O Eleftherotypia foi durante 37 anos o segundo diário mais importante da Grécia. Erros de gestão atiraram-no para a falência. Com os salários suspensos desde Agosto de 2011, os jornalistas ainda trabalharam quatro meses numa desesperada tentativa para o manterem vivo. Em vão: o jornal fechou em Dezembro.
No mundo do jornalismo, nada volta a ser o que já foi. As receitas da imprensa norte-americana em 2011 foram apenas metade das geradas em 2005. Diariamente, um pouco por todo o mundo ocidental, jornais existentes há décadas – ou mesmo há mais de um século – despedem-se das edições em papel. Títulos tão conhecidos e tão diversos como o Christian Science Monitor, Rocky Mountain News, Cincinnati Post (EUA), La Tribune (França), Público (Espanha), Post-och Inrikes Tidningar (Suécia) e o Jornal do Brasil deixaram de se publicar na forma tradicional, embora alguns continuem à disposição do público na internet.
O popularíssimo France-Soir, que chegou a ser o jornal com maior tiragem no continente europeu (1,5 milhões de exemplares diários em 1955), encerrou definitivamente em Dezembro passado. Títulos norte-americanos tão prestigiados como o San Francisco Chronicle, o Boston Globe ou o San Diego Union Tribune estiveram já a um passo do fecho definitivo por sérias dificuldades financeiras. E até gigantes como o New York Times ou o El País têm problemas financeiros eventualmente insuperáveis a médio prazo.
“Vivemos a mais grave crise da história da imprensa”, admite um dos mais influentes jornalistas norte-americanos, Allan Mutter, em declarações à revista brasileira Veja. Quando um jornal tão emblemático como o Washington Post luta pela sobrevivência, agora que se assinalam o 40º aniversário da eclosão do caso Watergate.
Lembro-me por vezes dos jornais da minha infância. Quase todos fecharam: O Século, Comércio do Porto, Jornal do Comércio, Diário de Lisboa, Diário Popular, República, Mundo Desportivo, A Capital. Restam o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias e o Expresso. Também revistas como a Flama, o Século Ilustrado e a Vida Mundial já há muito desapareceram das bancas – tal como tantos títulos surgidos após o 25 de Abril, como O Jornal, O Ponto, Opção, Jornal Novo, Tempo, O País, O Dia, O Diário, Se7e, Grande Reportagem, Tal & Qual, Semanário, O Independente, Já, Euronotícias e 24 Horas, entre vários outros. E já não falo em publicações regionais, incluindo títulos históricos como o Comércio do Funchal ou o Notícias de Évora.
Não são problemas que digam respeito apenas aos jornalistas. Porque não existe democracia sem imprensa. A progressiva extinção de publicações que funcionaram como testemunhas vivas da História empobrece a sociedade no seu conjunto, tornando o debate político mais vazio de conteúdo e menos sujeito ao indispensável escrutínio que entre nós lançou raízes no tempo do constitucionalismo liberal. É verdade que existem hoje múltiplos espaços de notícia e comentário no universo da Rede, muitos dos quais não sujeitos a qualquer filtro deontológico nem obedecendo sequer às normas do mais elementar bom senso. Mas não conheço nenhuma democracia que subsista sem grupos sólidos de imprensa. E neste aspecto andamos a caminhar perigosamente para trás.




Estamos a preocupar-nos com a sorte dos jornais num blogue. O que ajuda a perceber uma das dimensões (talvez a principal) do problema.
Bem observado, Sara. A verdade é que muitos jornais tardaram em levar a sério as novas tecnologias e a democratização da opinião nas redes sociais. E foram penalizados por isso.
Sendo tudo isto que referes incontestável, há, no entanto, uma luz que começa a bruxulear e que merece atenção. Não tenho dados estatísticos (onde obtê-los?) mas a venda maciça de iPads nos EUA parece que está a revitalizar o consumo de imprensa, ou melhor, periódicos.
