Na Sopa 4 – Verde que te quero verde


Maria Dulce Fernandes,

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Inverno sem frio é lá Inverno!

O fogo crepitava no lar de pedra quadrada e negra de fuligem. Ficávamos sempre defumados na procura do calor, mas sabia tão bem. “Onde vais?”, pergunto à Lúcia vendo-a vestir o casacão. “Vou buscar couves para uma sopa.” Sorrio para a minha filha. “Como na história dos sete cabritinhos, vês? Vou contigo!” “Faz frio…” Embrulhei-me no grande xaile de lã, pus o gorro e lá fomos às couves. “Mais aquela”, disse a Lúcia já com uma braçada de uns cinco pés. Pelo caminho colheu umas ervas nuns arbustos. “Mato para dar sabor”, explicou.

De volta à cozinha, a água já fervia nas grandes panelas de ferro com os três pés bem assentes na brasa. Descascámos batatas, picámos cebolas e alhos e juntámos tudo à água fervente. Depois de lavarmos bem as folhas mais tenras, enrolámos as couves num charuto e cortámo-las fininhas. Um mimo de couves aquelas do sopé do Gerês. A Lúcia pegou nos ramos de mato, atou-os firmemente com uma guita e panela com eles.

Depois de todos os ingredientes cozidos com umas pedrinhas de sal e azeite até estarem bem desfeitos,  retirou-se o mato e acrescentou-se mais água  a ferver e as couves. O aroma era divinal. Cheirava a agasalho e a conforto. E o sabor? Com duas generosas rodelas de chouriço, aquele sabor único, agridoce e aconchegante nunca o consegui reproduzir. As hortaliças, a água, as panelas, o fogo, o molhinho de mato, aquelas coisas simples do dia a dia da Lúcia, guardam até hoje o mistério do melhor caldo verde do mundo.

Talvez seja como diz o outro, o bom sai bem. Mas no que me diz respeito o bom é apenas em Vila Verde.

22 comentários em “Na Sopa 4 – Verde que te quero verde”

  1. Se não fossem as sopas da Maria Dulce Fernandes, esse 3.º elemento acima do modelo binário (uma espécie de “espírito santo”), talvez, acabássemos todos aqui numa guerra fratricida e sanguinária.

          1. Também voto na Sopa da Paz.
            Caldo-verde com direito a guita a atar um molhinho de mato só para dar sabor? Voto e confio de olhos fechados.
            Boa semana, Maria Dulce. 😊

          2. Nem sei se a minha cunhada Lúcia sabe que mato era; também põe outro tipo de mato num estufado de coelho de lamber os dedos. Deve ser daquelas ervas selvagens que se põe no comer porque sempre se fez assim em gerações.
            Mas que é o melhor caldo verde que já comi, garanto, Isabel.

          3. Acredito. Tem todo o ar de ser óptimo.
            Não sabia que se punha as tais ervas no caldo-verde e no estufado de coelho (que também gosto muito). Mas lembro-me de ver colocar ‘mato cheiroso’ a queimar no forno a lenha para dar sabor aos assados.

          4. Do que me lembro a queima dessas ervas ou mato também servia para ‘limpar’ o forno e prepará-lo para o próximo cozinhado.
            Falar de cabrito e batatinhas assadas no forno a lenha a esta hora do dia? Ai, ai, a desgraça.

  2. Há sabores que nos ficam na memória. São únicos e não apenas porque a memória assim os traz. Por serem. Há também assim pessoas.

  3. nunca o consegui reproduzir

    Não consegue reproduzir porque a comida cozinhada em fogo a lenha fica sempre muito melhor.
    Na minha casa da aldeia tenho uma salamandra em cima da qual cozinho. Fica muito melhor do que num fogão a gás.

  4. Estes seus textos ” dulcíssimos” são uma viagem “á procura do tempo passado ( recuso o “perdido” ).
    Sou do campo, como se dizia nesse longínquo tempo que foi meu, i/emigrante interno nos arredores da Grande Cidade, finais da década de 50.
    Mas as memórias dos sabores, odores/perfumes gastronómicos e seus rituais agregadores permanecem comigo, o rapazito que era então.
    Estas suas descrições magistrais fazem-me regressar a esses anos.
    Desculpe-me o arrazoado mal alinhavado – mas é-me extremamente difícil pôr sentimentos em palavras.
    Obrigado,
    jsp

      1. É como o pão, os bolos, as tijeladas, feitos no forno a lenha: não têm nada a ver com os feitos em fornos eléctricos, embora o preparado seja igual.
        E qualquer sopa cozinhada numa panela de ferro é outra coisa, mas agora já quase ninguém faz isso.
        Aposto que nesse mato havia carqueja…
        Obrigada, Maria Dulce, pela sua sopa da paz.
        Beijinho.
        🌿🌼
        Maria

      1. O tempero dos chouriços no norte é feito com vinho verde. O sabor em cru é completamente diferente, é uma delicia. E então com queijo, nem se fala.

        1. Matámos um porco e fizemos chouriços em Rodeias, Vila Velha de Ródão. Alho, pimentão, cravinho e sal, tudo em tripa bem lavada no ribeiro. Em Vila Verde apenas comemos. e sempre muito. O arroz de estrugido de pica no chão é uma coisa de outra dimensão.

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