“…Na Grécia, há cada vez mais famílias a abandonar os filhos. Deixam-nas à porta de igrejas, na escola, em instituições de solidariedade, entregam-nas para adopção. Dizem que não as podem sustentar. Não estamos a falar de cães abandonados por famílias que já não conseguem pagar a ração (o que também é uma dor). Não. Estamos a falar de crianças. Crianças a serem abandonadas. Famílias desfeitas, empobrecidas, a desfazerem-se das suas crianças.
Crianças abandonadas com um papel da mãe a pedir desculpa, a pedir que tratem bem da sua cria, a justificar que já não tem como continuar com ela.
Doloroso, doloroso.
Que desespero não está por trás de um gesto destes?
Nem consigo pensar numa coisa assim. Eu morria.
(foto e texto aqui)


Sou do tempo em que, por dificuldades extremas de vida, os pais cediam a entregar os filhos a famílias mais abastadas ou a instituições, para os salvar da miséria e até, de lhes salvar a vida e de lhes possibilitar um grau de educação e por conseguinte, a possibilidade de uma profissão futura.
As mães que abandonavam os filhos, ou seja, que os deixavam na rua, envoltos em trapos ou dentro de alcôfas, solicitando a caridade alheia, eram muitas vezes, não digo todas, raparigas que se deslocavam da província para a cidade, com o propósito de servir, de serem empregadas domésticas, e para quem a gravidez representava um atestado de óbito, na medida em que seríam despedidas, não teríam possibilidade de encontrar outro emprego, teríam de regressar às aldeias de origem onde, seríam alvo da crítica e da maldicência alheia e familiar. Em suma, uma vida sem futuro tanto para a mãe, como para a descendência.
Mesmo assim, apesar do ambiente hóstil de que uma mãe solteira era alvo naqueles tempos, muitas houve, a maioria, nestas circunstâncias, que, fazendo das tripas coração, enfrentando a crítica e a lei, usando dos mais inusitados estratagemas, se recusaram a abandonar os seus filhos, criando-os com os maiores sacrifícios imagináveis e não.
Os tempos são de angústia, é verdade, mas, abandonar um filho, é algo que só se faz quando se morre, nunca antes.
Acho que é uma coisa que só se pode dizer quando se tem a íntima certeza de nunca se vir a encontrar perante esse dilema, Bartolomeu.
Repare Isabel, sem pretender retirar a legitimidade ao seu ponto de vista, eu penso que; se a população Grega se encontra num estado de calamidade tão profundo que justifique as mães abandonarem os filhos à mercê do acaso, então não terá o acaso melhores condições para criar esses filhos.
Não quero especular, obviamente mas, à primeira vista, tenho a sensação que da cultura grega, relativamente ao afecto parental, distamos bastante. Felizmente.
Da cultura familiar grega só sei que eles costumam dizer que Jesus Cristo era grego de certeza: aos 30 anos ainda vivia em casa dos pais, estava convencido de que a mãe era virgem e a mãe estava convencida de que ele era Deus… Não tão diferente assim da nossa!
Não sei é se a sociedade em si que está a rebentar pelas costuras. Ou se se trata de um pequeno artifício jornalístico. Apesar de tudo, talvez um dia destes um jornalistas estrangeiro venha fazer uma reportagem em inglês (que poderá então, evidentemente correr mundo e ser citada e tornada a citar como numa câmara de eco) sobre as dezenas (ou talvez centenas) de crianças abandonadas pelos pais nos hospitais portugueses (para não falar dos velhos, em especial por altura das festas como os cães nas férias).
Não me entenda mal: não estou de modo nenhum a dizer que é mentira, ou que não é um drama para cada uma das crianças e também para cada uma das famílias em que isto se passa. Mas os média, e em especial os média anglófonos (há muito que considero que quem domina os média de língua inglesa domina a percepção global sobre a realidade) são como uma lente de aumentar. Ou melhor, como aquela parábola dos cegos e o elefante…
Graças a Deus !
Helena,
curiosamente também vi essa reportagem na RTP2. É uma tristeza um pai e uma mãe chegarem a esse ponto de abandonarem os filhos.
Que mundo é este em que vivemos, que nem a dignidade de ser humano temos? E o que estará reservado para Portugal?
Estes senhores da Europa devem ter a consciência bem pesada com o mal que estão a fazer. Por muitas asneiras que os dirigentes de alguns países tenham feito, as crianças jamais deviam ser vítimas. E infelizmente são as primeiras a sofrer.
Também vi a reportagem e fiquei arrepiada. Só se entrega um filho quando o desespero é total. A Grécia está, assim, em estado de desespero total.
Como dói!…
Os nossos filhos são uns príncipes …
Estranho tal comportamento. Bébés recêm nascidos sempre foram abandonados: no campo para serem comidas pelos lobos, na “roda” dos conventos, à porta da igreja, etc., mas criança da idade da mostrada na fotografia, já com as ligações de amor e cumplicidade desenvolvidas, parece-me novo.
E o recurso a mendicidade? E ao roubo? E à prostituição? Eu usá-los-ei por mim mesmo, quanto mais por uma criança, se vier a chegar a tal extremo de carência.
Choraminguice habitual usada para efeito político e ou para demonstrar aos pares muita preocupação social.
Um país com um rendimento de 20000 euros por cabeça tirando o que pede emprestado está entregar filhos… Nem quero saber o que se passa nos mais de 100 países que estão abaixo da Grécia. Entretanto que eu saiba continua a haver gasolina para os Mirage…
“Que desespero não está por trás de um gesto destes?” – Eu diria antes: há algo de muito estranho por trás disto! Estou com o Bartolomeu, que comentou lá em cima: “abandonar um filho, é algo que só se faz quando se morre, nunca antes”.
