Mundial no sofá (9)


joaomsandre,

 

França 2 – 0 Nigéria

 

Este foi um daqueles jogos que demonstram como uma mudança táctica pode mudar tudo. A França começou o jogo com Benzema e Giroud na frente, Benzema sobre a esquerda e Giroud bem no meio. No meio campo tinha Cabaye a médio mais recuado, à frente tinha Matuidi mais sobre a esquerda e Pogba mais sobre a direita e por fim tinha Valbuena por todo o lado, a ligar o meio campo e o ataque. À direita Debuchy atacava livremente enquanto que à esquerda Evra era mais contido. Se na direita Valbuena ia ajudando Débuchy com as tarefas defensivas, à esquerda Bezema ficava simplesmente no ataque e não defendia, deixando Evra muitas vezes sozinho contra dois. O resultado foi uma constante liberdade do defesa direito nigeriano (Ambrose) para atacar e apoiar Odemwingie, Musa ou Emenike (estes três trocavam frequentemente de posições).

 

Do lado nigeriano, além desse apoio de Ambrose ao ataque e que fez com que o lado direito fosse o escolhido por Keshi para conduzir os ataques, tinham ainda como base a cobertura dada por Onazi (belo jogador) à defesa e aos laterais e a importância de Mikel na construção de jogo. Só destoava Moses, que teve um jogo relativamente apagado e se distinguiu mais no apoio dado à defesa quando Débuchy subia.

 

O jogo foi assim muito aberto, mas relativamente anárquico, destacando-se do lado francês o mau primeiro toque de Benzema e Giroud. Além de Benzema não defender, a relutância de Evra em subir significava que o flanco esquerdo francês não existia, pelo que os nigerianos podiam concentrar-se em defender o flanco direito francês. Quando Deschamps fez entrar Griezmann, pensei por momentos que este fosse para a direita e Valbuena para a esquerda, mas Deschamps decidiu ir pelo caminho do extremo clássico. Não querendo abdicar das tarefas defensivas de Evra, colocou Griezmann à esquerda (é naturalmente esquerdino) para prender Ambrose e colocar pressão sobre os centrais. Desta forma as subidas de Matuidi ou Valbuena sobrecarregavam a defesa nigeriana (especialmente depois da lesão de Onazi) e do lado direito ia bastando Débuchy com apoio de Pogba.

 

A partir deste momento os nigerianos “partiram” como equipa e deixaram de ter ligação entre sectores. Não só deixaram de ter a possibilidade de sair a jogar pelo lado direito (foi uma opção constante na primeira parte) como com a saíde de Onazi deixaram de ter um jogador capaz de transportar a bola e de a dar em condições a Mikel. O trio atacante ficou assim sem jogo.

 

No final houve elementos de sorte nos golos (uma falha do excelente Enyeama e um auto-golo), mas estes acabaram por não surpreender. Fora um ou outro período de algum calafrio na defesa, os franceses estiveram excelentes, especialmente a adaptar-se. Ainda têm falhas, mas continuam a ser, para mim, a equipa mais sólida do mundial.

 

 

Alemanha 2 – 1 Argélia

 

Comentei a certa altura no Facebook que, estando a ver o jogo num bar, os comentários que mais ouvia à minha volta na primeira parte eram “merda!” e “Nããããooo”. Os alemães demonstraram, mais uma vez, as fraquezas do seu jogo. Primeiro que nada a falta de laterais. Mustafi e Höwedes são habitualmente centrais e nem a melhor boa vontade do mundo os transformará em laterais (que serão os jogadores mais importantes da actualidade numa equpa de futebol). Aliás, é que questionar porque razão não dá uma oportunidade a Grosskreutz ou Durm e prefere apostar num central que foi chamado à última hora e não tem grande experiência internacional (Durm já jogou a lateral esquerdo na Liga dos Campeões e Grosskreutz jogou inclusivamente uma final). Adiante.

