França 2 – 0 Nigéria
Este foi um daqueles jogos que demonstram como uma mudança táctica pode mudar tudo. A França começou o jogo com Benzema e Giroud na frente, Benzema sobre a esquerda e Giroud bem no meio. No meio campo tinha Cabaye a médio mais recuado, à frente tinha Matuidi mais sobre a esquerda e Pogba mais sobre a direita e por fim tinha Valbuena por todo o lado, a ligar o meio campo e o ataque. À direita Debuchy atacava livremente enquanto que à esquerda Evra era mais contido. Se na direita Valbuena ia ajudando Débuchy com as tarefas defensivas, à esquerda Bezema ficava simplesmente no ataque e não defendia, deixando Evra muitas vezes sozinho contra dois. O resultado foi uma constante liberdade do defesa direito nigeriano (Ambrose) para atacar e apoiar Odemwingie, Musa ou Emenike (estes três trocavam frequentemente de posições).
Do lado nigeriano, além desse apoio de Ambrose ao ataque e que fez com que o lado direito fosse o escolhido por Keshi para conduzir os ataques, tinham ainda como base a cobertura dada por Onazi (belo jogador) à defesa e aos laterais e a importância de Mikel na construção de jogo. Só destoava Moses, que teve um jogo relativamente apagado e se distinguiu mais no apoio dado à defesa quando Débuchy subia.
O jogo foi assim muito aberto, mas relativamente anárquico, destacando-se do lado francês o mau primeiro toque de Benzema e Giroud. Além de Benzema não defender, a relutância de Evra em subir significava que o flanco esquerdo francês não existia, pelo que os nigerianos podiam concentrar-se em defender o flanco direito francês. Quando Deschamps fez entrar Griezmann, pensei por momentos que este fosse para a direita e Valbuena para a esquerda, mas Deschamps decidiu ir pelo caminho do extremo clássico. Não querendo abdicar das tarefas defensivas de Evra, colocou Griezmann à esquerda (é naturalmente esquerdino) para prender Ambrose e colocar pressão sobre os centrais. Desta forma as subidas de Matuidi ou Valbuena sobrecarregavam a defesa nigeriana (especialmente depois da lesão de Onazi) e do lado direito ia bastando Débuchy com apoio de Pogba.
A partir deste momento os nigerianos “partiram” como equipa e deixaram de ter ligação entre sectores. Não só deixaram de ter a possibilidade de sair a jogar pelo lado direito (foi uma opção constante na primeira parte) como com a saíde de Onazi deixaram de ter um jogador capaz de transportar a bola e de a dar em condições a Mikel. O trio atacante ficou assim sem jogo.
No final houve elementos de sorte nos golos (uma falha do excelente Enyeama e um auto-golo), mas estes acabaram por não surpreender. Fora um ou outro período de algum calafrio na defesa, os franceses estiveram excelentes, especialmente a adaptar-se. Ainda têm falhas, mas continuam a ser, para mim, a equipa mais sólida do mundial.
Alemanha 2 – 1 Argélia
Comentei a certa altura no Facebook que, estando a ver o jogo num bar, os comentários que mais ouvia à minha volta na primeira parte eram “merda!” e “Nããããooo”. Os alemães demonstraram, mais uma vez, as fraquezas do seu jogo. Primeiro que nada a falta de laterais. Mustafi e Höwedes são habitualmente centrais e nem a melhor boa vontade do mundo os transformará em laterais (que serão os jogadores mais importantes da actualidade numa equpa de futebol). Aliás, é que questionar porque razão não dá uma oportunidade a Grosskreutz ou Durm e prefere apostar num central que foi chamado à última hora e não tem grande experiência internacional (Durm já jogou a lateral esquerdo na Liga dos Campeões e Grosskreutz jogou inclusivamente uma final). Adiante.
