
Durante muitos anos, associei as favas à ‘Ti Frágil, vizinha dos meus avós em Belém, mais conhecida no bairro como a mulher da fava-rica. Não fazia jus ao nome, a ‘Ti Frágil, bastava olhar para a enorme panela cheia de fava-rica que punha à cabeça sobre a rodilha e, perfeitamente equilibrada, seguia com ela por aí fora com o seu pregão, antes do sol nascer, até se lhe acabar o preparado.
A fava-rica que a minha mãe fazia, segundo a receita da ‘Ti Frágil, era confeccionada com fava seca que se punha de molho em água abundante durante mais de 24 horas. Era seguidamente limpa dos olhos e carneiros quase sempre presentes na fava seca, e levada a cozer em água e sal até começar a criar um caldo com as favas meio desfeitas. À parte, coze-se alho picado em azeite, sem deixar queimar. Junta-se depois ao caldo de favas e deixa-se refogar. Junta-se uma colher de sopa de vinagre e serve-se bem quente, de preferência com pão rijo. A minha mãe nunca se conformou com a sua fava-rica. Dizia que ficava a milhas da da ‘Ti Frágil, mas eu gostava bastante; foi única que provei.
Nem sempre fui apreciadora de favas. Aliás, durante toda a minha juventude devo ter sido a maior odiadora de favas da família. Qualquer receita de favas bem podia aguardar até vir a mulher da fava-rica, no que me dizia respeito, mas foi um gosto que fui adquirindo com o tempo e não troco umas belas favas guisadas (com coentros, entrecosto, toucinho e enchidos), ou salteadas como acompanhamento ou o sublime puré de favas, por um almoço de sushi, por exemplo (bom, a verdade é que não troco seja o que for por um almoço de sushi).
A primeira vez que fui à fava, foi na quinta da Barra Cheia. Devia ser Maio e eu devia ter onze ou doze anos. Apanhámos umas poucas de sacas de serapilheira cheiinhas de vagens de fava, que dividimos pelo consumo imediato, pelo congelador e pela secagem. A minha mãe gostava das favas grandes e rijas para puré. Tirava-lhes a casca, os olhos e a pele e cozia-as com duas cebolas, cinco dentes de alho, um raminho de coentros, sal e azeite. Servia-as com pedaços de pão torrado, os antepassados dos croutons. Não mudei muito a receita; acrescento uma cenoura, um alho francês e uma curgete apenas quando as favas são tenras para puré e passo todo o puré triturado pelo crivo para limpar as peles que depois de moídas se tornam muito desagradáveis.
As favas, compro-as na vagem. Nem sempre as descasco de imediato. Espero a companhia da minha filha, que tem saudades de se sentar com a avó a descascar favas e a ver televisão. A minha neta junta-se a nós e o meu neto ajuda a desestabilizar tudo, com riso qb à mistura.
Há tradições que são para manter.

durante toda a minha juventude devo ter sido a maior odiadora de favas da família
É, os meus filhos são a mesma coisa. Detestam favas. Mas quando eram mais novos detestavam ainda mais.
O paladar das pessoas muda com a idade. Por exemplo, o vinho é uma bebida que quase sempre desagrada aos jovens, os quais preferem cerveja, mas agrada aos adultos.
É verdade. A idade sem quaoquer dúvida, refina o palato .
Maravilha!
Pode crer. É mesmo uma pequena maravilha.
não troco umas belas favas guisadas… por um almoço de sushi
Agora que passou a moda parva do sushi já se pode voltar a comê-lo. Não é incompatível com as favas. Por mim almoçava o estufado de favas com chouriço e jantava o sushi.
Não sou grande apreciadora de sushi , Isabel. Também não detesto. Como para fazer companhia
Eu tento jantar pouco, ou pouco calórico. Nem sempre consigo ser mais forte do que a minha vontade ( de comer, claro).
Favas guisadas!!!
