Na sombra e no silêncio


Pedro Correia,

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Este foi o romance que alertou um mundo distraído para os campos de extermínio da União Soviética. No chamado “paraíso socialista” escondia-se um imenso arquipélago de indigência e desolação: sob o jugo de Estaline, um vulgar delito de opinião era considerado crime de Estado, conduzindo o prevaricador a décadas de detenção em redutos transidos de frio siberiano que funcionavam como antecâmara da morte.

Aleksandr Soljenítsine sabia disto por experiência própria. Tal como Ivan, também se viu despojado da cidadania. Oito anos encarcerado, mais três anos sujeito a exílio interno: valeu-lhe o desaparecimento do tirano, em 1953, e o breve período de degelo iniciado em 1956 pelo sucessor de Estaline, Nikita Krutchov.

Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch é o relato de 24 horas da rotina de um destes prisioneiros políticos, vítimas de um sistema que prometia libertar as grilhetas aos seres humanos mas logo os sujeitou a novas escravaturas, desapossando-os da própria identidade. Não merecem sequer o tratamento de «camaradas».

Ivan é o prisioneiro S-854. Nada tem de seu, tirando uma colher para comer a parca ração diária. Antigo operário mobilizado para a frente de guerra, está preso por um crime que não cometeu: capturado pelos alemães em 1943, evadiu-se e regressou às fileiras – atitude considerada suspeita que lhe valeu a fúria repressora do Estado socialista. Sobrevive aos 40 anos graças à argúcia iluminada pelo instinto de sobrevivência, que o coloca pouco acima da mera condição animal. Eis um imperativo: «Nunca se deve dar nas vistas. O importante é nunca se ser notado por um guarda do campo, só em grupo.»

Sente frio, passa fome, nada sabe da família. Confinado àquele cenário onde a neve eterna se estende a perder de vista, sabe que cada dia é insuportavelmente igual ao dia anterior e ao dia que vai seguir-se. Nem imagina, mas à sua escala é um herói. Por enfrentar na sombra e no silêncio os mecanismos da repressão.

32 comentários em “Na sombra e no silêncio”

    1. O que responder, pois ele provoca uma resposta, a este grande fanático dos popós (Fdp)?
      Merecia viver num paraíso socialista, ele e os outros como ele, mas sem a nossa companhia, ou pelo menos sem minha.
      Tirando! agora uma dúvida: o que é ou será um “ceto”? um exceto já sei quem é, e não é coisa boa.

    2. E “salvo” também dá, sr.professor? E já agora, “excepto” é mais correcto, visto que o Acordo nunca chegou a acordo, se me permite o trocadilho. Mas «não há nada como realmente» e por isso lhe envio esta passagem esclarecedora _ se o Pedro Correia me permitir o abuso de que peço, desde já, as minhas desculpas.
      “O teor substantivo e o valor jurídico do tratado não suscitaram consenso entre linguistas, filólogos, académicos, jornalistas, escritores, tradutores e personalidades dos setores artístico, universitário, político e empresarial das sociedades dos vários países de língua portuguesa. Na verdade, a sua aplicação tem motivado discordância por motivos técnicos, havendo quem aponte lacunas, erros e ambiguidades no texto do Acordo ou simplesmente conteste a adequação ou necessidade de determinadas opções ortográficas, como a introdução de facultatividades (i.e., possibilidade da mesma palavra ter mais do que uma grafia permitida) em vários domínios da ortografia (acentuação, maiusculação e consoantes mudas), a supressão das chamadas “consoantes mudas” (i.e., as que não se pronunciam), as novas regras de hifenização, a supressão do acento diferencial em diversas palavras e a supressão do trema. Também tem havido contestação ao Acordo com fundamentos políticos, económicos e jurídicos, havendo mesmo quem tenha afirmado, em Portugal, a inconstitucionalidade do tratado.” etc….

