
Os americanos têm uma expressão engraçada – empty nesters – para definir aqueles casais que dão por si sozinhos entre as quatro paredes do lar, após os filhos terem deixado a casa da família para começarem uma “nova vida”. Cá por casa a realidade é mesmo essa. Uma vez por semana (antes da pandemia) têmo-los de visita, temos os netos de vez em quando, mas não é a mesma coisa e reflecte-se sobretudo nas refeições. Cozinhar para dois não é a mesma coisa do que cozinhar para quatro.
Aquelas comidas tão boas e tão nossas, fartas e variadas, vão ficando para uma almoçarada sem data prevista e dão lugar a pratos igualmente bons, mas menos variados e de confecção mais rápida. É o caso do cozido à portuguesa, que depende de dois ou três factores fundamentais para se fazer em casa: conseguir as carnes que se pretende e os enchidos também, principalmente o chouriço de sangue que tem de se encomendar com antecedência, arranjar couves tenras e conseguir juntar oito ou dez pessoas num almoço ao fim-de-semana, sem recolher obrigatório às 13 horas. Escusado será dizer que não faço um cozido a sério há mais de um ano.
O meu pai era doido por cozido à portuguesa. Sempre que vínhamos do Algarve, Canal Caveira era paragem obrigatória. O cozido de lá era muito bom e muito bem confeccionado. Do cozido que fazíamos em casa sobrava sempre imenso, que aproveitávamos para fazer sopa, croquetes de carne e roupa velha, salteando em azeite, alho e temperando a seguir com vinagre o excedente das couves e dos legumes. Mas cozinhar um bom cozido para dois acaba sempre por ser um estrago, numa altura em que poupar está na ordem do dia.
Para matar saudades do sabor a cozido e da sopa das sobras, cozo uma bela peça de chambão em água abundante e sal a gosto. Talvez durante duas horas até a carne começar a desfiar. Tem de se rectificar a água uma ou duas vezes. A parte mais trabalhosa é cortar duas batatas médias, uma cenoura grande, cerca de 150 gramas de abóbora, duas cebolas médias e meia curgete grande aos quadradinhos, e um quarto de couve branca e meio alho francês grande em juliana. Depois é desfiar a carne cozida e acrescentar água à água da cozedura que tem seguramente gordura suficiente e não necessita de azeite. Começar por juntar ervilhas (ou feijão manteiga) e as cenouras, depois todos os outros legumes deixando os quadradinhos de batata e curgete pada o fim. Depois de tudo cozido junta-se carne desfiada (não uso toda), uma mancheia de cotovelinhos e por fim, muita hortelã. Umas rodelinhas de chouriço de carne cozido à parte rematam o prato para quem apreciar. É tão bom de comer e é por si só quase uma refeição.
Depois de pronta, cheira à cozinha da minha avó, onde nos juntávamos doze na grande mesa com as travessas de carnes, enchidos e legumes fumegantes. E sabe tão bem!

Tenho a sorte de ter família no norte e no sul e quanto a pratos típicos, sou um bom apreciador dessa diferença.
Tripas é no norte, cozido de grão é no sul, quanto a isso sou muito purista.
Gosto da comida do norte e gosto da comida do sul assim como dos vinhos, e quando acabar o confinamento já está previsto um roteiro gastronómico à volta de Portugal.
Tenho saudades de comer tripas. Quando tinha a minha mãe, cozinhavamos com feijão branco e cenoura as dobradas depois demolhadas, lavadas , esfregadas com limão e cozidas . Não era a mesma coisa, mas era muito bom. Agora, ninguém por cá aprecia a não ser eu o que quer dizer que não como há uma data de anos.
O meu marido é de Vila Verde e o meu pai era de Castelo Branco. Muito boa comida por aqueles lados. Os meus compadres são do Alentejo e já aprendi a cozinhar açorda e migas com muitos coentros.
Nunca é tarde para apreder a comer, Carlos.😊
Uma boa sopinha alentejana, uns pezinhos de coentrada, ou um bacalhau à minhota com uma malga de vinho verde de ponte da barca…
Este confinamento está a dar-me cabo da cabeça, a sério.
O meu sogro tinha o melhor vinho verde tinto daquela zona, daquele que até pintava a malga. Pessoalmente não gosto muito, mas diz que é um gosto que se vai adquirindo. O meu pai adorava.
Há uns tempos fiz uma sopa alentejana com alhos, coentros, lascas de bacalhau e ovo escalfado, com pão de cabeça. Fiquei fã.
Felizmente tenho estado a trabalhar desta vez, a 1/10 de gás mas mantem-nos ocupados.
Em criança detestava o cozido à portuguesa.
Aos domingos toda a família ía a casa da avó almoçar
e todos os domingos era o cozido à portuguesa ( uma chatice ).
Hoje adoro e aqui onde vivo existe um prato muito semelhante
que é o Pot-au-feu . Está na ementa 1x por semana num restaurante
que conheço bem . É quase uma espécie de ” matar saudades”. 🤓
Já ouvi falar no Pot-au-feu, Kika, mas nunca provei. Creio que e cozido à francesa, mas feito cá é capaz ser parecido com o nosso no sabor.
É tão verdade que as refeições domingueiras com famíliares e amigos que detestávamos , no meu caso preparados com bacalhau e caldeirada, agora pelamo-nos por as saborear. Bom fim de semana, Kika.
Obrigada e um bom fin de semana igualmente
para si MDF
Ao ler este texto,lembrei do cozido de grão que a minha avó fazia no Alentejo! E com o ramo de hortelã! Que Saudades.😍
É tão bom, cozido com grão. 😊
Belos tempos esses; cozido à portuguesa, em Canal Caveira – paragem obrigatória! 🙂
Estou a deliciar-me com a sua nova “série”/Tags – sabores de antigamente. Por mim, está aprovadíssima, pode continuar com o registo, Maria Dulce.
Obrigada Té. Para a semana estou a pensar mandar tudo à fava.
Sopa de favas ?
Puré de favas com coentros. É divinal. Para quem gosta de favas, claro
Literalmente?!