Sim, eu pertenço àquele grupo minoritário dos que pensam que o jornalismo tradicional, em papel, não está necessariamente condenado à extinção. Mas este jornalismo vai destinar-se potencialmente a nichos de mercado, cada vez mais selectivos, cada vez mais exigentes. E tem de apostar muito forte numa opinião de qualidade e na investigação de grandes temas. Tudo ao contrário daquilo em que muitos jornais têm apostado. Não podemos chegar ao público do presente com receitas do passado.
Continuo a concordar, discordando. Parece-me que a tendência será para abandonar cada vez mais o papel, talvez até à extinção. Donde não gostar da palavra “imprensa”. Todavia, os grandes jornais, continuarão a ser jornais, com o formato que têm, só que chegarão ao público de um modo mais limpo, rápido e confortável. Via ipad, por exemplo. Talvez até os periódicos de nicho cheguem priemiro a essa conclusão. Envio o link para um artigo que creio intressante sobre o tema: ess/media/new-yorker-on-ipad-shows-viewe rs-want-to-read.html?pagewanted=all
http://www.nytimes.com/2011/08/01/busin
Claro que a questão da qualidade é crucial. Mas isso tanto faz para papel ou iPad… Os tablóides talvez soçobrem sob o peso das TVs e os jornais ilustrados para classes com menos poder de compra, tipo Hola!, talvez se mantenham. Isto é tudo futurologia, claro.
José, o problema é que o iPad (e outros tablets do mesmo nível, que felizmente a Apple não é a única neste mercado) está ao alcance apenas de uma minoria. As filas que vemos à porta das lojas Apple nas horas que antecedem o lançamento de um novo dispositivo não são um barómetro muito fiável: a grande maioria das pessoas não pode dar entre 600 e 800 euros por um tablet, sobretudo em tempos de crise. Como tal, as publicações online – e há várias com edições tablet espectaculares – continuam acessíveis apenas a um grupo muito restrito de pessoas.
Talvez agora que a Amazon e a Google estão a entrar em força no mercado dos tablets de qualidade a preços mais baixos (a Amazon com o Kindle Fire e a Google com o novo Nexus) isso comece a mudar, mas é coisa para levar tempo. E, claro, resta saber se as pessoas estão de facto dispostas a pagar ter as revistas no tablet…
João, não te deixes iludir pela lentidão do mercado português. Nos EUA é absolutamente impressionante a quantidade de pessoas com que te cruzas, com um ipad numa mão e o kindle na outra. Os números confirmam a percepção empírica desta penetração: praticamente 70% da classe média-alta urbano dos EUA tem os DOIS gadgets. É muita gente, como se viu no recente êxito editorial de “50 shades of grey”. Pos isso uma revista como a New Yorker aposta neste media e talvez o New York Post ja não tenha tanto interesse. Mais uma vez, a Europa, sobretudo Portugal, estão a ficar para trás.
Continuo a achar, apesar de tudo, que o papel vai manter-se embora noutro enquadramento e noutras proporções. É aliás interessante verificar que no Oriente – Índia, China, Japão – a imprensa em moldes clássicos continua a registar crescentes índices de leitores por mais atraentes que sejam os ‘gadgets’ electrónicos.
Mas que revistas como a The New Yorker apostem neste meio não me surpreende. Nem duvido do potencial dos tablets; simplesmente duvido da rapidez da prometida “revolução” quando os preços estão tão altos. A Microsoft já entrou no jogo, e subiu a parada com o anúncio do Surface; e os tablets de qualidade e preço baixo estão agora a conquistar o seu espaço (com a Google à cabeça, mais até do que a Amazon: basta ver as reviews ao Nexus dos principais meios de tecnologias). É esperar para ver.
