Na Sopa (6) – Júlia & Juliana


Maria Dulce Fernandes,

Screenshot_20210314-150255_Office.jpg

A facilidade que as crianças têm em fazer associações de ideias remete-me sempre para a Sopa Juliana. O eu da minha infância nunca teve a mínima dúvida de que o nome de Sopa Juliana se devia ao facto de a mesma ser confeccionada pela Avó (bisavó)Júlia.  Lá vinha ela às 2as feiras, nos tempos em que a “praça” apenas encerrava ao Domingo, com a alcofa de palha cheia de embrulhos de papel de jornal em forma de cartucho de tremoços, com meio quilo dos mesmos e uma quarta de pevides para os meninos, couve e cenoura picadinhas naquela maquineta redonda de dar à manivela que a tia Adelaide tinha na banca da praça, uma quarta de feijão encarnado e batatas, cebolas, cenouras e abóbora a granel lá mais no fundo da alcofa.

Tirava o xaile castanho, guardava ciosamente a caixinha do rapé, arregaçava as mangas, botava  um avental cinzento com frente e verso sobre a saia comprida, atava o lenço preto na nuca e começava a preparar a base da sopa, com batata, cebola, cenoura, abóbora e alho e cozia  à parte o feijão encarnado previamente demolhado.

A Avó Júlia, a única verdadeira cozinheira da família, trabalhara na cozinha do Palácio das Necessidades antes da República e sabia cozinhar como ninguém,  apesar de os seus conhecimentos gastronómicos não poderem ser aplicados em casa com frequência,  porque o custo de vida e a família numerosa não lhe permitiam preparar na modesta cozinha com fogão a lenha, os acepipes que cozinhava para a realeza. Contava ela  com aquele meio sorriso de pessoa sofrida, que também tinham que ser inventivas e algo malabaristas com o orçamento na cozinha do palácio,  porque a Rainha D. Amélia era muito rígida com as contas,  bastante forreta e muito exigente.

“ D. Amélia de Orleães,  que em Portugal foi Rainha, tinha coração de fera e julgava ser santinha”, cantarolava a Avó Júlia, a título de pregão explicativo das coisas que tinham sido.

Sopa havia sempre e em boa quantidade, por isso a “entrada” era invariavelmente sopa , que tinha que ser consumida a todas as refeições e até acabar o panelão.

Por estranho que possa parecer, a criançada comia o que comiam os adultos e se a sopa tinha couves e feijões,  pois que era o que havia para comer e com fita ou sem fita a sopa era uma instituição.

Eu não gostava de sopas com “couves”. Qualquer legume que obrigasse a um processo de mastigação mais demorado, era um tormento. De todas as sopas de“ couves”, o meu ódio de eleição recaía na sopa de feijão verde. Ainda agora a minha relação com as judias verdes é bastante tensa. Já a couve branca curiosamente comia bem, enrolada tipo esparguete e feijãozinho, sempre.

Depois de cozinhados os legumes eram passados pelo enorme passe-vite de folha, acrescentados de água, azeite , sal e da Juliana de couve e cenoura e por último do feijão encarnado já cozido.

Se era boa a sopa, nem vale a pena perguntar. Por muito que  tente reproduzir os sabores de antigamente, nunca consegui alcançar o sabor que emanava da paixão pela cozinha e pela família que a Avó Júlia acrescentava aos condimentos de  todas  as suas sopas e de  todos os seus cozinhados.

16 comentários em “Na Sopa (6) – Júlia & Juliana”

  1. Continuam uma delícia estes seus postais.
    Comungo do ódio à sopa de feijão verde, apesar de gostar das vagens a acompanhar a Pescada com todos.
    Também fui habituada a comer sopa de entrada e como quase todas as crianças detestava. Dizia sempre que o meu prato era só para sujar (1/4 de concha para enganar os incautos.
    Bom Domingo. 🙂

  2. Quando as sopas são bem feitas, tanto faz serem verdes ou amarelas e se os produtos forem frescos são de comer e chorar por mais.
    Gosto de sopa Juliana, gosto de sopa de feijão verde, gosto de sopa alentejana, e gosto de todo o tipo de sopa que além do sabor respectivo também traga o sabor regional.

    1. Há muita verdade no que diz. Eu posso dizer sem peneiras que as minhas sopas são muito boas, mas não se comparam às da Avó Júlia. Tal como as fatias de pão escuro com manteiga que ela me dava ao lanche e que não têm igual a seja o for que por aí haja. Esta busca dos sabores de antigamente não tem sido em vão, de todo, mas também não tem sido tão conseguida como gostaria, Carlos

  3. Mais uma bela sopa! Há muito tempo que não faço. Normalmente tendo a preferir os legumes verde escuros. Adorei a relação entre o nome da sopa e o nome da avó Júlia. É mesmo assim que funciona a mente infantil! Tão bom! 🙂
    PS- Não seria que essas sopas antigas levassem uma colher de banha de porco?

    1. É possível que levassem banha, sim.
      Lá em casa, tanto quanto me lembro, não se cozinhava muito com banha. A minha Avó Adelaide era da Beira Baixa e o meu pai também e todos os anos se ia “à terra” e se trazia azeite, mas acredito que antes disso a “sustância do alento nas sopas” fosse banha de porco.
      Boa semana, Susana.

    2. tendo a preferir os legumes verde escuros

      !!! A quais se refere? Couve galega? Pimento verde? Couve toscana? Couve kale?

      banha de porco

      Quase sempre as minhas sopas são feitas com banha de porco como gordura, em vez de azeite. Nos outros cozinhados uso azeite, só raramente banha.

  4. Por estranho que possa parecer, a criançada comia o que comiam os adultos

    !!! Os meus filhos sempre comeram o mesmo que os adultos comem. (Com execeção de comida picante, que as crianças não toleram.) Em particular, comem perfeitamente todas as sopas, inclusive (eu diria até: sobretudo) as que têm muitas couves.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *