A África do Sul – e o mundo – em estado de choque: Oscar Pistorius, campeão dos campeões nas pistas olímpicas, primeiro atleta deficiente a competir de igual para igual com os restantes apesar de ter próteses no lugar dos pés, não seria o deus que milhões supunham mas apenas um homem. E dos piores, pois é acusado de ter assassinado a noiva com quatro tiros.
O drama amplia-se nos media porque a morta, Reeva Steenkamp, era também uma figura popularíssima: advogada e modelo, rica, linda, transbordando energia, vitalidade e virtudes.
Pareciam o par ideal. Mas tudo leva a crer que não eram: há uma enorme diferença entre a vida real e a vida pintada nas publicações cor de rosa – e hoje, na era das “plataformas multimédia”, quase todas as publicações acabam por ter esta cor.
Oscar, ídolo caído em desgraça, alega ter confundido o barulho feito pela noiva na luxuosa mansão onde vivia, às três da manhã, com um assaltante (na zona de Pretória, como na África do Sul em geral, os assaltos violentos fazem parte do quotidiano) e revela ter disparado “por instinto”.
Muito poucos acreditam nesta versão.
Os mesmos órgãos de informação que dantes endeusavam o mediático par, ofertando-lhes capas cheias de glamour, dissecam agora os minuciosos detalhes deste crime, ainda por cima cometido no Dia dos Namorados.
As redes sociais são, nesta matéria, um maná inesgotável. Graças a elas, e à curiosidade insaciável de uma imprensa que tudo ultrapassa em matéria de sensacionalismo, já tomámos conhecimento do último tuíte escrito pela malograda Reeva, que tinha apenas 29 anos e uma infinidade de sonhos pela frente agora afogados em sangue. Examinam-se todas as mensagens que o assassino deixou na Rede, onde todos quantos a frequentam ficam capturados para sempre. A Nike suspendeu uma campanha publicitária – de “óbvio mau gosto”, conclui-se só agora – em que Oscar aparecia sob a legenda “sou a bala na câmara”.
Refazem-se mitos à pressa – com a mesma pressa com que foram designados, entre torrentes de elogio mediaticamente correctos. Os supostos deuses da véspera tornam-se demónios do dia seguinte, sempre com uma rapidez vertiginosa – tudo tão rápido como a espectacular passada de Oscar Pistorius nos 400m, em Agosto último, no estádio olímpico de Londres. E como o espectáculo tem de continuar, suceda o que suceder, a estação sul-africana SABC1 decidiu manter no ar a quinta temporada de Island of Treasure, equivalente local d’ Os Sobreviventes, com a falecida Reeva no elenco. A produção parece ter considerado a sua morte um “dano colateral” que afinal contribuirá para atrair ainda mais audiência para o reality show, rodado em 2012 na Jamaica.
Eis o Mundo Cão em todo o seu esplendor.
Por maior que seja o glamour momentâneo, estamos sempre mais perto do homem-lobo iniciático do que imaginamos. Cinco milénios de cultura são mero verniz, incapaz de mudar o essencial da natureza humana.



Excelente post .
“Panem et circenses” .
Com a progressiva falta do primeiro suspeito que cada vez tenhamos mais do segundo , como muito bem diz a natureza humana é o que é e sempre foi.
Também podia ter dado o título de “Panem et circenses” a este texto, RMG. E é como diz: o circo aumenta na proporção inversa do pão.
Cinco milénios de cultura são mero verniz
Eu diria que cinco milénios de cultura depois as relações entre homens e mulheres continuam a ser algo tensas e prenhes de conflitos e mal-entendidos.
Tal como, aliás, as relações entre seres humanos em geral. Continua a haver guerras hoje em dia tal como as havia há 5.000 anos.
advogada e modelo
Uma combinação curiosa.
Digamos que decidiu aproveitar o corpo (o primeiro recurso das mulheres!) enquanto nova, tirando uma licenciatura em Direito para poder sobreviver mais tarde.
Eu bem digo que a diferença entre nós e os outros animais não é tão grande como a maior parte de nós pensa.
Isso é verdade, Cristina. E enquanto alguns animais se ‘civilizam’, para empregar o chavão, há seres humanos que persistem em exibir a sua face animalesca.
A natureza humana assusta-me, sabendo eu que tenho de conviver com natureza humana que acho que conheço. Acho…
Choca ver alguém roubar a vida alguém desta forma. Com certeza que sendo a pessoa em questão linda, talvez nos faça parar um pouco mais. Sei que isto é politicamente errado dizer. O crime é horrível sendo pessoa bonita ou nem por isso. Mas a beleza em todo o seu esplendor, seja ela a natureza, edifícios , ou simplesmente seres humanos toca-me de forma especial.
