Nada disto tem sentido


Sérgio de Almeida Correia,

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Tudo o que tem vindo a acontecer desde a altura em que o Presidente da República marcou a data das eleições legislativas para 4 de Outubro revela o anacronismo do nosso sistema político. A falta de correspondência com a realidade raia o absurdo e é bem sintomática da ausência de sentido útil e de desfasamento da realidade em que os nossos actores políticos exercem as suas funções.

Um sistema eleitoral que vive longe dos eleitores, um modelo de representação que grosso modo representa apenas metade do país, partidos sem militantes, entregues às suas camarilhas, desligados dos simpatizantes e dos eleitores, querelas inexplicáveis entre órgãos institucionais, tudo numa dimensão e com uma coreografia que só é compreensível à luz da pequenez dos titulares dos cargos e da ausência de uma elite política que crescesse com a democracia.

Esta manhã li no Expresso que durante dois dias a digníssima Assembleia da República e os comissários dos partidos que por lá se encontram, mais conhecidos como deputados, irão discutir o programa de um Governo que nasceu morto. Durante dois dias e umas intermináveis horas, para gáudio dos jornais e televisões, cumprindo-se o formalismo necessário à sua anunciada rejeição pela maioria dos deputados.

É claro que em causa não está a legitimidade do órgão ou de qualquer solução de governo saída da Assembleia da República.

A legitimidade dos deputados eleitos é igual entre todos e qualquer solução que dali desponte será do ponto de vista político inatacável, por muito que isso custe aos apaniguados da coligação. Poder-se-á falar de ética, de moral, de “golpada política”, de falta de seriedade, do que quiserem, tudo isso é discutível, mas jamais de falta de legitimidade.

Uma coisa é o que nós desejaríamos que acontecesse, outra a vontade dos decisores políticos, dos mandatários.

Os eleitores escolheram os seus representantes. Vivemos num sistema de representação proporcional, o que eles fizerem de bom ou de mal, usurpando o mandato, excedendo os limites do contrato que estabeleceram com o eleitorado, dando-lhe outro sentido, correndo riscos desnecessários, promovendo soluções que não foram eleitoralmente sufragadas, tudo isso será eventualmente criticável e deverá ser discutido à luz dos factos, mas por agora é irrelevante e só será sancionado na altura própria pelos eleitores quando ocorrer o próximo acto eleitoral.

Por agora, limito-me a verificar o quão distante tudo isto está da vida dos portugueses, dos seus anseios enquanto comunidade, do seu sentir enquanto pessoas e cidadãos que pagando impostos gostariam de poder viver num país melhor, mais decente, menos desequilibrado e mais civilizado.

O tempo que agora alguns irão perder num inconsequente exibicionismo parlamentar, enquanto o país aguarda que apareça quem governe e aprove um orçamento, é bem a imagem do nosso atraso, da distância que afasta a democracia dos eleitores e da importância de se terem elites a governar, em vez de funcionários subservientes, provincianos e dependentes de tenças políticas, de cronómetros e de calendários eleitorais.

Infelizmente, Portugal hoje é isto, e pouco mais do que isto.

0 comentários em “Nada disto tem sentido”

  1. durante dois dias a digníssima Assembleia da República e os comissários dos partidos irão discutir o programa de um Governo que nasceu morto

    Não nasceu morto. Somente há dois ou três dias é que se constatou que o PS, BE e PCP concordam numa alternativa e, em consequência, o PS se prestou a derrubar este governo. Quando este governo nasceu, não era ainda certo que PS, BE e PCP se pudessem entender.

  2. Caro Sérgio de Almeida Correia:
    O seu texto transmite, de maneira pungente, o sentir de muita gente no nosso país.
    Sim, porque ainda há muita gente que usa os neurónios para pensar e consegue furtar-se às lógicas maniqueístas das seitas partidárias (de Direita e de Esquerda) ou da «ditadura» das ideologias (igualmente de Direita e de Esquerda).
    É do melhor que tenho lido ultimamente.
    Embora hoje também tenha lido este texto corajoso de Clara Ferreira Alves, que ficará nos anais do jornalismo dado o seu carácter, a um tempo histórico, a outro, premonitório.
    http://expresso.sapo.pt/politica/2015-11-07-Anticomunista-obrigada

  3. Foi atropelado o Passos, o Seguro, o Assis, caíu o Muro, as garotas passadas a ferro, Alegre ficou boquiaberto … onde irá parar o buldozer?