Pessoalmente, não teria qualquer problema em ler jornais e revistas num tablet (já livros seria mais complicado), mas jamais daria o valor actualmente pedido por estes dispositivos. E como é extremamente improvável que venha a comprar aparelhos da Apple…
Creio que o problema não está tanto a montante, mas prende-se, talvez surpreendentemente, com os custos de produção. Comprei um kindle no ano passado e só em livros gratuitos já o devo ter amortizado. Livros antigos, os clássicos, que por estarem em domínio público e graças ao fabuloso projecto gutemberg, podem ser descarregados sem custo e que não os encontro em enhuma livraria. Ler “Viagens na minha terra” na grafia do séc XIX é um thrill (onde isto nos levaria em relação ao AO e à defesa das regras de 1945…). Mas é nos custos de encriptação e colocação online que o problema reside. Ou seja, embora prescinda do papel (caríssimo e com oscliações de preço brutais até porque todo o papel do mundo, ao que sei, pertence a uma só grupo emrpesarial), das tintas, dos custos arrepiantes de distribuição física, o preço fica ela por ela, enquanto não houver massa crítica, devido ao preço avultadíssimo dos sistemas de segurança informática. Isto é uma crença mas quando houver um breakthrough na margem de lucro, isto vai disparar, mesmo apesar de a subida no consumo on line ter sido vertiginosa até agora. So que ainda não deu o salto quântico.
Penso que nesse aspecto estará parcialmente equivocado. Há uma publicação, muito especializada (é sobre futebol, única e exclusivamente) que se chama The Blizzard e que sobrevive na forma impressa (menos) e de e-book (muito mais) onde o preço de venda é dependente do comprador (pedem um mínimo de 1 penny, aconselham um preço, mas pode dar-se o que se quiser). Até ao momento tem sobrevivido bem.
Seja como for, acho que a questão dos iPads é absolutamente menor. O crescimento nesse sector não estará nos tablets mas nos smartphones. Há mais smartphones que tablets e será para estes que se produzirão as apps para leitura de media (é como leio actualmente 75% dos jornais que sigo). Além disso os smartphones continuarão a ver a sua distribuição aumentar muito mais que os tablets.
Sobre o assunto, muito mais interessante que falar na queda de leitores é falar na busca de novas receitas. Sobre isso a Economist publicou um belíssimo trabalho há uns meses. Deixo o link para um dos artigos (dentro do mesmo há links para os outros):
http://www.economist.com/node/18904178
Hoje apenas vemos jornais a sobreviver inseridos em grandes gruos económicos. É de facto muito apetecível poder controlar informação. Lemos e ouvimos o dono da Ongoing afirmar, sem qualquer pudor, que sim, que interfere na edição das noticias do jornal do qual é proprietário. Assustador é observar que a reacção a esta afirmação é nula. Vemos jornais a nascerem e a desaparecerem parecendo-nos a nós leitores, como edições experimentais. Vemos o caminho do jornalismo sério, do jornalismo de investigação, trabalhoso, demorado, por vezes chegando a becos sem saída, a ficar cada vez mais para trás, sem espaço. Hoje o paradigma é o sensacionalismo, texto descuidados, não existem já nas redacções quem reveja textos. Com alguma facilidade identificamos peças que são na verdade encomendas com um dstino certo.
Um dos pilares do regime democrático é a imprensa livre. Não cabe apenas aos jornalistas informar ou relatar acontecimentos. É papel dos jornalistas o controlar a acção de quem detém o poder político e também o judicial. É o jornalista quem deve denunciar e investigar qualquer desvio que haja por parte dos detentores do poder. Sem uma imprensa séria não há democracia que resista.
E nós lá vamos, com a cabeça entre as orelhas e os cornos bem rentes ao chão.
Você aborda questões importantes e que merecem reflexão de todos, Tiago. Permito-me transcrever estas linhas do seu comentário:
«Um dos pilares do regime democrático é a imprensa livre. Não cabe apenas aos jornalistas informar ou relatar acontecimentos. É papel dos jornalistas o controlar a acção de quem detém o poder político e também o judicial. É o jornalista quem deve denunciar e investigar qualquer desvio que haja por parte dos detentores do poder. Sem uma imprensa séria não há democracia que resista.»
Linhas que subscrevo, naturalmente.
Há um provérbio que diz antes só que mal acompanhado.