 

Sem os laterais para dar profundiade nas alas e usando jogadores que se sentem mais confortáveis no centro ou a fugir do centro para as alas (Özil, Müller ou Götze), o jogo afunilou imenso e as linhas de fundo não foram usadas. Os argelinos defenderam confortavelmente e souberam depois aproveitar as saídas rápidas para lançarem bolas para as costas da defesa (Mertesacker é perticularmente vulnerável a esse tipo de jogo) e dara oportunidade aos seus atacantes para correr para o espaço aberto (Slimani e Feghouli foram excepcionais nessas funções). Valeu-lhes Neuer, que é completamente destemido (um pouco louco, até) a jogar como líbero e foi provavelmente guarda-redes, central e lateral de uma vez só (e ainda iniciou bastantes ataques perigosos com bolas longas e precisas).

 

Na segunda parte Löw corrigiu a mão e colocou Schürrle, o qual se sente mais confortável à esquerda mas que, de qualquer forma, é um jogador que gosta de partir da ala para o centro. Abriu assim um flanco (o direito) e ocupou um lateral. Do outro lado Löw insistiu inexplicavelmente em manter Özil na ala (onde é pouco eficaz), cuja única virtude foi tentar alargar o jogo. O essencial aqui foi a movimentação de Müller, a arrastar a defesa argelina por todo o lado e a aparecer solto também por todo o lado; bem como a posse de bola, que foi desgastando os argelinos enquanto a perseguiam.

 

É curioso que a Alemanha tenha de facto começado a dominar mesmo quando Mustafi teve de sair por lesão e Lahm foi ocupar o lugar de lateral direito enquanto que Khedira se foi juntar a Schweinsteiger. Khedira não é nenhum Xavi, mas sabe passar a bola e movimenta-se bem. Com Lahm a Alemanha passou a ter uma auto-estrada na direita que podia atacar livremente enquanto que continuava a saber manter a posse de bola.

 

Os golos vieram já em fase de esgotamento argelino. Halliche já tinha começado a sofrer de cãibras antes do fim dos 90 minutos e acabou por sair. Slimani já mal conseguia correr. A equipa estava esgotada e já não havia fé ou vontade que os carregasse quando as baterias se esgotaram. O golo honrou-os e colocou alguma justiça no resultado. A verdade é que a Argélia pressionou os alemães até ao fim e demonstrou que Löw, da forma como continua a querer jogar, não irá ganhar o título (ainda acabo na série do Pedro).

 

Uma nota extra: a forma como anda a marginalizar Grosskreutz e Durm poderá dar dissabores a Löw, especialmente se não jogar com Hummels quando este esteja recuperado (por exemplo, se Lahm for para a direita e Boateng se mantiver no centro). Quando o mundial acabar o seleccionador alemão vai voltar a ter de chamar os outros jogadores do Dortmund e estes poderão não achar piada ao tratamento dado aos seus colegas de equipa. Isto pode ser uma bomba em pavio lento.

7 comentários em “Mundial no sofá (9)”

    1. Eu tenho o mau hábito de pensar que a melhor equipa ganha o jogo. Neste caso penso que quereria dizer os favoritos. E dou-lhe razão: até ao último jogo. Pelo menos temos nos quartos de final apenas e só os vencedores dos grupos.

  1. Quiz para memória futura de Paulo Bento e FPF.

    As equipas seguintes jogaram com a Alemanha em 2014.
    Escolha as que empataram, perderam por um golo, ou foram goleadas por 4-0:
    a) Gana
    b) EUA
    c) Portugal
    d) Argélia

    1. Alemão? Todos os dias. Que solução teria. Alguns termos mais técnicos já só me saem em alemão.

      Obrigado pelo link. Ainda não o tinha lido, mas já tinha lido/ouvido alguns comentários mais críticos. Aliás, semelhantes aos que já se ouviam da boca do alemão comum antes do mundial. Nesse aspecto o 4-0 contra Portugal foi ainda melhor do que parece, uma vez que criou uma (temporária) onda de euforia.

      Seja como for, Magath dificilmente diz algo de positivo.

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