Na linha


lauraramos,

 

 sax aqui                                                                 foto roubada aqui

 

Desde os festivais de jazz de Cascais que não viajava nos comboios da linha.
E foi com essas memórias que dei por mim tranquilamente sentada na carruagem, a repousar de uma manhã pelas calçadas da Graça.
Ia agora entretida a descascar os anos.
Fixavam-me a fundo nos olhos, instalados no banco do lado. Saídos de mim. Petulantes. Como se quisessem entabular conversa ao som meigo do Muddy Waters e perguntar-me:
– Então, que tal essas escolhas que fizeste connosco desde  as festas do Villas-Boas?
Engraçadinhos… Coscuvilheiros. Que topete.

Era o que faltava que me vigiassem, não tardaria atiravam-me:

– Parece que nunca mais andámos na linha…

Ferrei-lhes com o Gato Barbieri.

 – Chega como resposta?
Ficaram sossegados, sem me aborrecer mais.

E pago eu bilhete para levar atrás estes parasitas.

13 comentários em “Na linha”

  1. ora e eu que não lhe dedicasse mais umas linhas :

    “…Si al festín de los dioses llegas tarde,
    ya del néctar celeste
    que rebosó en las ánforas divinas
    sólo, alma triste, encontrarás las heces.

    Mas aun así de su amargor dulcísimo
    conservarás tan íntimos recuerdos,
    que bastarán a consolar tus penas
    de la vida en el áspero desierto. …”

    Ah e o Jazz de Cascais, ao qual ia nos comboios da defunta Sociedade Estoril. Anos depois, vim a ser colega de local de trabalho do Villas Boas, ele na KLM e eu na ANA, lá pelo Aeroporto. O Luis já está lá pelo Paraíso dos rifts e free styles desenfreados, eu por aqui ainda vou andando, a ver pasar la vida sin sentirla y sentir la muerte sin pasarla…

    e sabe que o meu saudoso Pai foi colega de tropa do Villa Boas,na Escola Práctica de Artilharia em Vendas Novas. E levou os dois anos e tal que por lá passou, a desviar-lhe as manivelas de gramofone,colocadas religiosamente numa das vigas de madeira do tecto da camarata e devolvidas (uma boa dúzia) no final do serviço militar, pois o bom Luis improvisava sessões de jazz ao som do dito gramofone e acompanhadas de solos de “bateria” , que consistia em jornais desdobrados sobre a cama e baquetas de bateria para tocar. Não era o melhor programa para quem queria descansar após um dia de exercícios…
    O Luis emocionou-se quando lhe disse quem era,lá no Aeroporto e de quem lhe levava um abraço. A esta hora acho que o meu Pai já gosta de jazz …

  2. Sou dessa geração, Fernando, quando os festivais de jazz de Cascais eram os únicos fóruns musicais em Portugal e íamos uma vez por ano em bandos, sem falha, para aquele pavilhão inóspito. Assisti a números inesquecíveis. Por mim, «no llegué tarde al festín de los dioses»… Ou melhor, a este em concreto 🙂

        1. Não te queixes, miúda 🙂 Ó p’ra mim… Lá chegará o dia em que serás tentada.
          Sabes quando? É quando ‘eles’ desatam a fazer-te perguntas. Como se houvesse respostas…

  3. Sou dos felizardos que tiveram oportunidade de assistir ao 1º Festival de Jazz de Cascais, em Novembro de 1971, que teve o melhor elenco de toda a historia do festival. Para alem de Miles Davies ( que trazia o Keith Jarret no piano) o Vilas Boas teve a arte e a sorte de conseguir trazer um grupo de sete “montros” que se juntaram para fazer uma digressão mundial, e que na epoca estavam na Europa, e com esse fim de semana livre:Dizzy Gillaspie, Thelonius Monk, Dexter Gordon, Ornette Coleman, entre outros.
    Para quem ainda se lembra o que era o Portugal desse tempo onde nunca acontecia nada, esse festival foi para os jovens como eu, uma especie de Woodstock em Cascais.
    Recordo no entanto um episodio muito negativo que nunca mais esqueci: o meu lugar era na bancada por tras do palco, numa fila que me permitia ver com um certo pormenor o que lá se passava. Durante a actuação do Miles Davies, que começou com muita calma e foi sempre em crescendo, estava ele a tocar há mais de meia hora, desenrolou-se na plateia uma cena de pancadaria entre dois tipos que não deviam gostar do que estavam a ver, e que levou as pessoas a deixarem de curtir o conserto, para passarem a ver dois palhaços aos murros um ao outro. O Miles Davies primeiro ficou incredulo, depois ficou fulo, parou de tocar e esperou que os animos acalmassem. Quando isso aconteceu, ele retomou a actuação, mas tocou mais uns minutos de uma maneira muito morna, e deu por terminado o concerto. Voltei a ve-lo ao vivo uns anos mais tarde em Amesterdão, salvo erro, e ainda hoje estou convencido que eu e todos os que estavam em Cascais nessa noite perdemos a oportunidade de assistir a uma performance historica por parte de Miles Davies. Por culpa de dois tipos que não deviam saber o que estavam ali a fazer.
    PS Esse mes de Novembro de 1971, foi muito profiquo em materia de musica. Foi lançado no velhinho cinema Roma o 1º album do José Mario Branco que se chama “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, a que tambem tive oportunidade de assistir.

    1. Eu só comecei a ir em 75. E não me lembro de estar sentada… aquilo era um perfeito desassossego 🙂 Mas ouvi Muddy Waters, Dizzie Gillespie, Dexter Gordon, eu sei lá… Foi aí que conheci o Rao Kyao, novíssimo. E que fiquei rendida ao Gato Barbieri, é verdade. No fundo, tudo aquilo era uma educação.

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