Em relação à democracia e à imprensa, pode-se dizer o mesmo. Mais facilmente há uma democracia sem imprensa do que uma democracia com uma má imprensa.
E a nossa imprensa atual é tão má que mais vale que desapareça.
Não consigo acompanhar o seu raciocínio, Luís Lavoura. Onde é que você encontra “uma democracia sem imprensa”? Eu só encontro esse cenário em ditaduras.
Sou defensor dos jornais que tenham alinhamento politico, o que não quer dizer forçosamente seguidismo, e acho que abrir um jornal e ver artigos escritos por pessoas do CDS numa pagina, na seguinte alguem do PSD e depois do PS e assim sucessivamente até chegar ao BE, e pelo meio artiguinhos escritos por alguns que não estando ligados aos partidos lhes fazem grandes fretes, tem ajudado a matar a imprensa escrita. Em muitos paises como a Espanha, França, ou Inglaterra há jornais de referencia ligados a tendencias politicas; em Portugal já foi assim, agora preferem ser “abrangentes”, mas não passam de ferramentas para pressionar o poder politico. O caso Vitorino, no governo Guterres é tipico.
É claro que o advento da internet levou a que as pessoas, principalmente as gerações mais novas, tenham perdido o hábito de comprar jornais, mas a má qualidade geral do jornalismo em Portugal tambem tem ajudado muito. Costumo dizer que tenho mais respeito por aquelas senhoras que estão a fazer pela vida na recta de Pegões do que pelos jornalistas, mas se calhar estou a ser injusto; ainda há jornalistas competentes, isentos e respeitaveis em Portugal, mas são cada vez menos.
Não é só o Vasconcelos que condiciona o DE, o Balsemão faz o mesmo no Expresso e na SIC, o Oliveira ( o amigo Joaquim, como é conhecido em alguns meios), nos jornais dele, o Fernandes nos media da Cofina, principalmente no JN e no CM, o sr Belmiro de Azevado queixa-se que o Publico lhe dá milhões de prejuizo pessoal, e não o fecha nem o vende, (deve ser um grande masoquista).
Polemicas como esta que envolve o Relvas e o Publico, tambem não ajudam nada, porque toda a gente sabe que telefonemas daqueles para as redacções são o pão nosso de cada dia há dezenas de anos e “no pasa nada”, só que normalmente são os acessores que os fazem e o Relvas tinha a obrigação de saber isso.
1ªs paginas como a que o Expresso apresentou no sabado passado, tambem contribuem para que as pessoas deixem de comprar jornais. O jornal do Crime, se calhar pode fazer parangonas como aquela, o Expresso não pode se não tiver confirmado a noticia, como confessou que não fez.
Nota: Estou à vontade para falar nos diversos “affairs” Relvas, porque desde que este governo tomou posse, tenho defendido nos blogues onde fazem o favor de publicarem os meus comentários, que ele nunca deveria ter ido para o governo, e muito menos para nº2.
Sublinha você que «ainda há jornalistas competentes, isentos e respeitáveis em Portugal, mas são cada vez menos». Claro que há, mas não me parece que sejam cada vez menos. Conheço muitos jovens jornalistas e garanto-lhe que são extremamente bem formados – do ponto de vista técnico, da preparação intelectual, no domínio das línguas, de uma mundovisão que supera largamente o padrão médio das gerações anteriores. São, isso sim, muito mais explorados, com horários extenuantes, mal pagos, forçados a multiplicarem-se em funções para os quais não têm formação específica… Há 20 anos um jornalista médio produzia uma notícia por dia, duas quando muito. Hoje em dia um jornalista produz oito, nove, dez às vezes mais. Desde logo por estar dividido em dois suportes tecnológicos – o papel e a edição digital. Isto gera com frequência problemas de qualidade e por vezes levanta questões de natureza deontológica que nem sempre são clarificadas como se impunha.
A imprensa são lobbies ou padres.
O objectivo dos jornalistas não é informar é endoutrinar, e mudar o mundo.
