A esplanada estava deserta sob um sol radioso. O cão preso à perna de uma cadeira, fui lá dentro encomendar o de costume e vi no televisor Marcelo que dizia não sei quê no meio de uma chusma de gente.
É assim todos os dias há anos – não se percebe como ainda há quem o ature, disse para mim mesmo. Ainda por cima, pensei, parece que dorme muito poucas horas por dia, pelo que lhe sobra tempo para ir a inúmeros lugares para se aliviar de banalidades ou fazer figuras tristes.
Mas dorme pouco porquê? E de repente fez-se luz: deve falar a dormir, acordando-se com o barulho. E como nem ele tem paciência para se ouvir foge espavorido do quarto.
Provas? Costuma falar do Presidente da República como se não fosse ele, sinal seguro de ter dupla personalidade, ainda que ambas chatíssimas. E como, a julgar pelo que diz e escreveu ao longo de anos, não deve ocupar o tempo nem a reflectir nem a ler, só lhe resta falar.
Implausível, disse dele Vasco Pulido Valente. Eu digo que fica plausível se o virmos como uma pessoa mal dormida.

Como eu invejo esta verrina
Fico contente com a tua inveja. Devo ser pessoa pouco recomendável.
Uma cadeira? Que cão bem comportado! Se eu a prendesse a minha Lucy à perna de uma cadeira de café, ela levava a cadeira atrás de si. Tinha de ser um poste, ou um gradeamento, ou um gancho numa parede, desse género.
O Cacau também, Cristina, se algum outro cão o desinquietar ou vir um gato. Mas as cadeiras são de alumínio e aquela estava encravada pela mesa.
Ah, bem me pareceu que tinha de haver um qualquer truque
E a minha Lucy nem era nenhum colosso, uma Jack Russell, pesava seis a sete quilos
Mas sabemos que os cães têm bastante mais força do que os humanos, em relação ao seu peso.