Sem os laterais para dar profundiade nas alas e usando jogadores que se sentem mais confortáveis no centro ou a fugir do centro para as alas (Özil, Müller ou Götze), o jogo afunilou imenso e as linhas de fundo não foram usadas. Os argelinos defenderam confortavelmente e souberam depois aproveitar as saídas rápidas para lançarem bolas para as costas da defesa (Mertesacker é perticularmente vulnerável a esse tipo de jogo) e dara oportunidade aos seus atacantes para correr para o espaço aberto (Slimani e Feghouli foram excepcionais nessas funções). Valeu-lhes Neuer, que é completamente destemido (um pouco louco, até) a jogar como líbero e foi provavelmente guarda-redes, central e lateral de uma vez só (e ainda iniciou bastantes ataques perigosos com bolas longas e precisas).
Na segunda parte Löw corrigiu a mão e colocou Schürrle, o qual se sente mais confortável à esquerda mas que, de qualquer forma, é um jogador que gosta de partir da ala para o centro. Abriu assim um flanco (o direito) e ocupou um lateral. Do outro lado Löw insistiu inexplicavelmente em manter Özil na ala (onde é pouco eficaz), cuja única virtude foi tentar alargar o jogo. O essencial aqui foi a movimentação de Müller, a arrastar a defesa argelina por todo o lado e a aparecer solto também por todo o lado; bem como a posse de bola, que foi desgastando os argelinos enquanto a perseguiam.
É curioso que a Alemanha tenha de facto começado a dominar mesmo quando Mustafi teve de sair por lesão e Lahm foi ocupar o lugar de lateral direito enquanto que Khedira se foi juntar a Schweinsteiger. Khedira não é nenhum Xavi, mas sabe passar a bola e movimenta-se bem. Com Lahm a Alemanha passou a ter uma auto-estrada na direita que podia atacar livremente enquanto que continuava a saber manter a posse de bola.
Os golos vieram já em fase de esgotamento argelino. Halliche já tinha começado a sofrer de cãibras antes do fim dos 90 minutos e acabou por sair. Slimani já mal conseguia correr. A equipa estava esgotada e já não havia fé ou vontade que os carregasse quando as baterias se esgotaram. O golo honrou-os e colocou alguma justiça no resultado. A verdade é que a Argélia pressionou os alemães até ao fim e demonstrou que Löw, da forma como continua a querer jogar, não irá ganhar o título (ainda acabo na série do Pedro).
Uma nota extra: a forma como anda a marginalizar Grosskreutz e Durm poderá dar dissabores a Löw, especialmente se não jogar com Hummels quando este esteja recuperado (por exemplo, se Lahm for para a direita e Boateng se mantiver no centro). Quando o mundial acabar o seleccionador alemão vai voltar a ter de chamar os outros jogadores do Dortmund e estes poderão não achar piada ao tratamento dado aos seus colegas de equipa. Isto pode ser uma bomba em pavio lento.



Até agora, com maior ou menor dificuldade, os melhores têm vencido os jogos dos Oitavos de Final.
Eu tenho o mau hábito de pensar que a melhor equipa ganha o jogo. Neste caso penso que quereria dizer os favoritos. E dou-lhe razão: até ao último jogo. Pelo menos temos nos quartos de final apenas e só os vencedores dos grupos.
Quiz para memória futura de Paulo Bento e FPF.
As equipas seguintes jogaram com a Alemanha em 2014.
Escolha as que empataram, perderam por um golo, ou foram goleadas por 4-0:
a) Gana
b) EUA
c) Portugal
d) Argélia
Parece que é boa ideia não ser europeu quando se joga contra a Alemanha :).
eh eh… ou pelo menos da zona Euro.
Quem diria! Löw está a ser criticado por antigos jogadores como Brehme ou Felix Magath (atualmente treinador de prestígio). Não sei se o João André entende alemão, mas algo me diz que sim:
http://www.t-online.de/sport/fussball/wm/i d_70086906/kritik-von-allen-seiten-an-jo achim-loew.html
Alemão? Todos os dias. Que solução teria. Alguns termos mais técnicos já só me saem em alemão.
Obrigado pelo link. Ainda não o tinha lido, mas já tinha lido/ouvido alguns comentários mais críticos. Aliás, semelhantes aos que já se ouviam da boca do alemão comum antes do mundial. Nesse aspecto o 4-0 contra Portugal foi ainda melhor do que parece, uma vez que criou uma (temporária) onda de euforia.
Seja como for, Magath dificilmente diz algo de positivo.