    Como diz o ceguinho…!

  4. Aplaudo o texto de pé, com uma única ressalva: os portugueses têm voz no que respeita ao seu futuro todos os dias.

    As pessoas não são autómatos durante quatro anos, até que lhes seja conferido o direito de colocar uma cruzinha num boletim de voto. Nesse dia milagroso, as pessoas, imbuídas de espírito crítico, sairiam de casa com a consciência de que iriam votar na apresentação das contas do seu passado e determinar o seu futuro com a eleição dos seus representantes para os próximos quatro anos, regressando ao seu estado anódino por igual período.

    Passada esta ressalva, volto a aplaudir de pé o seu texto.

  5. “revela o anacronismo do nosso sistema político. ” Tem toda a razão, a democracia tem destas coisas. É tempo de acabar com ela e dar sentido sério às coisas. Quer combinar um encontro comigo a fim de começarmos a preparar um golpe de estado que nos reconduza ao bom caminho?
    “mais conhecidos como deputados,” claro, são mas é umas bestas. Estou consigo.

  6. Na generalidade, não posso deixar de concordar consigo, mas o Sérgio não pôs o dedo em muitas feridas.
    Quando diz que “os eleitores escolheram os seus representantes”, seria melhor que escrevesse “os eleitores escolheram os PARTIDOS seus representantes”, o que não é a mesma coisa.
    Eu reparei que escreveu que temos “um sistema eleitoral que vive longe dos eleitores”, sem referir que, no meu entender, a chaga começa, exactamente, na forma de recrutar os candidatos a deputados – no PC a escolha recai, quase essencialmente e como se sabe, apenas entre os seus funcionários, no PS e nos outros Partidos, os candidatos são escolhidos, quase exclusivamente, entre os fieis ao “chefe-mor”, quase todos eles dependentes do salário de deputado, sem razoáveis possibilidades de recuo, logo não gozando de inteira liberdade para manifestarem os seus pontos de vista, as suas opiniões, vendo-se obrigados a apoiar, acefalamente, todas as posições do Partido.
    O Sérgio defende que “a legitimidade dos deputados eleitos é igual entre todos e qualquer solução que dali desponte será do ponto de vista político inatacável, por muito que isso custe aos apaniguados da coligação”, mas eu, também neste ponto, não o acompanho: a forma como a nossa AR é constituída pode e deve ser atacada, inclusive do ponto de vista da legitimidade, mas, sobretudo, do ponto de vista político. Quem legislou assim – listas fechadas apenas apresentadas por Partidos políticos -, podia ter legislado diferente, criando círculos nominais, p.e. A mim, parece-me era bom que se começasse a questionar a legitimidade dos deputados, sobretudo dos incompetentes, que só ascendem a essa posição apoiados em “fidelidades caninas” aos seus chefes partidários e que, por regra, não mostram qualquer respeito pela vontade dos “seus” eleitores, a quem nunca prestam contas.

  7. Nem sei como não proibiram PSD e CDS de entrar na AR. Dava-se-lhes um papelito a dizer “despedidos” e assim não punham Ideias no povo em inconsequente exibicionismo parlamentar – isso é só para a xuxalada do Costa,
    e para os amigos recentes, enquanto mansos se quedarem.
    É que em nome da urgência, a socretinada reciclada poderia encurtar tempos de “nomeações” e restabelecimento de rendas ao “Beau Monde” da Capital e anexos, para restaurarem o champanhe françês em lugar dos espumantes da Raposeira -qu’horror!!!!!!
    Fosse o notável Marco António Costa a acenar a tal abreviação, não faltariam pitonisas “gauchistes” a antecipar turbas de ‘fássistas”!!!
    Mas, valha-nos a sorte, temos um “boy” Nuno Santos, portador de consistência curricular, académica e professional que irá pôr as pernas a tremer a Europeus Banqueiros, Comissões e Banco Centrais, extensível a Sra. Merkel e ao Sr. Schäuble.

    Boa Noite e Boa Sorte,

  8. Tens inteira razão Sérgio, fosse Salazar vivo e aquela assembleia estaria mais asseadinha, despojada daqueles que a desonram. Só espero que finalmente quando fizermos de Marcelo o verdadeiro presidente, o Nosso Presidente, os varra dali para fora. Há muito espaço que ficou livre em Peniche, igualmente em Caxias, há que dar-lhes de novo utilidade e desta vez não escaparão.

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