      Eis a razão que leva a que muitas figuras públicas (e não só) se permitam manter a ortografia dita “tradicional” a que eu chamo a “correcta”. Peremtoriamente recuso a novilíngua.

    3. A forma correcta é “tirante” preposição simples. E “salvo” também dá, sr.professor? E já agora, “excepto” é a escrita mais correcta, visto que o Acordo nunca chegou a acordo, se me permite o trocadilho. Mas «não há nada como realmente» e por isso lhe envio esta passagem esclarecedora _ se o Pedro Correia me permitir o abuso de que peço, desde já, as minhas desculpas.
      “O teor substantivo e o valor jurídico do tratado não suscitaram consenso entre linguistas, filólogos, académicos, jornalistas, escritores, tradutores e personalidades dos setores artístico, universitário, político e empresarial das sociedades dos vários países de língua portuguesa. Na verdade, a sua aplicação tem motivado discordância por motivos técnicos, havendo quem aponte lacunas, erros e ambiguidades no texto do Acordo ou simplesmente conteste a adequação ou necessidade de determinadas opções ortográficas, como a introdução de facultatividades (i.e., possibilidade da mesma palavra ter mais do que uma grafia permitida) em vários domínios da ortografia (acentuação, maiusculação e consoantes mudas), a supressão das chamadas “consoantes mudas” (i.e., as que não se pronunciam), as novas regras de hifenização, a supressão do acento diferencial em diversas palavras e a supressão do trema. Também tem havido contestação ao Acordo com fundamentos políticos, económicos e jurídicos, havendo mesmo quem tenha afirmado, em Portugal, a inconstitucionalidade do tratado.” etc….

      Eis a razão que leva a que muitas figuras públicas (e não só) se permitam manter a ortografia dita “tradicional” a que eu chamo a “correcta”. Peremtoriamente recuso a novilíngua.

      1. A directora do Museu do Aljube nunca ouviu falar no Gulag. Deve estar nesse cargo de nomeação política precisamente por causa disso. Pela ignorância publicamente demonstrada neste assunto.
        O que diz quase tudo sobre a seriedade destas nomeações.

    1. E o que é que o PAN terá a dizer dos Pardais “animais públicos do Capitalismo”?

      https://pt.wikipedia.org/wiki/Campanha_das_Quatro_Pragas

      Os pardais – principalmente o pardal-montês da Eurásia[1][4] – foram incluídos na lista porque comiam sementes de grãos, roubando do povo os frutos do seu trabalho, em sua concepção, considerando que “os pássaros são animais públicos do capitalismo”.[5][6] As massas da China foram mobilizadas para erradicar os pássaros, e os cidadãos tiveram que bater panelas e frigideiras ou bater tambores para assustar as aves de pousar, forçando-as a voar até que caíam do céu em exaustão. Os ninhos dos pardais eram derrubados, os ovos foram quebrados, e filhotes foram mortos.[1][5][7] Os pardais e outros pássaros foram abatidos dos céus, resultando na quase extinção das aves na China[8]
      (…)
      Por esta altura, no entanto, já era tarde demais. Sem pardais para comê-los, as populações de gafanhotos dispararam,[1] e agravou-se os problemas ecológicos já causados ​​pelo Grande Salto Adiante, incluindo o desmatamento generalizado e o mau uso de venenos e pesticidas. O desequilíbrio ecológico conduz a exacerbação da Grande Fome Chinesa, em que entre 15 e 45 milhões de pessoas morreram de fome.[5][11][12]

      Da wiki em inglês:
      Some sparrows found a refuge in the extraterritorial premises of various diplomatic missions in China. The personnel of the Polish embassy in Beijing denied the Chinese request of entering the premises of the embassy to scare away the sparrows who were hiding there and as a result the embassy was surrounded by people with drums. After two days of constant drumming, the Poles had to use shovels to clear the embassy of dead sparrows.[5]

  1. O Pedro Correia, que tanto gosta da ortografia portuguesa, não deve gostar da capa que ilustra este post, onde tudo está escrito com ortografia inglesa. Já que a Guimarães Editores traduziu o livro, também deveria ter traduzido a ortografia do nome do autor e do título.

