Na Sopa – 3 Todos à fava


Maria Dulce Fernandes,

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Durante muitos anos, associei as favas à ‘Ti Frágil, vizinha dos meus avós em Belém, mais conhecida no bairro como a mulher da fava-rica. Não fazia jus ao nome, a ‘Ti Frágil, bastava olhar para a enorme panela cheia de fava-rica que punha à cabeça sobre a rodilha e, perfeitamente equilibrada, seguia com ela por aí fora com o seu pregão, antes do sol nascer, até se lhe acabar o preparado.

A fava-rica que a minha mãe fazia, segundo a receita da ‘Ti Frágil, era confeccionada com fava seca que se punha de molho em água abundante durante mais de 24 horas. Era seguidamente limpa dos olhos e carneiros quase sempre presentes na fava seca, e levada a cozer em água e sal até começar a criar um caldo com as favas meio desfeitas. À parte, coze-se alho picado em azeite, sem deixar queimar. Junta-se depois ao caldo de favas e deixa-se refogar. Junta-se uma colher de sopa de vinagre e serve-se bem quente, de preferência com pão rijo. A minha mãe nunca se conformou com a sua fava-rica. Dizia que ficava a milhas da da ‘Ti Frágil, mas eu gostava bastante; foi única que provei.

Nem sempre fui apreciadora de favas. Aliás, durante toda a minha juventude devo ter sido a maior odiadora de favas da família. Qualquer receita de favas bem podia aguardar até vir a mulher da fava-rica, no que me dizia respeito, mas foi um gosto que fui adquirindo com o tempo e não troco umas belas favas guisadas (com coentros, entrecosto, toucinho e enchidos), ou salteadas como acompanhamento ou o sublime puré de favas, por um almoço de sushi, por exemplo (bom, a verdade é que não troco seja o que for por um almoço de sushi).

A primeira vez que fui à fava, foi na quinta da Barra Cheia. Devia ser Maio e eu devia ter onze ou doze anos. Apanhámos umas poucas de sacas de serapilheira cheiinhas de vagens de fava, que dividimos pelo consumo imediato, pelo congelador e pela secagem. A minha mãe gostava das favas grandes e rijas para puré. Tirava-lhes a casca, os olhos e a pele e cozia-as com duas cebolas, cinco dentes de alho, um raminho de coentros, sal e azeite. Servia-as com pedaços de pão torrado, os antepassados dos croutons. Não mudei muito a receita; acrescento uma cenoura, um alho francês e uma curgete apenas quando as favas são tenras para puré e passo todo o puré triturado pelo crivo para limpar as peles que depois de moídas se tornam muito desagradáveis.

As favas, compro-as na vagem. Nem sempre as descasco de imediato. Espero a companhia da minha filha, que tem saudades de se sentar com a avó a descascar favas e a ver televisão. A minha neta junta-se a nós e o meu neto ajuda a desestabilizar tudo, com riso qb à mistura.

 Há tradições que são para manter.

20 comentários em “Na Sopa – 3 Todos à fava”

  1. durante toda a minha juventude devo ter sido a maior odiadora de favas da família

    É, os meus filhos são a mesma coisa. Detestam favas. Mas quando eram mais novos detestavam ainda mais.

    O paladar das pessoas muda com a idade. Por exemplo, o vinho é uma bebida que quase sempre desagrada aos jovens, os quais preferem cerveja, mas agrada aos adultos.

  2. não troco umas belas favas guisadas… por um almoço de sushi

    Agora que passou a moda parva do sushi já se pode voltar a comê-lo. Não é incompatível com as favas. Por mim almoçava o estufado de favas com chouriço e jantava o sushi.

    1. Não sou grande apreciadora de sushi , Isabel. Também não detesto. Como para fazer companhia
      Eu tento jantar pouco, ou pouco calórico. Nem sempre consigo ser mais forte do que a minha vontade ( de comer, claro).

  3. Adoro favas. Sobretudo acabadas de apanhar, cozidas e temperadas com alho, azeite e coentros. E as crianças também adoram. Costumava congelar o excesso, mas numa tentativa de ser mais sustentável fiz a experiência de as secar. Ficam diferentes, mas boas na mesma. E com elas secas dá para fazer a célebre fava rica. Uma iguaria que todos apreciam!
    Gosto imenso destas suas histórias. 🙂
    PS- Lembro-me tão bem de descascar as favas com a minha avó!

    1. É como eu mais aprecio, em fava rica ou puré, apesar de não ter aquela ” mão” que a minha mãe tinha.
      Descascar favas, ou feijão ou ervilhas… pôr conversa em dia… muita saudade por aqui também, Susana

      1. Eu nunca comi fava-rica feita pelas profissionais. Pesquisei a receita a propósito das favas que sequei. Como não tenho termo de comparação adoro minha fava-rica. Junto massa de pimentão ao alho e azeite. Na próxima experimento o vinagre. 😉

  4. Adoro favas! Quando os meus filhos eram pequenos,no tempo delas e das ervilhas,dava um tuperwere a cada um e ficavam entretidos a descascar. Saudades…😍 Agora também aproveito e vou descascando e vendo TV.

    1. Quando eu era miúda, sentávamo-nos antes da emissão de tv começar a preparar os legujes e a ouvir Simplesmente Maria, a Dama dos cabelos de Bronze… a minha avó e a minha Tia Adelaide não perdiam um episódio.

  5. Sempre adorei favas, desde miúda, e continuo a gostar muito
    Mas é verdade que vamos mudando com a idade. Não conseguia comer nabos (só o cheiro me enjoava) e cenoura cozida também não, mas adorava cenoura crua.
    O que eu sofri 😪 que a minha mãe era do estilo: aqui não há esquisitices e não há comida especial para ninguém.
    Um belo dia, já bem crescidinha, dei comigo a fazer creme de legumes com nabo e cenoura e a gostar do sabor… depois passei a não passar sem eles junto aos brócolos nos pratos de peixe cozido ou grelhado.
    Vá-se lá compreender as mulheres, né? 😂

    Bom entardecer, Maria Dulce.
    🌅
    Maria

    1. Cenoura crua é comigo desde que me lembro. Devo ter costela de coelho. Dos nabos, só os grelos. Muitos. Bem salteados a acompanhar seja o que for, cozido, frito ou grelhado, Maria.
      Beijinhos e obrigada! 🌛

  6. Também sou apologista de manter algumas tradições familiares. Mas nunca fiz sopa de fava, deve ser muito forte. Gosto bastante de uma favada com chouriço preto e toucinho fritos antes e suadas nessa gordura com um ramo de coentros espigados e envolvidos pelas folhas verdes dos alhos. Acompanha com uma bela salada de alface a que se junta hortelã. Era assim que os alentejanos mais antigos comiam as favas. Foi como as ensinei a minhas irmãs embora hoje elas já atoleimem a receita com presunto e entrecosto. Mas é refeição que me basta uma a duas vezes no ano:)
    Boa noite

  7. Adorava descascar favas com a minha avó. Dava-me as mais pequenas dizendo para cada mão a sua fava.
    O meu pai ensinou-me a cozinhá-las e a comê-las: com casca (ainda tenras e acabadas de apanhar) e cozidas são esmagadas e salteadas em azeite com cebolinho e vinagre. E claro, a acompanhar com alface. Hum! Deliciosas!
    Boas favadas,
    Catarina Silva

    1. Tenho que sxperimentar essa receita com casca de fava, Catarina. Parece-me bem boa.
      Com as cascas fiz uma vez apenas esparregado , mas a receita que me deram tem pão e não me seduziu por aí além . Obrigada pela dica!

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