Nada recomendável


Pedro Correia,

É confrangedora a falta de talento literário revelada por alguns que se apresentam agora como novos expoentes da ficção portuguesa. Hoje os romances proliferam como cogumelos, sob o complacente beneplácito de algumas editoras ávidas por encontrar o “novo Saramago” ou o “novo Lobo Antunes”. Tal como noutros tempos, no fado, se ansiava pela chegada da “nova Amália” ou, no futebol, se suspirava pela aparição do “novo Eusébio”.

Ainda há dias folheei um livrinho de um destes candidatos a novelistas da nova vaga, com aquela linguagem sincopada e cheia de alusões a “situações comuns” que parece estar na moda. O arrazoado começa com esta frase, nada digna de um Stendhal ou um Tolstoi: «Não tinha, de momento, outra alternativa.»

Este génio adiado mostra-se incapaz de perceber, logo na frase inicial, que “outra alternativa” é pleonasmo. E dos mais grosseiros.

Fechei o volume. Com um adeus até nunca mais.

0 comentários em “Nada recomendável”

  1. Pedro, imaginemos que dito protagonista tinha sido obrigado a decidir-se, no passado, por uma alternativa, designada x, considerada no presente errada. Considerado que poderia ter escolhido a alternativa y, a “outra alternativa, mas vendo-se impossibilitado de a prosseguir, penso que faz sentido distinguir por “outra alternativa”, a opção de escolha diferente daquela que foi efectivamente tomada….e pleonasmos é o que não faltam nos grandes romances….escrever um livro, um romance, não é o mesmo que escrever uma ” noticia”….

    1. Mas nesse caso alternativas seriam substituídas por opções. Ter alternativa é justamente ter mais que uma opção.

      1. “Alter”, em latim, significa outro. Daí a conhecida expressão “alter ego” (o outro eu).
        Alternativa deriva de “alter”.
        Escrever “outra alternativa”, ainda para mais na frase inicial de um livro, evidencia elementar falta de conhecimento do próprio idioma. Hoje há quem escreva “romances” sem a menor noção da língua portuguesa – no léxico, na sintaxe, na gramática e na etimologia.

  2. É verdade Pedro. A falta de tempo é sempre a melhor desculpa para não se pegar num livro, só ultrapassada pela falta de incentivo à leitura, derivada da falta de qualidade da escrita que nos oferecem. Se a proucura decresceu, a oferta tornou-se mercantilista. São muito poucos os bons e muitos os aglutinadores de muitas palavras, romances aos molhos, muito deslaçados.
    Aderi à re-leitura. Nunca desaponta.
    Mesmo quando pensamos em naftalina, acabamos por concluir que é seguramente um aroma mais feliz e suportável que o da mediocridade.

    1. Ando também em fase de releituras, cara Maria Dulce.
      Neste momento releio – com tanto prazer como quando reli ‘Os Maias’ – o ‘Portugal Contemporâneo’, do grande Oliveira Martins.

      1. Eu ando a reler o esquecido(?) João de Araújo Correia, o mestre de nós todos, nas palavras de Aquilino Ribeiro, talvez a melhor “voz” a descrever o seu Douro e a respectiva região.

        E a pureza da linguagem, a correcção, é extraordinária.

        Abraço

  3. S.Martinho de Anta, 19 de Abril de 1984
    __ Outro romance de um dos génios da hora.
    O esforço que tive de fazer para não desistir a meio! A entronização dos escritores, agora, faz-se pela negativa. Quanto menos legíveis, melhor.
    Acovardada ou cúmplice, a crítica jura e bate o pé que sim, que são obras-primas esses trambolhos que vão atulhando as montras. Autores e promotores esquecem-se apenas dum pormenor : que a propaganda ruidosa, que violenta a boa fé do leitor de hoje, já não poderá enganar a curiosidade livre do leitor de amanhã. É mesmo esse o encanto do futuro : nenhum dos seus juízos ser motivado pela agressão publicitária do presente. Ninguém mais lê os autores do século XVIII impostos ao gosto do tempo pela conjura dos peraltas e sécias dos salões.

