo não percebe, porque a isso estavam habituados.
Impressiona!
João de Brito
Devemos pedir aos jornalistas que se concentrem no essencial: indagar e divulgar informação.
A propaganda deve ser deixada aos propagandistas.
A retórica política deve ser deixada aos políticos.
Isso sim ,apoiado; e deixar os halls dos hoteis e ir para a rua.
Às vezes fazer o mais simples parece o mais complicado. Custa-me entender porquê.
Muito bem escrito caro João de Brito.
O que o Pedro Correia escreve sobre a SIC estende-se a todos os outros órgãos de comunicação social em Portugal, todos alinharam pelo mesmo prisma, diabolizar Trump e tecer loas a Hillary escamoteando todo o passado da mesma.
Felizmente foi mais um tiro no porta-aviões do establishment e espero sinceramente que continue no próximo ano em França e na Alemanha.
Os órgãos de informação, sobretudo em campanhas eleitorais, devem fazer sempre um esforço de isenção – ver os dois lados da questão, estabelecer o contraditório, analisar prós e contras.
Direi mais: nem devia haver necessidade de fazer esforço algum. Essa deve ser uma regra básica, natural.
Na SIC hoje ao almoço uma ipifania em directo. ?.
O mesmo profissional que durante dias, e noites, disse cobras e lagartos sobre Trump foi iluminado pelo Espirito Santo e esplicou as propostas do candidato apresentadas na sua campanha. Uma reportagem como deve ser.
Pergunta: o reporter já conhecia os FACTOS e não tinha autorização do chefe … ou foi mesmo uma ipifania ?.
Podemos acreditar na informaço SIC(K) ?.
Não vi. Já me bastou a noite eleitoral.
Opinião a mais, factos a menos.
Mas, pelo que é relatado neste post, houve factos – a SIC fez uma reportagem em dois ou três locais de voto e entrevistou alguns eleitores concretos.
É difícil pedir à SIC mais factos. O que deveria ela ter feito? Enviado repórteres para mesas de voto em todos os recantos dos EUA? Entrevistado, não meia dúzia mas cinco dúzias de eleitores?
Eu limitar-me-ia a pedir à SIC que procedesse exactamente ao contrário do que procedeu.
Tirando isso, nada a objectar.
Vou com muita frequência ali para as bandas da Praça Luis de Camões pela manhã, tenho por ali uns conhecidos…
Acontece assim que com não menos frequência desço o Chiado um pouco antes da hora do almoço para vir almoçar cá abaixo, à Baixa própriamente dita.
Costumo assim ser abordado por equipas de reportagem de TV que, por uma razão qualquer que me ultrapassa, me foram pondo insistentemente e ao longo dos anos perguntas variadas.
Nunca por nunca ser as minhas evidentemente notáveis declarações tiveram honras de antena.
De modo que agora digo-lhes sempre “Não sei qual é a pergunta mas V. não íam gostar da resposta”.
Últimamente já não me ligam, felizmente.
É notável que uma equipa de reportagem depare com centenas de pessoas prestes a votar em Nova Iorque e só consiga encontrar eleitores de uma candidatura, como se estivesse em Cuba ou no Zimbábue.
Por vezes certos jornalistas reduzem a sua actividade a uma caricatura. Depois admiram-se de que a profissão seja cada vez menos respeitada.
Factos ?. O que a sic, e rtps, deveriam ter feito era simplesmente apresentar e comparar os programas dos dois candidatos.
O da candidata era continuar e agravar, o desastre Obama Care e “refugiados sirios”, etc.
As propostas do candidato … convenceram.
Se Trump vai namorar as internas da WH, depende da Ivanka.
Em matéria de assédio às estagiárias da Casa Branca há um ilustre (e lamentável) precedente.
Pedro,
Como já escrevi Trump (tal como Marcelo) foram para estas eleições já com a vitória no bolso. Bastou para isso a imagem permanente que durante anos deixaram nas televisões onde foram naturalmente estrelas.
A SIC devia ter percebido isso muito antes dos outros… Mas cego não é quem não vê mas quem não quer ver.
Abraço.
Viva, José.
Espanta-me que a SIC não tenha sido capaz de estabelecer um padrão de cobertura da campanha americana que fosse tão equilibrado quanto possível: prós e contras de cada candidato, algumas das principais propostas de ambos. Tão simples quanto isso.
Preferiu apostar todas as fichas na “história do ano”: uma mulher pela primeira vez presidente dos EUA, diabolizando o único que poderia opor-se.
Saiu mal. A história acabou por ser a oposta. Acontece quando se é imprevidente e se acredita mais nas “histórias” imaginadas do que nos factos.
Bastaria ter aplicado as mais elementares regras jornalísticas para as coisas terem saído bem.
Abraço.
lol como se entrevistas a alguém no meio de NYC fosse achar alguém que votasse no trump. era tipo achar uma agulha num palheiro, se tivesse havido entrevista no michigan ou na pensilvãnia…
e duplo lol, a CNN é lixo, é pior que a Fox news. A CNN é um chevron gigantesco de tweeters e post do facebook, sem qualquer tentativa de apresentar algo substantivo ou de valor. Nem sequer é apresentar opinões de ambos os lados, é que não acrescenta nada, não analisa nada, é só “opiniões” e “feels”.
Os unicos outlets ainda decentes de noticias são a Vice e a Motherjones.
É obra, dar a volta ao quarteirão cheio de eleitores e deparar só eleitores de uma tendência.
Como se Nova Iorque fosse Harare ou Pequim.
Não acompanhei as eleições nas TV portuguesas porque, do pouco que vi, dedicaram-se mais a discutir os candidatos (nomeadamente Trump) do que as eleições. Vi um pouco na CNN mas já não podia aturar a “the wall” e acabei – modernices – a seguir a cobertura no blog eleitoral do Fivethirtyeight.
O problema da cobertura jornalística já foi apontado pelo Miguel Esteves Cardoso: os “mídia” colocaram-se todos do lado da Hillary Clinton. Ora se apoios (endorsements) são normais e até acho saudáveis, não podem servir para duas coisas: atacar a base eleitoral dos outros nem para nos tornar cegos à realidade. E foi isso que aconteceu – agora, Alka-Seltzer
O MEC tem toda a razão. Isso nem sequer sucedeu por motivos políticos ou ideológicos, mas apenas porque a “estória” da primeira mulher a mandar na maior economia mundial vendia mais e melhor.
Distorceu-se a realidade em nome dessa “estória”. Os factos ficaram do lado de fora. “Por acaso ou talvez não”, a SIC foi incapaz de encontrar um eleitor de Trump no dia do escrutínio.
Quando tanto se fala em crise do jornalismo, eis mais um poderoso contributo para explicá-la.
O problema coloca-se em termos de cidadania e não apenas da SIC. Há já algum tempo que temos vinda a assistir à degradação total do “5º poder”. Os jornalistas e comentadores têm que ganhar a vida e “baixam-se” ao poder, mesmo quando dizem mal, estão controlados. Neste caso, tal como no Brexit e noutros casos recentes, fizeram o frete, houve uma quase unanimidade de opiniões e notícias contra Trump e pensaram, quem manda e eles próprios, que as pessoas os seguiam cegamente, como há uns anos atrás. Ora, quando perderem a credibilidade, mesmo que defendam causas nobres ou direitos fundamentais, não serão credíveis e isso pode ser aproveitado da pior maneira possível. Aliás, o mesmo se vem passando com os Juízes, com algumas coisas que se vão sabendo, a muito custo. Mas isso é outro assunto.
O problema deste jornalismo que procura desesperadamente rivalizar com as redes sociais, nivelando-se por baixo, é ter “estórias” à partida e procurar depois adequar os factos a essas “estórias”. Ao contrário do que recomendam os princípios básicos da profissão.
Nas presidenciais americanas de 2016 havia uma bela “estória”: eleger a primeira mulher para a Casa Branca. E toda a construção jornalística obedeceu a este ditame.