Para isso não é preciso jornais, logo vão morrer.
Um blog é mais apropriado.
As monoculturas morrem rápido e o jornalismo “mainstream” é uma monocultura. Todos pensam da mesma maneira.
Por isso é que foi preciso aos jornais investir nas colunas de opinião, porque as notícias deixaram de ter importância.
Por cá até se colocam uns comentadores de “direita”
para fingir que havia alguma imparcialidade, mesmo se as notícias fossem todas escolhidas a dedo para beneficiar a esquerda.
50 mortos por dia na Síria não fazem parte das notícias. Se 1/10 fosse na Palestina 50km a sul já fazem.
Um branco que assassinou pretos nos EUA e tem a pena de morte não é notícia. Se for ao contrário já é…
O Fast and Furious, bem mais grave que o Watergate não é notícia , uma gaffe da Palin é. Uma gaffe do Obama não. O aquecimento global é uma problema, o défice não…
Por isso é que o Correio da Manhã é o jornal que pode sobreviver – tem alguma informação mesmo que seja na maioria sangue e lágrimas – e o Publico está falido há muito, só a necessidade da Sonae ter um pé na esquerda para proteger outros investimentos o justifica.
O comportamento do jornalistas é mais apropriado para um blog.
O Correio da Manhã é praticamente uma excepção à regra: tem conseguido subir vendas e audiências contrastando com quase todos os outros títulos. Provavelmente adaptou-se melhor do que outros jornais aos novos consumos e à nova procura informativa. Mas há espaço para outros projectos jornalísticos. Nem tudo se pode medir pelas tiragens.
Discordo de muito do que escreve. Mas estou de acordo numa coisa: o consumidor de informação é hoje muito diferente do que era no passado. Quando as pessoas já recebem a chamada ‘informação em bruto’ a todo o momento nos telemóveis, os jornais devem apostar em modelos alternativos. Com mais reportagem, mais entrevistas de fundo, melhores cronistas, melhor análise, melhor opinião, com temas mais aprofundados e sem o imediatismo da notícia pura e dura.
Um voto desinformado é um voto condicionado.
A má informação só interessa a quem pretende condicionar a democracia.
Por isso a fragilidade do jornalismo é uma fragilidade democrática, semelhante a termos juízes ou procuradores pagos pela privatização dos Tribunais.
A informação necessita da mesma independência e aferição que a justiça. Até porque faz efectivamente julgamentos em praça pública… por vezes mais nefastos que os julgamentos em tribunal.
Ora, eu ainda me lembro do tempo, nos idos anos 80, em que o Telejornal abria habitualmente com notícias internacionais, não relacionadas com Portugal, e em que os fait-divers da coscuvilhice nacional não faziam notícia. Isso não era assim noutros países europeus, onde os noticiários eram sempre muito caseiros, provincianos diria. Lembro-me que a televisão francesa gastava imenso tempo com escândalos sociais e gatinhos presos em árvores.
Isso foi importado, e rapidamente a coscuvilhice cortesã nacional passou a abrir jornais e os assuntos internacionais passaram para notícias de rodapé. Importámos o provincianismo, passámos a ter os olhos no umbigo e deixámos de olhar o mundo.
Os jornalistas foram passados para segundo plano, com o advento dos paineleiros e das comentadeiras.
Esgotam-se os não-assuntos até à exaustão, e a notícia passa a ser a não-notícia decorada com o comentário ou com o painel de arrotadores de posta de pescada.
Por exemplo, um painel de economia decorado com o “génio” Beleza, é uma fonte inesgotável de piadolas brejeiras e alucinação alcoólica.
O advento do comentário matou a informação objectiva. Tudo passa a matéria opinativa. O leitor não sabe interpretar a complexidade e importância do não-assunto… por isso é ajudado pelos comentadores de serviço.
Os não-assuntos empolados retiram a importância dos assuntos.
A matéria objectiva não é reproduzida, serve uma notícia que se esquece, já a opinião repetida com posta e resposta, é fonte inesgotável num mundo que se alimenta de notícias minuto a minuto.