    Torga

  4. E pronto, provaste mais uma vez que não é preciso escrever muito para dizer o essencial. Bingo!! Também como tu não vou citar nomes que fechei nos últimos meses. Mas agora compenso-me com o “Orlando”. Que começa assim: “Ele – como não havia dúvida a respeito do seu sexo, embora a moda do tempo concorresse para disfarçá-lo – estava atacando a cabeça de um mouro, que pendia das vigas”.

  5. Também li o pleonasmo. E vi, claramente visto, que era um pleonasmo repetitivo. Topei logo à primeira leitura.

  6. Da Infopédia (Porto Editora)

    Cansaço – nome masculino
    1.
    fadiga; esfalfamento
    2.
    fraqueza
    3.
    figurado enfastiamento, enfado

    Isabel

  7. … e depois as e os “bloggers” de entretenimento / “lifestyle” / e-por-aí-fora, que escreveram duas tretas, ou alguém lhas escreveu (pelo menos, corrigiu), e que se apresentam como isto e aquilo, e ainda… “escritores”.
    …
    “escritores”.

    não há “emoji” para isto.

  8. “O novo Rodrigues dos Santos, mestre tecelão de banalidades de criar bicho”

    Está milionário, por sinal, o grande sacana.

  9. Qual é problema dos pleonasmos? Por esse critério (é fracote quem escreve pleonasmo) não há escritor que se safe (ou há poucos).

  10. Lamento imenso mas não consigo ver por que razão o dito pleunasmo da frase inicial inibe o resto da leitura. Na verdade também não leio muito os autores novos, mas sobretudo porque são muitos e o meu dinheiro não é elástico. Mas de vez em quando experimento um ou outro. Gosto de alguns. Foi assim que conheci Afonso Cruz e valter hugo mãe e não desgosto deles. Hoje já não são novos autores mas quando os li, eram.

  11. “Se pelo exemplo dos sábios,
    livro, guiares-te souberes,
    não hão-de os tolos dizer-te
    que não sabes o que fazes.
    Mas se te apressa o cuidado
    de ires ter a mãos idiotas,
    verás em abrindo os olhos
    que não dão uma no cravo,
    por mais que profiem bravos
    por mostrar que são curiosos
    ………………………………….…………
    mas de velas queima a cera
    por mor só de fama boa
    pois a quem imprime à toa
    o censo perpétuo espera
    Atenta que é desatino,
    quem tem de vidro o telhado,
    de pedras andar armado
    para atirar ao vizinho.
    Deixa que o homem de siso
    nas obras que vá compondo
    guarde toda a sua conta,
    que quem escreve esparrelas
    para entreter as donzelas
    escreve à louca e à tonta.”

    Ao livro Dom Quixote de La Mancha
    Urganda a desconhecida

  12. Essa do «novo Eusébio»! Já foi encontrado há muito e, como sportinguista, deveria saber que é o CR7.

  13. Eu descobri o prazer dos clássicos na sua língua original, ando de roda de Salinger, Joyce e Camus. Em Português estou embrenhado no D. Quixote, na versão de Aquilino Ribeiro. Um prazer.
    Literatura contemporânea não me cativa (muito) pelo motivo que o Pedro aqui refere.

  14. Eu não sei se estarei devidamente habilitado a participar na esclarecedora discussão, os senhores, e particularmente o autor do artigo dirão, mas ouso e avanço que os novos autores são vítimas de uma grande injustiça a quem lhes são cortadas as asas à nascença.
    Isto porque eu tive o privilégio da bem-aventurança, tão parcamente distribuída e só outorgada a um restrito número de eleitos, e li o “Tás a Ver” do Big Mário, essa personagem histórica do primeiro Big Brother do nosso deleitamento, e asseguro que é leitura de eleição.
    E para completar a panóplia do indizível deslumbramento literário nacional, também tive, acho que por Graça Divina, privilégio igual, senão maior, de ler “As Minhas Viagens” da incomparável Parrachita, de seu glorioso nome.
    Tudo para dizer, com profundo conhecimento de causa, que não dar a oportunidade e ceifar a jovem criatividade nacional, deveria ser considerado crime ao nível de homicida premeditado.

      1. Parrachita, Pedro; Parrachita.
        Qualquer coisa de grandioso. Épico.
        A África selvagem, arrepiante, feroz e impenetrável por onde os périplos da intrépida exploradora desbravaram caminho e conduziram a perigos inimagináveis.
        Cabo Verde, de seu sinistro e terrificante nome.

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