Acontece que, por azar, os eleitores optaram noutra direcção. E lá ficou este jornalismo de “estórias” descalço, incapaz de explicar aos leitores e ouvintes e espectadores por que motivo não cumpriu o seu trabalho.
Concordo inteiramente com este texto. O facciosismo doentio pró Clinton, da SIC, manifestou-se, também, de forma lamentável, nos últimos dias que antecederam as eleições, ao apresentarem só entrevistas com emigrantes portugueses e luso descendentes, apoiantes da ex primeira dama.
Não foram os únicos, mas este caso passou todos os limites. Só faltaram apresentar-se de bandeirinhas e emblemas no ecrã.
Até parece que a SIC foi a única a errar nas previsões e fazer uma cobertura tendenciosa das eleições americanas. E a confusão entre factos e opinião nos media portugueses já tem um histórico considerável.
Havendo Trump (e os seus dislates) de um lado, a tentação é grande. Diria até que se tornava difícil não o atacar. Por cá, um inédito unanimismo abrangendo a esquerda e grande parte da direita política rejeitou o candidato e as suas ideias. Depois de sabidos os resultados das eleições, lá vão aparecendo umas vozes mais ou menos apoiantes, um pouco em jeito de alívio da azia persistente que os vem atormentando há um ano.
Como nota de rodapé, com o sistema eleitoral português para a eleição presidencial, teria sido Hillary e não Trump a ganhar as eleições.
A sua frase final equivale, em “análise política”, ao conhecido dito popular «se a minha avó tivesse rodas era um camião».
Desculpe mas não é despiciendo o facto de Hillary ter tido mais votos que Trump. Tal como não o é o facto de em Portugal o maior partido da oposição ter mais deputados que o partido donde saiu o governo.
Normalmente, quando se mistura análise política com ditados populares, quem sai mal visto é a análise política. Ou quem a pretende fazer.
Regras são regras. Não devemos questioná-las quando os ‘nossos’ perdem e aceitá-las quando os ‘nossos ganham.
A eleição presidencial dos EUA – que é uma federação de Estados com enorme autonomia, note-se, onde portanto não faz qualquer sentido a instituição de um círculo nacional, como sucede num pequeno país como Portugal – está baseada em regras fixadas há mais de dois séculos. O sistema funciona e é apenas contestado por franjas muito marginais.
Sendo uma eleição indirecta, neste caso o voto é confiado à aritmética dos super-eleitores. Algo semelhante ao que sucede em Portugal, onde não existe eleição directa para o principal cargo executivo, que é o de primeiro-ministro: um partido pode obter mais votos, maior percentagem e mais deputados mas ficará sempre dependente da aritmética parlamentar. Como sucedeu em Outubro-Novembro de 2015.
Contestar a eleição de Trump com base na dimensão do voto popular equivale a contestar a designação de Costa para PM com base no mesmo motivo.
viu-me contestar a eleição de Trump? Viu-me questionar as regras eleitorais americanas? Ou foi só um desejo seu que assim tivesse sido por ser tão fácil desmontar tal argumento?
Estou a fazer leituras políticas (legítimas) do resultado das eleições.
Trump foi eleito segundo as regras centenárias existentes, mas os resultados não permitem, como vejo alguns comentadeiros fazer, dizer que a maioria dos americanos rejeitou os oito anos de Obama e que a maioria dos americanos não queria Hillary presidente, que a maioria dos americanos votou contra o establishment e as grandes corporações, etc. Isso é rotundamente falso, basta contar os votos.
Idêntica análise pode ser feita (foi feita, embora desastradamente devido ao azedume envolvido) em Portugal.
Salvo erro, vi-o fazer análise idêntica nas eleições na Catalunha, quanto à questão independentista.
1. Vamos lá então retomar o seu texto original, que se insurge pelo facto de eu ter criticado a SIC. Com base no argumento de que o péssimo trabalho desta estação pode de algum modo justificar-se porque as outras também trabalharam mal.
Essa é a lógica do menino apanhado a copiar na escola primária e que aponta o dedo aos outros, dizendo que eles fizeram o mesmo.