Violência doméstica é algo que não compreendo, se gostamos de alguém, o gesto é proteger, não querer ver a pessoa a sofrer. O gesto é não magoar, pelo menos fisicamente. Ainda que o outro tipo de violência tenha tendência a deixar marcas profundas.
O que me chocou na última noticia que li é a “volta” impressionante que estão, ou neste caso, será o advogado que está (parece-me) a tentar dar ao caso, dizendo que Pistorious tentou reanimar a namorada fazendo respiração boca-a-boca .
Quanto ao reality show, se vai passar o programa foi porque a família da modelo autorizou, pelo que corre na imprensa . E se corresponder à verdade isto tudo tresanda a história podre. Não se aproveita nada.
Infelizmente uma mulher com uma vida, que parecia ter tudo para ser bem sucedida morreu de forma violenta e estúpida e isso é imperdoável.
Tudo me choca nesta história, Maria. Mas, dentro do choque que já é a história do crime, tendo sido premeditado ou não, acho particularmente chocante a exploração da imagem da infeliz vítima, já depois de morta, para efeitos de audiência pelo canal de TV em questão. Há patamares éticos que não deviam ser transgredidos, em qualquer quadrante – seja em Portugal, seja na África do Sul.
A surpresa vem só da moral hipócrita que o discurso politicamente correcto (de grande parte da imprensa) instalou na opinião pública – esse monstro estúpido. O facto de ser deficiente e uma besta ao mesmo tempo causa espanto na maioria das almas caridosas que andam por aí e eu não vejo nenhuma razão para isso, a não ser que a piedade lhes tolda o raciocínio.
Mesmo não tendo sido apurados os factos em toda a extensão, aquilo que se conhece basta para dar razão ao que escreve aqui.
Não somos nada, que medo.
É isso, Marta. De um momento para o outro, tudo se esfuma. E ninguém está imune. Por mais célebre ou rico que seja.
Esta frase “Cinco milénios de cultura são mero verniz, incapaz de mudar o essencial da natureza humana” diz tudo!
Infelizmente.
De bestiais… a bestas.
Também dava um bom título, Gonçalo.
Há demasiada confusão para dizer o que quer que seja.
Não há confusão em dois dados essenciais: uma mulher foi morta e um homem disparou a arma que a matou.
Ultimamente reconciliei-me com a imutabilidade da natureza humana à escala do tempo histórico. Alterar a “natureza humana” pelos métodos biológicos clássicos, incorporando-os no ADN é coisa para centenas de milhar ou mesmo milhões de anos! Felizmente que temos ao nosso dispôr métodos muitíssimo mais rápidos de fazer melhores escolhas, através da educação e dos conselhos que se passam de geração em geração. Claro que os resultados não são tão sólidos como quando estão inscritos no ADN mas mesmo assim é muito melhor que nada ou do que ter que esperar pela alteração do ADN!
Rendo-me a tão sábio discernimento, caro JJ. Amarante.
Ainda que nada tenha sido ainda provado o seu post resume muito bem a sociedade humana desde o inicio , gostei !
Por ser deficiente uma pessoa não é isenta do mal mas por ser figura publica também não devia ser linchada pelos media que a “endeusaram” mas é assim que se vive .
E depois de muitos exemplos destes ainda existem pessoas á procura desses “parasitas” que são os media cor de rosa ou será de sangue pois se o sucesso vende creio que o infortúnio pessoal vende muito mais seja ele individual ou colectivo.
O que mais choca, caro WW, é a ausência absoluta de critério. Emoções fortes na construção do mito bestial, emoções ainda mais fortes na edificação do mito besta.
Como se o mundo fosse composto apenas por anjos e demónios, sem matizes.
E assusta ainda mais verificar a tendência tablóide de quase todos os órgãos de informação, mesmo daqueles que ainda há pouco se gabavam da sua conceituada reputação.
O maior erro que o ser humano cometeu,comete e cometerá,é, por pensar ser racional,que esse facto anula por completo o seu lado animal.
Puro engano!
Ele faz parte do nosso ADN e tal como o cancro habita em todos nós sem excepção.
Permanece “ad eternum” num limbo à espera que apareça a fagulha que desencadeie a explosão.
Rezemos para que a nossa nunca apareça!
Um abraço a todos os devoradores do Delito.
Abraço retribuído, caro João Almeida. Estamos naturalmente em sintonia.