Eheheh
Lindo, saudoso, saboroso texto. Parabéns. Obg. Um confinado.
Obrigada e pesamentos saborosos! Experimente fazer uma receita que lhe traga boas recordações. Saboreie e vai ver esteve um par de horas desconfinado num passado espectacular. Bom fim de semana
Abrir estes postais com Cozido é começar em grande.
Resolvo a falta de comensais com o Cozido pobre (assim o baptizei): só uma ou duas carnes e um enchido. Ainda assim acaba em pirex para os dias seguintes. E apesar de não ser fã, aproveito o caldo e alguns pedacitos para a sopa de cozido a pedido do meu companheiro (alentejano), que quer sempre que a pingue com um pouco de vinagre (uso balsâmico).
É curioso… ainda há dois ou três dias dizia a alguém que andava com vontade de fazer Cozido. Depois do post da Maria Dulce não vou conseguir protelar muito mais.
Bom fim-de-semana e bons ‘cozinhotes’
Obrigada, Isabel e bom fim de semana para si também. E votos de um bom cozido ! Pobre ou rico é sempre um excelente prato
O cozido era mais pela festa que pelo prato em si.
Hoje há arroz de lingueirão. Falta vinho branco. E o sal esgotou por causa da neve
Arroz de lingueirão é uma delícia!
São mais ou menos assim as minhas sopas de tudo. Mas sem a carne. Sopa de pobre a que se chamava dantes sopinha da panela.
Dosto bem mais destas sopas do que cremes de legumes, Bea.
Não quero de modo algum que digam que chego aqui e, como dizem os ingleses, ponho veneno no champanhe, mas alguém me diga como pode existir cozido à portuguesa sem uma qualquer peça de porco: chispe, orelha, entrecosto… para já não falar em farinheiras, chouriço de sangue, toucinho branco, chouriço de Ponte de Lima (cebola, vinho tinto verde, gorduras várias.
Um cozido não é cozido sem as carnes e os enchidos conforme referi na publicação, Orlando, nisso tem toda a razão.
Gosto muito de sopas sem puré. Assim à antiga, com tudo aos pedacinhos. É uma terapia meditativa cortar assim os legumes. Mas é preciso alguma disponibilidade e nem sempre se consegue. Bom apetite! 😉
Há cerca de um ano, antes da pandemia, a minha neta foi ter comigo à cozinha, estava eu a cortar couve roxa em juliana para fazer salada e perguntou se podia ajudar. Enrolei-a num avental, dei-lhe uma folha de couve e uma faca romba e deixei-a “ajudar”. Passados uns minutos suspirou profundamente e disse ” Sabes avó, cortar couve roxa é tão relaxante”.
Creio que ele iria aprovar esta sopa como terapia meditativa, Susana. Bom fim de semana.
Evocativo, aromático e saboroso texto.
Muito obrigado.
JSP
Sou eu quem agradece, JSP. Bom fim de semana.
Olhe Maria, e apenas para lhe fazer raiva: tenho a sorte de ter dois filhos casados próximo, condição bastante para a minha mulher fazer, com alguma regularidade, cozido à portuguesa – aí de quinze em quinze dias. E sabe porquê? Eu digo-lhe: porque a casa-mãe está a servir os seus clientes em take away. É para que saiba…
Os netos não apreciam muito, mas eu acho o nosso cozido o melhor prato do mundo.
Bom Domingo!
Que sorte! Bom cozido, Tiro ao Alvo!
Que bela recordação. Também tenho muitas saudades dos cozidos em família suspensos.

Aguardo o capítulo das favas que por cá tem grandes apreciadores.
Bom domingo
Dno
Dois ou três dias e serão favas contadas, Dno. 🙂
Cara Maria Dulce, depois de domingo com intenso trabalho, não no sentido da palavra mas sim como forma de esquecer o confinamento, chego a casa e a minha consorte tem para o nosso jantar uma deliciosa sopa de catacuses. Presumo que não saiba o que são catacuses. É uma erva selvagem que cresce nesta altura do ano no Alentejo. Na minha zona chamamos-lhe sopa de catacuses com feijão, pois leva puré de feijão, um pouco de feijão seco, umas poucas rodelas de cenoura e azeite. Uma delícia.
Eu “sei” o que são catacuzes, mas por apenas deles ouvir falar pelos meus compadres, alentejanos dos quatro costados, de Elvas e Estremoz. Uma espécie de espinafre mas para melhor. Lamentavelmente ainda não provei 🙁
Temos combinada uma passeata gastronómica aos Alentejos desde 2019, que por razões óbvias ainda não se concretizou.
Este seu comentário deixou- me ainda mais curiosa e gulosa também.
Bom descanso e boa sopinha, singularis. E muito obrigada!
Hummm! Ainda por cima no momento em que leio este texto estou com alguma fome. Cheira-me tão bem que acho que vou experimentar 🙂
As minhas filhas estão sempre a ralhar comigo porque como depressa e mal às refeições, Teresa. O que elas não vêm é aquilo que eu como enquanto cozinho. Os aromas, meu Deus, os aromas…