Insisto: a SIC fez um péssimo trabalho. Ao confundir reportagem com editorial e editorial com propaganda. A níveis inaceitáveis, desde logo tendo como referência os patamares de excelência que este canal televisivo chegou a habituar-nos.
Não vi nenhum outro comportar-se de forma tão lamentável.
2. No meio dos “dislates” de Trump – que os houve, e graves – ficou por perceber, deste lado do Atlântico, que mérito afinal este candidato teria. Algum terá, seguramente, caso contrário o “sábio povo” que elegeu Obama em 2008 e 2012 não se transformaria no “estúpido povo” que agora votou como votou.
Acontece que em Portugal só nos chegou o aspecto anedótico, grosseiro e caricatural do candidato. Mais nada. Nenhuma proposta social, nenhuma proposta económica. Por que motivo a larga maioria da classe trabalhadora branca americana e um segmento significativo dos desempregados de longa duração votaram nele?
Era uma boa história informativa. Mas ficou por contar.
3. “A maioria dos americanos votou contra o establishment.” Diz você que isto é falso. Mas não é: as evidências demonstram o contrário. Trump – que financiou as campanhas de Bill Clinton na década de 90 e é um recém-filiado no Partido Republicano – pulverizou o ‘establishment’ político. Isso verificou-se logo nas primárias, em que todos os candidatos da oligarquia partidária foram caindo, um a um (Jeb Bush, Rubio, Cruz), até à desistência definitiva do último que lhe fez frente. E acaba de ocorrer na eleição presidencial: Hillary Clinton (que, com o marido, domina o Partido Democrata há um quarto de século) é a personificação máxima do sistema. Daí que 20% dos eleitores de Sanders tenha votado Trump.
Porquê?
Outra história que ficou por contar. No meio da propaganda não houve tempo para fazer jornalismo.
4. Tem faltado por cá um balanço crítico da presidência Obama. Porque a derrota eleitoral de Hillary é também uma derrota de Obama, que aliás se envolveu por completo na campanha.
De Obama, no entanto, também o que cá nos chega é o anti-jornalismo, ou seja a propaganda: o homem que mal começou a governar e já recebia o Nobel da Paz, o bom pai de família, culto, sorridente, tolerante, descontraído e bem humorado, – em jantares risonhos, passeios informais e divertidos ‘talk shows’.
Quando os factos se impõem, toda esta construção mediática cai pela base. E as pessoas ficam sem dados factuais para reflectir.
Não admira portanto que se virem em doses crescentes e maciças para as “redes sociais”. Lá, ao menos, e no meio de imenso lixo, acabam enfim por encontrar o contraditório.
5. Nada a ver com aquilo que escrevi sobre a Catalunha.
Indo ao essencial: defendi – e defendo – que nenhum país pode tornar-se independente tendo apenas metade da população a reclamar tal tese. Vale o mesmo para a Escócia, a Flandres, a Córsega, a Padânia, o País Basco, etc, etc.
As independências só podem sustentar-se em maiorias qualificadas nas urnas.
A lógica aritmética dos 50%+1 é incapaz de sustentar toda uma nova arquitectura política, de carácter irreversível. Porque a independência – ao contrário das eleições parlamentares, que são periódicas e permitem trocar de maioria política – tem um carácter definitivo: jamais haverá eleições ou referendos regressivos, mandando recolher hinos e bandeiras, e restaurar o ‘statu quo’ anterior.
Ou há um movimento verdadeiramente nacional – ou não há.
1. Não me insurgi, apenas comentei.
2. Ele tinha mesmo propostas sociais, propostas económicas? Essa de ter chegado a Portugal apenas o lado anedótico, vivendo nós num mundo globalizado é de ir às lágrimas. O mérito dele foi o de ter apelado ao medo e à culpabilização dos outros (negros, mexicanos, gays, latinos) para mobilizar a chamada classe trabalhadora branca (o que quer que isso seja). Se juntar a isso o fraco entusiasmo da candidatura de Hillary terá a resposta para o êxito de Trump.