Que dizer das mães africanas, naquelas secas monumentais? Têm os filhos subnutridos, alguns a morrer… Mas não os abandonam!!!
O trauma psicológico que essa gente está a causar aos filhos é muito pior que a pobreza, muito pior que passar fome!
Bom, do que me contaram não é bem assim… Foi até um choque para mim.
A visão em muitas zonas de África, devido à tradição tribal talvez, é a de deixar morrer os fracos e alimentar e cuidar dos fortes. Um conhecido vive/viveu(?) nos Camarões onde esteve a fazer um estudo médico sobre a resistência das crianças as doenças. Dai que não era comum ele perguntar “é o seu filho?” com a sra a dar a resposta “não, o meu morreu ontem, esta é da minha amiga/irma”, com a maior das naturalidades.
Estive a ler os comentários e gostaria de acrescentar um ponto de vista (em acréscimo ao meu texto completo).
A decisão de qual a ‘verdadeira mãe’ vem dos tempos de Salomão quando uma mãe preferiu abdicar da sua criança a vê-la partida ao meio.
Perante uma situação limite, quando uma família se vê sem casa, sem trabalho, sem perspectivas, sem recursos, admito que (morrendo por dentro) uma família decida que o seu filho pode ter melhores condições de desenvolvimento se forem outros a assegurá-lo.
É daquelas dores que tenho muita dificuldade em imaginar de tal forma a situação é avassaladora mas parece-me possível que o amor a um filho possa levar uma mãe a entregá-lo.
Mas o centro da questão não está em quem se vê confrontado com tão dramática decisão. A questão está na degradação social que leva a que existam centenas de situações destas. A questão está nas consequências que esta política de cega austeridade está a ter.
Isso sim, é ainda mais dramático – e, mais dramático ainda, é que não se veja o fim disto porque, a cada dia que passa, as coisas estão piores.
Um país não pode ser visto como um lixo imprestável em que os pais não têm como sustentar os filhos – e isto não numa África em seca, não há dezenas de anos atrás, mas numa Europa actual.
Um Jeito Manso; muitos pontos de vista podem surgir, em face da questão que o post aborda. Isto porque, não estamos avaliar factos concretos, inquestionáveis e provenientes de uma fonte que não temos a certeza de ser fidedígna. Em suma, estamos a construir opiniões com base em pressupostos. Contudo, ha em tudo uma realidade que se pode transformar numa dura realidade. A de a crise económica que está a afectar com maior gravidade a sociedade grega, mas que previsívelmente irá atingir as sociedades de outros países.
Nesse panorama, é bem possível que sucedam com mair frequência que a desejável, situações de desespero que levem as pessoas a cometer actos terríveis.
«Perante uma situação limite, quando uma família se vê sem casa, sem trabalho, sem perspectivas, sem recursos, admito que (morrendo por dentro) uma família decida que o seu filho pode ter melhores condições de desenvolvimento se forem outros a assegurá-lo.»
A questão, relativamente a esta opinião que transcrevi do teu comentário, é se os “outros” a quem os filhos são entregues, terão efectivamente as condições necessárias, para conseguir fazer aquilo que os pais não puderam, ou se convenceram que não podiam.
É que, existe uma diferença decisiva, entre entregar o filho a quem o deseja receber e que se sabe ter condições melhores para o criar e, outra muito diferente, é deixa-lo na cheche, entregue à sorte e ao destino.
😉
E até num assunto destes há comentadores que colocam o ónus em cima de quem está desesperado e se vê obrigado a algo tão extremo.
Para estes, a culpa é sempre do indivíduo na sua ilimitada liberdade de fazer escolhas. E chegando a sugerir que a mendicidade a prostituição ou o roubo fossem preferíveis?
Não lhes ocorre que para estes pais entregar a criança poderá ser o derradeiro gesto de amor.
Não é o acto de “entregar” um filho, que aqui se discute, l.rodrigues, mas sim, de o “abandonar”!
Entregar um filho a outra família ou a uma instituição, para adopção, é um acto de corágem. Abandona-lo, é um acto de cobardia.
É desta forma que eu vejo…
Bem, eu gostaria de ter mais informações, sobre estes casos, saber o que realmente está por trás disso. Não nego que a austeridade imposta a alguns países seja absurda e esteja a dar cabo deles. Mas também é verdade que uma família nem sempre é uma família, como nós a imaginamos. Na verdade, eu já conheci gente que, vendo-se incapaz de educar os seus filhos (problemas psicológicos, monetários) estaria disposta a entregá-los a quem, digamos, “entenda melhor do assunto”. Gente que estava longe de estar completamente desesperada e de passar fome! Para a maior parte dos pais, é difícil aceitar esta ideia, mas é uma realidade!
No entanto, como digo, não sei o suficiente sobre esta questão grega, não faço ideia do tipo de famílias envolvidas.
Mas custa-me a acreditar que dêem os filhos em situações idênticas ao episódio da Bíblia aqui referido (tipo: verdadeira prova de amor). Pelo menos, na maior parte dos casos.
Tenho dois filhos lindos…o meu unico tesouro…a minha agua o meu sol…o meu ar e a minha lua…infelizmente desespero tambem tenho tido muito na minha vida,
mas so Deus sabe o dificil que tem sido e não estou na grecia…
Portugal não é diferente da grecia. Portugal tem a cara escondida, por enquanto ainda não se ouve falar em casos desses mas infelizmente as familias estao a chegar ao limite e espero que daqui a uns meses esta noticia não se repita com outros intervinientes,
Também eu, morreria.