Puré, :P. 😛 😛 😛
Também gosto muito
Adoro favas. Sobretudo acabadas de apanhar, cozidas e temperadas com alho, azeite e coentros. E as crianças também adoram. Costumava congelar o excesso, mas numa tentativa de ser mais sustentável fiz a experiência de as secar. Ficam diferentes, mas boas na mesma. E com elas secas dá para fazer a célebre fava rica. Uma iguaria que todos apreciam!
Gosto imenso destas suas histórias. 🙂
PS- Lembro-me tão bem de descascar as favas com a minha avó!
É como eu mais aprecio, em fava rica ou puré, apesar de não ter aquela ” mão” que a minha mãe tinha.
Descascar favas, ou feijão ou ervilhas… pôr conversa em dia… muita saudade por aqui também, Susana
Eu nunca comi fava-rica feita pelas profissionais. Pesquisei a receita a propósito das favas que sequei. Como não tenho termo de comparação adoro minha fava-rica. Junto massa de pimentão ao alho e azeite. Na próxima experimento o vinagre. 😉
Hei-de experimentar a massa de pimentão. Parece-me uma mais-valia.:)
Adoro favas! Quando os meus filhos eram pequenos,no tempo delas e das ervilhas,dava um tuperwere a cada um e ficavam entretidos a descascar. Saudades…😍 Agora também aproveito e vou descascando e vendo TV.
Quando eu era miúda, sentávamo-nos antes da emissão de tv começar a preparar os legujes e a ouvir Simplesmente Maria, a Dama dos cabelos de Bronze… a minha avó e a minha Tia Adelaide não perdiam um episódio.
Sempre adorei favas, desde miúda, e continuo a gostar muito
Mas é verdade que vamos mudando com a idade. Não conseguia comer nabos (só o cheiro me enjoava) e cenoura cozida também não, mas adorava cenoura crua.
O que eu sofri 😪 que a minha mãe era do estilo: aqui não há esquisitices e não há comida especial para ninguém.
Um belo dia, já bem crescidinha, dei comigo a fazer creme de legumes com nabo e cenoura e a gostar do sabor… depois passei a não passar sem eles junto aos brócolos nos pratos de peixe cozido ou grelhado.
Vá-se lá compreender as mulheres, né? 😂
Bom entardecer, Maria Dulce.
🌅
Maria
Cenoura crua é comigo desde que me lembro. Devo ter costela de coelho. Dos nabos, só os grelos. Muitos. Bem salteados a acompanhar seja o que for, cozido, frito ou grelhado, Maria.
Beijinhos e obrigada! 🌛
Também sou apologista de manter algumas tradições familiares. Mas nunca fiz sopa de fava, deve ser muito forte. Gosto bastante de uma favada com chouriço preto e toucinho fritos antes e suadas nessa gordura com um ramo de coentros espigados e envolvidos pelas folhas verdes dos alhos. Acompanha com uma bela salada de alface a que se junta hortelã. Era assim que os alentejanos mais antigos comiam as favas. Foi como as ensinei a minhas irmãs embora hoje elas já atoleimem a receita com presunto e entrecosto. Mas é refeição que me basta uma a duas vezes no ano:)
Boa noite
Grande prepadado de favas esse seu! Adoro!
Adorava descascar favas com a minha avó. Dava-me as mais pequenas dizendo para cada mão a sua fava.
O meu pai ensinou-me a cozinhá-las e a comê-las: com casca (ainda tenras e acabadas de apanhar) e cozidas são esmagadas e salteadas em azeite com cebolinho e vinagre. E claro, a acompanhar com alface. Hum! Deliciosas!
Boas favadas,
Catarina Silva
Tenho que sxperimentar essa receita com casca de fava, Catarina. Parece-me bem boa.
Com as cascas fiz uma vez apenas esparregado , mas a receita que me deram tem pão e não me seduziu por aí além . Obrigada pela dica!