3. A maioria dos americanos não votou contra o establishment. Os números não mentem. Os votantes em Trump votaram contra pena establishment. E os números dizem que os votantes em Trump não são a maioria.
4. A derrota eleitoral de Hillary é também uma derrota de Obama dado o seu envolvimento na campanha. Concluir que foi uma condenação dos 8 anos de Obama é desonestidade intelectual. Os números dizem (nem falo em sondagens que andam pela hora da morte) que os EUA cresceram economicamente nos oito anos, que o desemprego baixou para 4-5% e qu, enquanto os EUA descolaram da crise, a Europa empastelou-se nela. De facto, quando os factos se impõem qualquer construção, mediática ou opinativa, cai pela base.
5. Não cabe aqui debruçar-me sobre a Catalunha. Apenas referi esse exemplo por ter usado a mesma dicotomia votos expressos/lugares eleitos para defender o contrário do que expressou aqui.
Conclusão do que você refere:
– Trump é uma besta, logo os americanos que o elegeram são estúpidos. Misóginos, racistas, islamófobos, anti-semitas, xenófobos, fascistas.
– Obama, que viu a sua candidata derrotada e o seu partido derrotado nas eleições para as duas câmaras do Congresso após oito anos no poder, não saiu perdedor desta eleição.
– O emprego prospera, a economia cresce. Só reforça a ideia de que os americanos são estúpidos ao terem votado como votaram para a Casa Branca, o Senado e a Câmara dos Representantes. Mudar para quê se o quadro é idílico?
– A SIC estava certa. E a ‘Visão’, que já tinha pronta uma edição em que dava a vitória a Clinton por antecipação, também. Os eleitores americanos é que erraram. São umas bestas, como o Trump.
As conclusões são suas e não são lá grande coisa.
“Obama, que viu a sua candidatura derrotada (…)”
Corrija lá para “Obama, que via a candidatura que apoiou derrotada” a bem da verdade. Os truques e tiques que assinala na SIC tem-os o senhor para dar e vender.
Consigo repete-se um padrão já conhecido nestas caixas de comentários: a montanha a parir um rato.
Chega aqui com pretensões de prosa ensaísta e acaba como revisor de gralhas.
Passe bem.
Revisor de gralhas, essa é boa. Viola no saco, diria o meu avô. Não se abespinhe que fica mal a quem pretende ser opinador.
“Obama, que viu a sua candidata derrotada”. Em vez de candidata, escrevi “candidatura”.
Qualquer pessoa percebe que se tratou de uma gralha.
Se você, em vez de debater ideias, prefere aparecer por cá armado em revisor de textos, só revela ter percebido que os seus fracos argumentos se esgotaram de vez.
Com isso declara-me vencedor desta contenda.
Algo que registo com agrado.
Está bem abelha! Conta-me estórias.
Inactivo “politicamente”, ou melhor dizendo, desinteressado da política, deixo de lado a eleição americana, onde não tenho interesse e me é indiferente quem ganhou (já que quem governa efectivamente não é quem é detentor do cargo, mas outros protagonistas), mas demonstro o acordo ao denunciado no postal. Foi um ror de baba naquela estação, que se correu risco de inundação em Carnaxide. Aliás, não é apenas na política que a SIC ( e outros “camaradas”) se mostra acrítica e pior, tendenciosa. Mas isso são outros futebóis.
É verdade, Edmundo. E eu em relação à SIC sou sempre mais exigente, pois habituei-me durante anos a patamares de muita qualidade informativa nesta estação.
Isto tem-se perdido, em velocidade acelerada.
A tabloidização dos serviços noticiosos, a colagem progressiva a modelos editoriais em voga noutras estações, a adaptação dos critérios informativos à escolha prévia do que são as “boas estórias” – tudo isto desagrada a qualidade a que o jornalismo de Carnaxide nos habitou.
Esta cobertura da campanha eleitoral nos EUA – e do dia eleitoral em particular – é um caso de estudo. E devia ser analisada também internamente. Para não voltar a repetir-se.