      1. O homem é chato, mas, desta vez, tem razão. “zh”, em vez de “j” é a grafia inglesa para o “ж” (“jê”) russo (porque “j” em inglês lê-se “dj” e não “j”), e gera até bastante confusão por cá. Por exemplo, o médio-lateral esquerdo da selecção russa Zhirkov (que marcou o 2.º golo do CSKA na malfadada final de Alvalade, e continua aí para as curvas), o general Zhukov e o político Zhirinovsky, devem-se escrever e ler Jirkov, Jukov e Jirinovski, mas isso raramente sucede. E, efectivamente, na edição que tenho e já li e reli, dos livros de bolso da Europa-América (com uma bela capa, aliás, como todas as dessa colecção), o nome está correctamente escrito (ou transliterado) “Soljenitsin”.

        1. Correcta, a alusão ao critério de transliteração. É o que adopto no texto.

          Trouxe esta capa da versão original portuguesa por ter importância histórica: saiu meses depois, salvo erro no mesmo ano, da edição original. Portugal foi dos primeiros países a editar este romance fora da Rússia.

          A transliteração adoptada à época segue a inglesa porque esta tradução concretizou-se a partir da versão em inglês da obra.

          Como é sabido, os ingleses e anglo-americanos grafam ZH o som que entre nós é representado pela letra J. Que por sua vez é lida DJ em inglês – e o equivalente a um H aspirado em castelhano.

          Só muitos anos depois houve uma edição portuguesa deste romance directamente a partir do russo.

          1. Sempre me disseram para não julgar um livro pela capa, mas pela discussão que esta está a ter já estou a imaginar o conteúdo.

          2. O Lavoura apareceu aqui fixado na colher, sinal evidente de que hoje lá na repartição havia ainda mais trabalho do que é costume, e a partir daí a conversa desviou-se para outros rumos.
            Tudo bem.

  2. quem escreverá sobre a miséria do socialismp à kos?
    « INFORME SECRETO1
    Pronunciado por NIKITA KRUSHCHEV en las sesiones s e c r e t a s del 24 y 25 de Febrero de 1956, en el XX Congreso del Partido Comunista Soviético.
    ¡Camaradas! En el informe del Comité Central del Partido ante el XX Congreso, en numerosos discursos de delegados al Congreso, y también anteriormente durante las sesiones plenarias del Comité Central del Partido
    Comunista de la Unión Soviética, se ha dicho bastante acerca del culto del individuo y sus perniciosas consecuencias. Después de la muerte de Stalin, el Comité Central del Partido comenzó a desarrollar una política destinada a explicar, concisa e insistentemente, que no es
    posible permitir, y que es además ajeno al espíritu del marxismo-leninismo, ensalzar a una persona, ransformarla en un superhombre poseedor de características
    sobrehumanas similares a las de un dios. Un hombre así habría de saberlo todo, verlo todo, pensar por todos, capaz de hacerlo todo y ser infalible en su conducta

  3. Curioso como num tempo em que se manda abaixo a simbologia do Padre António Vieira e se decapita o chefe dos escuteiros ninguém se indigna com o uso recorrente de um símbolo de fundo vermelho com uma foice e um martelo.

    1. Talvez porque já quase ninguém leve isso a sério. Mas é um erro porque ainda existem várias ditaduras comunistas no mundo contemporâneo. A começar pela China, onde os “campos de reeducação” persistem e todos os direitos fundamentais são condicionados ou suprimidos.

        1. “Mas levam a sério o Imperialismo Português. Deve ser por receio que regresse.”

          Não levam, é um instrumento narrativo de poder para instalar culpa e assim obter a não resistência.

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