O pior acaba por ser o jornalismo enquanto replicador de notícias feitas. Limita-se a seleccionar notícias vindas da Reuters, da Lusa, etc…
O jornalista poderia cruzar as informações de várias agências, mas nem isso faz… sai um copy-paste.
Na falência de correspondentes externos, passa a haver um papaguear autorizado.
Os jornalistas que não se limitam a papaguear, acabam por enveredar pelo caminho de serem novos comentadores… e na prática, salvo honrosas excepções, o jornalismo de investigação é quase uma miragem.
No exemplo mais recente, dos serviços secretos, constatou-se que os jornalistas só acabaram por publicar a informação depois da acusação do Ministério Público. Já a sabiam bem antes, e não se tratava de segredo de justiça… eram factos conhecidos.
Porém, quando mexem em certas matérias, nota-se a fragilidade em que se meteram os jornalistas.
Vêem-se confrontados em ter que esperar e citar literalmente a acusação do Ministério Público, para poderem fazer a notícia.
Ou seja, o jornalismo de investigação vai enchendo chouriços, porque é perigoso para interesses instalados. Enquanto o poder viver dos segredos, ainda que sejam segredos de Polichinelo, o trabalho jornalístico estará condicionado pelos empregadores… e assim também estará a democracia.
Tem razão em muito do que diz. E no entanto o jornalismo só sobreviverá, com dignidade própria e a influência necessária em sociedades democráticas, se apostar precisamente naquilo que tem vindo a pôr de parte: a investigação, a grande reportagem, as redes de correspondentes internacionais.
Repare na cobertura das guerras contemporâneas: ao contrário do que sucedia com as guerras do passado (desde a da Crimeia, em meados do século XIX), que eram relatadas por múltiplos olhares, hoje praticamente só as grandes agências noticiosas internacionais têm capacidade para destacar repórteres para esses cenários de conflitos bélicos. Ficamos com uma visão unidimensional, muito redutora, dessas guerras – e mais à mercê das poderosas máquinas de propaganda das facções em conflito. O que não empobrece apenas o jornalismo: empobrece também o pensamento. Menos informação equivale a redução da nossa capacidade analítica.
Mas não nos iludamos: a aposta no jornalismo de qualidade só se conseguirá com grupos empresariais fortes. E adaptados às exigências concretas dos novos tempos.
Exacto.
A cobertura jornalística dos conflitos armados deste século é quase vergonhosa. E se há ainda repórteres que arriscam ainda a vida, são freelancers que depois não conseguem que o seu material seja publicado.
A recolha de testemunhos é condicionada, e desvalorizada, enfim tudo leva a que os conflitos tenham uma história feita, onde só interessam os factos que a confirmarem.
Temo que os grupos empresariais fortes, pela razão de onde reside a sua força, não queiram acompanhar esse desígnio, e prefiram a estabilidade dos factos que confirmam as histórias aprovadas.
Por isso, para protecção jornalística, acho que o funcionamento independente deveria ser tão a fundamental ao Estado como é justiça.
No entanto há muita cumplicidade dos editores que vão publicando apenas as notícias de uma única agência noticiosa. Até eu pela internet consigo ver várias versões dos acontecimentos externos, e parece-me demasiado confortável a posição do jornalista que cita literalmente uma agência noticiosa mainstream, sem mencionar minimamente o eventual contraditório.
Por exemplo, acho um insulto à inteligência dos leitores fazer crer que os rebeldes sírios foram armados do nada… e é um escândalo as televisões passarem a intervenção da Hillary Clinton, que acusou os russos de armarem Assad (… novidade!), cortando a parte anterior – era apenas uma resposta à acusação russa dos americanos armarem os rebeldes… o que também não é nada de novo, mas até a mera hipótese já é silenciada.
Esse tipo de condicionamento actual dos jornalistas é algo que nem me lembro de ver no tempo da Guerra Fria, onde as coisas se justificariam muito mais.
Por isso, muito depende da força do jornalismo e da coragem dos seus profissionais.
De acordo. Sobretudo quando acentua: «Muito depende da força do jornalismo e da coragem dos seus profissionais.»
É verdade. Enquanto os meios de comunicação tradicionais não perceberem verdadeiramente isso verão os leitores e espectadores fugir para meios não convencionais que se multiplicam em todos os cenários onde a potencial notícia existe.
Os problemas da dívida que a Europa e os EUA têm demonstram a falência do jornalismo.
Quando aqueles que deveriam ser as agências de rating da sociedade falham em toda linha, incapazes de detectar e alertar para problemas desta dimensão é óbvio que não valem o dinheiro que pedem. Para que é que interessa o jornalismo se as pessoas ficam surpreendidas e têm um choque a este nível?
Não devia começar por expressar a sua indignação em relação aos responsáveis pela ‘regulação’ bancária, (ir)responsáveis bancários, políticos e economistas incapazes de fazer prognósticos antes do jogo?
Eu diria o contrário: se não fossem muitos jornais e muitos jornalistas que alertaram em devido tempo para as causas e as consequências da crise, tudo seria ainda bem pior.
Se os jornalistas não são o alarme para que servem?
“…se não fossem muitos jornais e muitos jornalistas que alertaram em devido tempo…”
Falso.
Nenhum jornal ou jornalista alertou . As obsessões jornalistas na primeira década do Séc XXI foram o Aquecimento Global e o Bush.
Para o Aquecimento Global não pararam os avisos, pois tinha a coisa mais querida para a monocultura da classe: a culpa da sociedade capitalista e grandes programas para as expiar.
Dias sem carros tiveram todo o apoio, o Dia sem dívida não…algum jornal fala de zero défice? Não obviamente que não. Algum jornal colocou o valor da Dívida crescer todos o dias numa das suas páginas?
Aliás, como é que os jornais iriam atacar o crédito fácil que os deixa viver melhor?
Mas você defende o défice zero? Que país quer criar com défice zero?
Caro Pedro Correia,
Nao mencionou algumas publicacoes como o Jornal do Fundao, as revistas Broteria, Seara Nova, ou as Seleccoes do Reader’s Digest. Ainda existem?
O Jornal do Fundão existe e está de boa saúde, o que para mim é uma excelente notícia (é o jornal da minha terra de origem e um dos que me lembro desde sempre). A Seara Nova também resiste. As Selecções idem (ainda me lembro de ler durante anos a edição brasileira). Julgo que a Brotéria também ainda se publica.
Haja alguem que nos de boas noticias! A qualidade e por vezes premiada!
E bem andamos a precisar de boas notícias…
E não estarão os jornalistas de hoje – das chefias/direcções que não estão para se chatearem aos estagiários que mal sabem pensar e escrever, passando pelos outros que vão restando e pouco fazem – a ajudar ao enterro de uma imprensa que já foi credível e capaz de sobreviver apesar das dificuldades e das circunstâncias objectivamente negativas?
Não parece haver agenda própria nem vida para lá das “fontes”, iniciativa para lá da espuma das ondas, memória, critério, discernimento, rigor, capacidade de pensar, observar e escrever para lá do “on line”.
Os jornalistas que foram capazes de moldar o conteúdo dos jornais nos anos 90 desistiram de o fazer, Pedro Correia?
Toca num ponto importante. Tenho escrito com alguma regularidade sobre isso aqui. Mas tenho esperança de que as gerações de jornalistas mais jovens possam de algum modo resgatar a passividade e o amorfismo que se instalaram em muitas redacções. O problema é também a crescente proletarização desta classe profissional. Quando há editores de jornais de referência a ganhar 700 euros líquidos por mês, vivendo preocupados com as necessidades mais elementares do seu quotidiano, como podemos exigir-lhes que resistam a todas as pressões? E o facto é que, no entanto, a maioria resiste. Porque há um lado romântico da profissão que apesar de tudo não se perdeu.